Acusados de matar advogado em Mossoró serão julgados em Natal
Natal, RN 26 de fev 2024

Acusados de matar advogado em Mossoró serão julgados em Natal

7 de dezembro de 2023
7min
Acusados de matar advogado em Mossoró serão julgados em Natal
Eliel Ferreira Cavalcante Jr era advogado e tinha 26 anos quando foi assassinado

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O julgamento dos três réus acusados de matar o advogado Eliel Ferreira Cavalcante Jr, que tinha 26 anos, está marcado para ser realizado na próxima terça (12), no Fórum Miguel Seabra Fagundes, em Natal.

O crime aconteceu em Mossoró, no dia 09 de abril de 2022. Mas, a pedido da defesa dos réus, que justificou que a população da cidade estaria influenciada em razão da forte comoção provocada pelos crimes, o julgamento foi transferido para Natal.

Os réus, dois deles envolvidos com tráfico de drogas, alegam que estavam abordando ‘suspeitos’ na rua e que confundiram Eliel e o companheiro com assaltantes. Eliel morreu depois de correr por 110 metros tentando fugir da perseguição dos réus e ser atingido por nove disparos de uma pistola 9 milímetros.

Um dos acusados, Ialamy Gonzaga (também conhecido como Jr Preto), era vizinho do companheiro de Eliel, ou seja, conhecia as vítimas, e tinha passado o dia bebendo com mais dois amigos: Francisco de Assis Ferreira da Silva (Neném) e Josemberg Alexandre da Silva (Beberg). Os três são acusados dos crimes de homicídio e tentativa de homicídio.

Como aconteceu

Eliel e o companheiro, Lucas Emanuel, conversavam na calçada, em frente ao condomínio de Lucas, quando foram abordados por dois homens. Em depoimento, Lucas contou que, à princípio, chegou até a pensar que se tratava de um assalto.

Na tentativa de fugir, as vítimas correram para lados opostos. Lucas acabou indo para uma rua mais aberta e com muito movimento. A equipe de advogados da vítima, que acompanha o caso, acredita que isso foi determinante para que os suspeitos desistissem de persegui-lo e fossem atrás de Eliel, que ainda correu por 110 metros tentando escapar, mas foi alcançado numa rua menos movimentada e mais estreita.

Quando as vítimas foram abordadas, Lucas pensou ser assalto e até arremessou o celular para o interior do condomínio. Os dois réus sinalizaram para um terceiro, que estava embaixo de uma árvore, com a arma. Era o vizinho de Lucas, que não foi reconhecido de imediato porque estava escondido embaixo da sombra da árvore. Mas, ao longo da investigação descobriram que era ele, que também assumiu a autoria dos disparos em depoimento e foi reconhecido por testemunhas”, revela um dos advogados da defesa das vítimas.

A justificativa dos acusados para o crime é que eles estavam abordando pessoas ‘suspeitas de assalto’, como se fossem justiceiros na região, que fica no bairro Boa Vista, em Mossoró, e confundiram Eliel e o companheiro com assaltantes.

Porém, a defesa relata que, na verdade, a intenção dos acusados era mesmo de executar as vítimas.

Como os três [réus] estavam perseguindo Eliel e gritando ‘pega ladrão’, em uma parte da rua uma quarta pessoa acaba alcançando o Eliel e segurando-o com um mata-leão, arrastando-o para a calçada de uma oficina. Eliel estava rendido quando o Alamy (Jr Preto) já chega disparando. Ele não pergunta nada, não dá oportunidade de defesa. O ódio era tão exacerbado que ele atinge até a pessoa que rendeu Eliel, que foi atingido por nove disparos. Ele descarregou o restante dos tiros da arma em Eliel. A pistola tem capacidade para 12 disparos, foram dois durante a abordagem e um no rapaz que rendeu Eliel. Tínhamos uma pessoa rendida, se supostamente ele achava que era um ladrão, o normal seria chamar a polícia, mas ele decidiu executar, com o apoio dos demais réus”, relata Carlos.

A quarta pessoa que acabou contribuindo para a execução de Eliel ao aplicar um mata-leão não foi indiciado pelo delegado, nem denunciado pelo Ministério Público, que entenderam que ele agiu de forma involuntária e não tinha a intenção de ferir a vítima, sendo induzida ao erro pelo demais que gritavam ‘pega ladrão’. Ele foi atingido na região inguinal (virilha), foi socorrido e liberado.

De acordo com os advogados de Lucas, o vizinho conhecido como Jr Preto era uma pessoa problemática para a vizinhança. Ele costumava exibir a arma de fogo usada no crime sempre que bebia. O réu tinha licença de posse da arma, mas não de porte. Com isso, ele não poderia estar com a arma na rua, mas somente guardada em casa.

Ele promoveu uma bebedeira ao longo de todo o dia e, ao final, decidiu abordar pessoas na rua e executar sumariamente. Jr Preto tinha costume de mostrar arma quando bebia, era um vizinho problemático para as pessoas que moravam ali. Os três eram amigos com um laço pernicioso, com alguns envolvidos na prática de tráfico de drogas. Neném é marido da irmã de Josemberg, que teve um irmão morto em 2018 e era um traficante famoso na Boa Vista [bairro de Mossoró]. Neném já foi preso porque estava armazenando meio quilo de cocaína a pedido do irmão de Josemberg, que era famoso na área. Eles sempre se acharam os donos da rua. Era uma combinação perniciosa de drogas, armas e bebidas”, revela o advogado das vítimas.

Lucas, que sobreviveu ao atentado, sofre de estresse pós-traumático e faz acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Já a família de Eliel teve que se mudar da cidade porque a mãe dele chorava 24 horas por dia, sem conseguir lidar com as lembranças e a perda do filho.

“Passamos por muito sofrimento. Além da perda do filho, tivemos muitos problemas de saúde, problemas psicológicos por causa disso. Minha esposa passa por tratamento ainda hoje, tanto psiquiátrico como psicológico. Esperamos que seja feita justiça. Eliel não volta mais, só queremos que a justiça faça a parte dela e que os assassinos paguem pelo crime que cometeram”, desabafa Eliel Ferreira Cavalcante, que tinha o mesmo ‘nome do filho, que ganhou um Júnior no final, em homenagem ao pai.

A cada dia a saudade aumenta, é difícil, é uma ferida que não cicatriza, que sempre arrebenta, principalmente, para a mãe. Eles eram muito ligados”, lamenta o pai.

Eliel tinha uma irmã que, assim como ele, era advogada, com especialidade na área criminalista. Desde sua morte ela abandonou a profissão e trabalha, atualmente, como maquiadora profissional.

Tanto Lucas, quanto a família de Eliel estão como assistentes da acusação dos advogados Carlos Firmino, Natã Xavier e Yuri Sousa, que acompanham o caso. Os dois crimes dos quais os réus são acusados, o de homicídio e de tentativa de homicídio, possuem qualificadoras e são considerados hediondos, por terem sido cometidos por motivo torpe e por ter dificultado a defesa das vítimas, que foram abordadas de surpresa. As qualificadoras aumentam as penas dos réus.

Quando Eliel saía de casa, sempre falava com a gente. Nesse dia ele foi ao shopping, retornou à noite e quando foi sair pela segunda vez, me acordou para avisar que ia jantar com colegas. Meia hora depois chegou a notícia de que ele havia sido baleado, mas ele já tinha morrido. Nosso filho era uma pessoa tranquila, estudiosa, muito educado, nunca desrespeitou ou alterou a voz com os pais”, lembra o pai que aguarda o julgamento dos assassinos do filho.

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