Macabéa
Natal, RN 2 de mar 2024

Macabéa

16 de dezembro de 2023
4min
Macabéa

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Trago hoje uma história publicada na coletânea de contos inéditos do Selo Off Flip 2023. Ele é curto. Entrecortado, como vidas que são interrompidas. É bonito e cheio de sonhos, apesar da crueldade com que ele está recheado. Faz a gente refletir sobre muita coisa... Sobretudo sobre a crueldade e a desumanização de pessoas Trans/Travesti.

Convido todas, todes e todos à leitura.

***

Tenho 25 anos. E digo a todas as pessoas que se morresse agora, já vivi demais. Não que eu não queira viver mais. Viver é bom... “Viver é luxo” – li isso n’A hora da estrela de Clarice Lispector. (É... Eu leio.... Muito por sinal! Tem gente que se assusta quando sabe!) Mas é que eu vivo intensamente, saca?! Como quem sabe que não vai estar viva amanhã. Me deram 35 anos como expectativa de vida. Sim! 35! Não tenho doença terminal.... É que eu sou uma Travesti (com letra maiúscula, porque pelo menos eu me respeito e vejo dignidade na minha existência). 35 é a média! Entende por que “Viver é luxo”?! Parece que ainda tenho mais dez anos pra curtir. Pra ser diva. Pra ser mulher.... E pra ler. Todo mundo sabe que sou puta! Mesmo que não tenha desejado isso. Sou uma jovem que sonhou, que estudou até enquanto a escola me disse que eu era um problema. Até quando a violência cruel me atravessou na escola, quando saí daquele banheiro dos meninos (porque não me deixavam usar o banheiro feminino, mesmo eu sendo uma garota) com a cara cheia de merda e urina. Quase morri afogada em merda e urina naquela noite. Não voltei mais. Ninguém me queria ali. Acho que só a bibliotecária gostava de mim. Isaura é o nome dela. Ainda está lá. Ela sabia da minha paixão pela leitura. Sabia de mim desde pequena. Ela continuou levando livros pra eu ler. Éramos vizinhas. (Não somos mais. Fui expulsa.) Todo mundo sabe que sou puta! A menina leitora teve que se virar pra viver, né!? Não tenho qualificação. Não terminei nem a primeira série do Ensino Médio (Fui longe, ainda! – Me dizem.) Sou bonita, magrinha, tomo hormônios por conta própria. Pego remédio pra não ter filho no postinho do bairro – é clandestino, me faz mal, eu percebo, mas me deixa feminina. Tenho peitos por conta dos remédios. Nunca fui num médico. Eles não atendem. Um dia vou me bombar...Tomara que eu não morra de uma infecção. Vou ter peitão... Bundão eu já tenho... Por isso virei puta. Tem horas que eu fico sonhando em ser famosa, ou em ser uma das heroínas das histórias que leio. Sonho com amores eternos, uma casa, um marido fiel, um gringo que me leve pra Europa, ou um cafajeste que me faça chorar e sofrer, mas que ande de mãos dadas comigo na rua e me faça mulher pra todo mundo ver. Na real... eu sou uma Macabéa. Sou uma jovem nordestina nas ruas do Rio, como cachorro quente com Coca-Cola porque é barato, não sei do dia de amanhã, e até os 35, serei a estrela do meu ponto... “Viver é luxo” – me disse Clarice. E me agarrarei a isso até meus 35 anos.

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