Peles de imagem
Natal, RN 22 de abr 2024

Peles de imagem

4 de novembro de 2023
4min
Peles de imagem
Foto: Gulfiya Mukhamatdinova/Getty Images

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Quero esse livro! Disse com entusiasmo ao meu amigo que o havia me indicado. Encontrei o volume em pdf no repositório da USP. Salvei na minha área de trabalho e, imediatamente, comecei a ler. E a cada página (digital) que meus olhos se deitaram até agora, não consigo parar de pensar que quero "Viver nas Ruínas: paisagens multiespécies no Antropoceno", da antropóloga norte-americana, Anna Tsing, em formato de "pele de imagem", ou seja, quero o livro físico para sentir o cheiro do papel, para tocar, para riscar, sublinhar, adormecer lendo, colocar na cabeceira, torná-lo não só um objeto, mas um sujeito de troca comigo.

Preciso explicar que "pele de imagem" é como Davi Kopenawa Yanomami descreve os livros físicos escritos pelos homens, no livro biográfico "A queda do céu: palavra de um xamã yanomami", uma enorme compilação de sua oralidade, colocada no mundo por intermédio do antropólogo francês, Bruce Albert. Nessa obra que é sobretudo vivência transcrita sob a fórmula "civilizada" de apreender conhecimento, ele demonstra a diferença entre a inteligência dos brancos e a do seu povo, quando fala da nossa necessidade de fazer livros: "Os brancos se dizem inteligentes. Não o somos menos. Nossos pensamentos se expandem em todas as direções e nossas palavras são antigas e muitas. Elas vêm de nossos antepassados. Porém, não precisamos, como os brancos, de peles de imagens para impedi-las de fugir de nossa mente. Não temos de desenhá-las, como eles fazem com as suas. Nem por isso elas irão desaparecer, pois ficam gravadas dentro de nós".

Bom, ao contrário de Kopenawua ("Davi" é o nome que os brancos lhe deram) eu não tenho memória tão forte assim. Careço de livros. Careço de leitura. Careço da alegria e do prazer de ser capturada para dentro das ideias, da ficção e da criatividade de outros contadores de histórias, de vidas, de ensinamentos e experiências e, assim, diluí-las em minhas próprias ideias e sensações do meu limitado mundo que, quase sempre, se curva à expansão que posso pegar emprestada de outros mundos.

Em um trecho do livro da Tsing, ela come um peixe maravilhosamente apimentado e saboroso e pergunta como é o seu preparo. E a cozinheira explica de maneira rápida e desajeitada: "Você tem um peixe. Você adiciona sal". E Anna Tsing compreende a limitação de palavras e explica que o ato de cozinhar reside na performance corporal. E é isso mesmo. Então eu puxo o novelo das minhas próprias experiências e penso sobre fazer pão. A receita pode até ser a mesma, mas a forma como você faz, o tempo de sova, o tipo de fermento, o tempo de descanso, a temperatura do forno e, sobretudo, a mão de quem faz e a intenção empreendida determinarão a trajetória daquele pão e o encontro dele com quem vai saboreá-lo.

É a mesma coisa com os livros, com as palavras, com gestos e com o amor pelas pessoas. Não adianta falar para quem não sabe ouvir. Não adianta ouvir uma eternidade de palavras ditas e reditas, que dançam sem música, porque estão nuas de ações. Por isso eu amo cada vez mais o silencioso pulsar das minhas veias, entorpecidas pelas leituras mundo afora, percorrendo um córrego de resiliência, gratidão e um bocado de coisa que ainda tenho para viver por aí.

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