Obra que analisa construção biográfica de Luiz Carlos Prestes é lançada em Natal
Natal, RN 30 de mai 2024

Obra que analisa construção biográfica de Luiz Carlos Prestes é lançada em Natal

8 de outubro de 2023
11min
Obra que analisa construção biográfica de Luiz Carlos Prestes é lançada em Natal

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Uma reflexão sobre como a memória e a narrativa podem moldar a percepção das figuras históricas. Este é o objetivo central do livro "A Invenção do Cavaleiro da Esperança: políticas da memória na construção biográfica de Luiz Carlos Prestes (1945-2015)". A obra será lançada em Natal, na próxima sexta-feira (13), na Cervejaria Resistência, com a presença do autor, Bruno Rafael de Albuquerque Gaudêncio, e de Mariana Prestes, filha de Luiz Carlos Prestes.

“As tensões, as disputas e como a documentação vai sendo trabalhada por grupos, pelos interessados em pesquisar, o processo de memória e esquecimento vai sendo trabalhado nessa perspectiva”, explica Bruno Gaudêncio.

Em entrevista à Agência Saiba Mais, o historiador revela o resultado de sua tese de doutorado defendida em 2021 na Universidade de São Paulo (USP). A obra mergulha na tarefa de construir a biografia de Luiz Carlos Prestes (1898-1990), uma figura icônica na história política brasileira. O autor examina os limites e possibilidades das narrativas biográficas em relação à história, com foco nos primeiros 50 anos de vida de Prestes, de 1898 a 1948.

O livro, dividido em quatro capítulos, faz uma comparação entre quatro narrativas lançadas no Brasil entre os anos de 1945 e 2015: "O Cavaleiro da Esperança: vida de Luís Carlos Prestes", de Jorge Amado (1945); "Heroísmo Trágico do Século XX: o destino de Luiz Carlos Prestes", de Boris Koval (2007); "Luís Carlos Prestes: um revolucionário entre dois mundos", de Daniel Aarão Reis Filho (2014); e "Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro", de Anita Leocadia Prestes (2015).

Além da análise das narrativas, o livro explora o processo de negociação entre os biógrafos e os familiares de Prestes, examinando os impactos dessa relação no trabalho biográfico sobre o líder comunista. A pesquisa foi orientada pela professora doutora Ângela Meirelles de Oliveira.

Durante o evento, será exibido o documentário em curta-metragem “Maria ao Mar”, de Rômulo Skaff, dedicado a Maria Prestes, esposa de Luiz Carlos Prestes. A noite será embalada por uma apresentação musical de Jo Bay.

Confira, na íntegra, a entrevista com o autor, Bruno Rafael de Albuquerque Gaudêncio.

Foto: Bruno Gaudêncio/Arquivo Pessoal

SAIBA MAIS - Esta não é a primeira produção sobre Luiz Carlos Prestes. O que os leitores podem esperar dessa obra?

Realmente, Prestes tem várias biografias, vários estudos, ensaios, manifestos ao longo do século XX, nesse início do século XXI. O que o leitor pode esperar é uma obra ao mesmo tempo acadêmica, mas também para o grande público, para entender um pouco como se constrói biograficamente um personagem, vamos dizer assim. Então é um texto que procura problematizar as formas em que uma vida ela pode ser contada, pode ser narrada. Eu acabo comparando quatro autores, biógrafos de Prestes, trabalhando como cada um deles construiu um Prestes diferente e ao mesmo tempo muito igual. Que é essa coisa do Prestes sisudo, líder de um partido de esquerda, responsável, coerente, pouco familiarizado com a vida familiar, mas essencialmente partidário, militante e resistente.

SAIBA MAIS - “A Invenção do Cavaleiro da Esperança" é resultado de sua tese de doutorado na USP. Pode compartilhar um pouco sobre o processo de pesquisa e escrita que levou à criação deste livro?

Esse trabalho durou aí cerca de quatro anos para ser escrito, mas passou mais dois anos, uma espécie de burilamento, enquanto projeto de doutoramento. Então, nesse tempo, foram feitas muitas pesquisas. Durante os quatro anos, sobretudo o período de pesquisa em São Paulo, me envolvi também nas entrevistas com os biógrafos vivos, como é o caso do Daniel Aarão Reis e da Anita Leocádia de Prestes, como também me ative à documentação, algumas das documentações que esses biógrafos utilizaram disponíveis em alguns arquivos de São Paulo. Então, além da análise em si das biografias, eu também procurei compreender um pouco o processo de elaboração desses textos a partir da entrevistas.

Foi um processo de pesquisa que durou cerca de quatro anos e que está desdobrando agora, dois anos depois, porque ela foi defendida em julho de 2021, e foi lançada agora em agosto de 2023.

SAIBA MAIS - Seu livro analisa as narrativas biográficas de Luiz Carlos Prestes ao longo de várias décadas. O que o motivou a explorar essas diferentes perspectivas e como isso contribui para uma compreensão mais completa de Prestes?

Eu sempre fui um leitor de biografias, assim desde muito jovem, desde quando eu comecei a ler, eu sempre me interessei por biografias, não só biografias escritas, mas também em quadrinhos, em filmes, os chamados filmes biográficos, os documentários biográficos, então eu sempre fui um curioso em relação a essa coisa da construção narrativa de personagens vivos. E, com o tempo, fui também me dedicando ao desafio biográfico. Como é contar a vida de um outro que você não conheceu através das fontes. Então, essa foi a principal, vamos dizer assim, motivação.

E sobre a questão da contribuição de Prestes, eu acredito que é curioso a gente observar, fazer esse movimento, até para gente ver outros personagens, de como eles são construídos, sobretudo políticos. Como há uma disputa pela memória deles? As versões oficiais, as versões subterrâneas, podemos dizer assim, sobre nebulosos da vida pessoal e política. Então eu procurei, nesse aspecto, problematizar essas questões.

SAIBA MAIS - Durante sua pesquisa, você examinou o processo de negociação entre os biógrafos e os familiares de Prestes. Pode nos dar um exemplo de como essa negociação impactou a construção das biografias?

Desde o início eu percebi que existia uma certa disputa da memória entre duas alas da família. De um lado, a Anita Leocádia Prestes como espécie de defensora, filha de Prestes que está muito atrelada à história política do pai, ao Partido Comunista Brasileiro, e que se tornou secretária e depois historiadora oficial da vida e da atuação dele junto ao PCB. Do outro, você tem aí uma família numerosa, que foi meio excluída ao longo do tempo, que são oito, nove filhos, se não me engano, e que, a partir do momento em que Prestes falece, vai haver uma disputa entre os dois e cada um deles colaborou de alguma maneira com os biógrafos que vieram. Daniel Reis, por exemplo, teve um apoio muito importante da Maria Prestes e seus filhos. Já a Anita negou auxiliar qualquer outro projeto que não os próprios.

Nessa construção biográfica, sempre houve esse confronto, essa tensão entre os dois lados, desde os anos 80. Já existia antes, mas vai sobrepor ali nos anos 80 e, principalmente, depois da morte de Prestes, em 1990. A partir daí, esses conflitos, tensões vão estar muito presentes, inclusive, não só nas biografias, mas na imprensa diária.

Então, eu consegui, principalmente no quarto capítulo da obra, tratar um pouco sobre isso. As tensões, as disputas e como a documentação vai sendo trabalhada por grupos, pelos interessados em pesquisar. Esse processo de memória e esquecimento vai sendo trabalhado nessa perspectiva.

SAIBA MAIS - Luiz Carlos Prestes é uma figura icônica na história brasileira, especialmente na esquerda. O que você acredita que as pessoas podem aprender de novo sobre ele por meio das análises em seu livro?

Além de biografar, você pensar o processo de elaboração biográfica é muito interessante porque é como se você tivesse nos bastidores dessa produção. Então a minha tese buscou justamente isso, entender o processo de elaboração. E isso faz a gente repensar, por exemplo, a questão da mitologia política em relação a pôr que ele se tornou um líder, um mito político ali nos anos final dos anos 20, como ele era durante a Coluna Prestes, como é que ele foi construído e como isso vai mudando ao longo dos anos nos anos 30, 40, 50, até os anos 90, já que é uma figura que está entrecorta, praticamente toda a história política, no século XX.

SAIBA MAIS - Seu livro foca nos primeiros 50 anos da vida de Prestes. Por que essa fase específica de sua vida é tão relevante para a compreensão de sua trajetória?

Esses 50 anos da vida de Prestes são justamente o período em que ele aparece dentro da opinião pública, vamos dizer assim. Ele vai ser alçado uma figura notória a partir da Coluna Prestes, vai se filiar ao Partido Comunista, isso vai criar uma ruptura na sua imagem, vai se filiar ao PCB dentro de um processo de formação e de reelaboração do sujeito Prestes, ali no final dos anos 20, início dos anos 30, e como isso vai sendo moldado do partido, dentro do processo de clandestinidade, de exílio ou de protagonismo, como foi no caso ali entre 1945 e 1947, quando ele é eleito senador da República.

Então, esses cinquenta anos eles são muito interessantes. Não que os outros anos não fossem. Mas ele passou um período muito obscurecido devido à ditadura militar. Eu preferi enfatizar os primeiros 50 anos até para falar um pouco sobre a infância também, que é um outro fato que muitas vezes a gente desconhece dos personagens. Muito se fala que a infância que vai moldar a vida adulta, a personalidade. Então eu procurei comparar um pouco como essas biografias construíram peças nessa perspectiva.

SAIBA MAIS - Como historiador, qual mensagem ou reflexão você gostaria que os leitores e participantes do evento levassem consigo após explorarem sua obra e participarem deste lançamento?

O Prestes talvez seja uma das figuras mais importantes do século XX do Brasil. Pela sua trajetória de vida, pelos caminhos e que ele teve, pelas contradições, como todos nós tivemos. Ele é protagonista do que é extraordinário, de um partido mínimo, pequeno, o PCB nunca conseguiu uma certa notoriedade, até pela perseguição política. Mas o Prestes conseguiu, alçar, dentro da memória, um imaginário coletivo, uma coisa surpreendente. Eu acho que a gente precisa pensar isso. Nós falamos muito, nós não somos um país, somos um país sem memória, mas a gente precisa pensar e repensar um pouco como isso foi sendo construído e o que nós temos de Prestes hoje, como modelo, como uma tradição política na esquerda. É importante a gente pensar e repensar isso ao longo do tempo.

Serviço

O que: Lançamento do livro “A Invenção do Cavaleiro da Esperança: políticas da memória na construção biográfica de Luiz Carlos Prestes (1945-2015)”

Data e hora: sexta-feira (13), 19h30

Local: Cervejaria Resistência (Rua Leonora Armstrong, 35 - Ponta Negra, Natal -RN)

Autor: Bruno Rafael de Albuquerque Gaudêncio.

Número de páginas: 340

Preço: 60 reais

Bruno Rafael de Albuquerque Gaudêncio é Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Historiador, escritor e professor nascido em Campina Grande-PB, nos últimos anos, o autor publicou e organizou diversos livros, incluindo coletâneas de poemas, contos, ensaios, novelas e roteiros em quadrinhos. Sua contribuição para o cenário literário foi reconhecida com o Prêmio de Incentivo à publicação literária 200 anos de Independência, concedido pelo Ministério da Cultura.

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