Sei por que você não me assume
Natal, RN 2 de mar 2024

Sei por que você não me assume

23 de setembro de 2023
3min
Sei por que você não me assume

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Sabe por que você não me assume? Por que eu sou mulher demais pra você chamar de sua. Areia demais pra um caminhão que precisa desempenhar certas funções sociais: de pai, de hétero, de quem não gosta do tipo de mulher que sou. E que tipo, hein?! Inteligente, dona da própria vida, corpão, estudiosa, livre, bonita, cheirosa, elegante, bom papo, educada, potente no que diz e segura de onde chegou. TRAVESTI, além do mais! O nome disso é autoestima, autoconhecimento – pra você pode ser convencimento. Que seja! SOU! Tudo isso, SOU! Briguei/brigo com o mundo para ser e não é o fato de seu caminhão não aguentar essa grande e preciosa carga que vai me diminuir. Não mesmo! Um homem para me assumir precisa ser homem demais, não um disfarce, não esse tipo que se autoproclama macho, mas não dá conta de levar uma Travesti, “sua” Travesti pra tomar uma cerveja. Perde a virilidade, a macheza ou o disfarce de hétero cai por terra, caso isso aconteça. Aí, pra se manter, pega como escudo a primeira mulher cis que der bobeira. Esses dias, eu e minhas, colegas de trabalho, estávamos confabulando sobre isso: a quantidade de “homens” que usam mulheres cis como forma de driblar o que eles fazem nos bastidores da sexualidade não revelada. E que geralmente condenam com veemência, em nome da moral e dos bonscostumes. Tudo “cidadão de bem”! E chegamos à conclusão de que mais uma vez, todas nós, mulheres cis ou Trans, terminamos sendo usadas por esses “homens”: seja como elemento de fetiche, seja como disfarce para que ninguém descubra tais desejos proibidos e pecaminosos. É. Sei bem por que você não me assume. Não tem poder sobre si mesmo como eu tenho sobre mim mesma. Não é livre, nem independente. Está preso às regras sociais e ao julgamento alheio. Vive acuado com medo de um deslize (a bebida sempre revela coisas demais, não é mesmo!?), com medo de um dia ser pego olhando, babando pra Travesti “fetichizada”, ou quem sabe na cama com ela... É. Entendo que não me assumir diz mais sobre você do que sobre mim. Diz mais das suas fraquezas, diz mais das suas impotências, diz mais do quanto você deve aos outros, à sociedade, aos filhos, aos pais, à namoradinha que caiu na armadilha de servir de disfarce, do que sobre mim. É. No fim das contas não sou eu que saio perdendo nessa história. Afinal, estou aqui, lutando Muay Thai, inteligente, dona da minha vida, exibindo meu corpão, estudiosa, livre, bonita, cheirosa, elegante, bom papo, educada, potente no que digo e segura de onde cheguei... Convencida, você vai dizer. Além de tudo, TRAVESTI, deliciosamente plena, escrevendo, produzindo, palestrando, namorando, sendo convidada, cortejada e bem-vinda aos melhores espaços, aproveitando a liberdade de ser sem precisar dar satisfação a seu ninguém, nem usar disfarce algum.
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