O cinema e a memória de Carlos Tourinho, cineasta apaixonado por Natal
Natal, RN 5 de mar 2024

O cinema e a memória de Carlos Tourinho, cineasta apaixonado por Natal

29 de dezembro de 2023
11min
O cinema e a memória de Carlos Tourinho, cineasta apaixonado por Natal
Carlos Tourinho com ele mesmo em foto ao fundo I Foto: Eduardo Alexandre

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O cineasta Carlos Tourinho era apaixonado por Natal. Tanto é que, além de morar na cidade desde 2006, planejava rodar um filme sobre a capital potiguar. O roteiro foi escrito pelo amigo Eduardo Alexandre, o Dunga, que é escritor e pesquisador.

Em Natal, Tourinho passou muitos anos morando na Redinha. Mas, nos últimos meses, havia se mudado para um apartamento no bairro do Tirol que pertencia a uma amiga que estava no exterior e preferiu deixar o imóvel aos seus cuidados que, por sua vez, economizaria com o aluguel.

Nesses últimos meses estávamos trabalhando juntos por causa dos editais da Lei Paulo Gustavo e ele me cobrou algo que não havia dado importância, há uns três anos ele havia me pedido um roteiro sobre a cidade de Natal. Ele disse: Eu queria fazer um filme em agradecimento a essa cidade por tudo que ela me deu, por me acolher tão bem”, revela Dunga, que até escreveu o roteiro, mas não houve tempo para que o filme fosse rodado, já que Tourinho acabou falecendo na última terça (26), aos 84 anos. Ele foi enterrado nesta quinta (28), no Cemitério de Bom Pastor I, na Zona Oeste de Natal. 

Praia da Redinha I Foto: Alex Régis/ Secom Prefeitura de Natal
Praia da Redinha I Foto: Alex Régis/ Secom Prefeitura de Natal

O roteiro foi escrito a partir de um livro escrito por Dunga há mais de 20 anos. O título “O professor Napoleão” foi publicado em 2021 e levou o prêmio de melhor livro de literatura infanto juvenil pela Lei Aldir Blanc.

O desafio foi adaptar o livro para roteiro cinematográfico. O personagem principal, que é o professor, fala da história de Natal e do Rio Grande do Norte desde o chantamento do Marco de Touros, a casa de pedra de Pirangi, que veio antes mesmo do Forte [dos Reis Magos]. O roteiro não segue uma linha cronológica, a história vai sendo contada conforme o professor é instigado pelos alunos. Ele fala como Natal foi fundada e da história da Fortaleza dos Reis Magos durante uma visita ao local. Todos os textos são relíquias porque, por exemplo, o do Marco de Touros eu peguei de uma carta de Américo Vespúcio na qual ele narra cenas de canibalismo ocorridas depois do chantamento. Achei importante esse texto porque há uma visão muito deturpada, dizendo que foi trazido por Pedro Álvares Cabral... e isso é contado na escola. É uma inverdade porque deixamos de homenagear um cara muito mais importante que é Américo Vespúcio”, detalha Dunga.

Tourinho era mesmo um cineasta apaixonado por Natal e ele usou aquilo que melhor sabia fazer, que era sua arte, para entender um pouco mais sobre os personagens e vivências desse espaço pelo qual nutria tanto carinho.

Fez documentários sobre o Beco da Lama, registrou figuras conhecidas do folclore urbano da cidade e incentivou a cultura cinematográfica por todo o Rio Grande do Norte fundando o Instituto Técnico de Estudos Cinematográficos (ITEC). Através da instituição, que tinha sede na Fundação José Augusto, Tourinho oferecia oficinas de iniciação ao cinema com câmeras profissionais e digitais. Ele viajou por várias cidades do interior do estado com essas oficinas, despertando o afeto pela sétima arte em jovens que, muitas vezes, sequer tinham entrado numa sala de cinema. Além disso, com a iniciativa, Tourinho também ensinava as várias funções envolvidas na produção de um filme.

"Carlos Tourinho é um realizador da mais alta relevância. É uma figura que, certamente, contribuiu para a formação de inúmeros profissionais. Eu mesmo tive a honra de fazer um curso de documentário com ele. Além disso, Tourinho cumpriu um papel fundamental na organização política do setor, dos realizadores do audiovisual, o pessoal do cinema. Ele foi fundador ABDC, a Associação Brasileira de Documentarias e Curtametragistas, secção RN. É uma figura que vai deixar muita saudade e indispensável para a cultura potiguar", lamenta Ruy Rocha, realizador, pesquisador e professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Um dos personagens registrados por Tourinho no Beco da Lama I Imagem: reprodução
Uma das aulas do cineasta na cidade de Martins I Imagem: reprodução

Tourinho produziu e dirigiu curtas de ficção e documentários que exibiam o cotidiano natalense e seus personagens como “Um Beco no Meu Caminho”, “Rua Chile”, “O Confessionário”, “Martins”, “Cartas na Mesa”, “O Quarto”, “Boy Peba”, “Redinha Arredia”, “Conversa de Botequim” e “Véu de Renda Negra”.

Cinema é emoção, narrativa e memória. Tourinho sabia bem disso e, apesar de não ter conseguido inscrever o filme para concorrer nos editais da Lei Paulo Gustavo (apenas o roteiro está concorrendo), o cineasta tinha certeza de que faria a obra.

Ele dizia: Dunga, não se preocupe, a gente consegue recursos, concorre a outra edital... mas eu vou fazer esse filme”, revela o amigo.

O roteiro que seria filmado por Tourinho bebe em textos originais, escritos por religiosos e integrantes das expedições ao “Novo Mundo”.

A narrativa dele [de Américo Vespúcio] é da comilança que os índios fizeram com os portugueses e isso chama a atenção dos europeus quando ele volta para Europa. Ele esteve aqui antes da viagem de Cabral, que não descobriu coisa nenhuma, Brasil já era conhecido como Ilha do Brasil desde 1343, como insula do Brasil. Diz lá que levaram o Pau Brasil e que isso caiu no esquecimento. Por que viagens não foram feitas antes? Porque não tinham embarcação para atravessar o Atlântico. Já sabiam do Brasil e o Tratado de Tordesilhas é prova disso. Os alunos perguntam sobre a cidade de Atlântida e o professor explica que não é nada mais do que a América”, conta Dunga sobre o roteiro do filme.

Dunga, em uma das filmagens de Tourinho na casa de amigos

Durante as pesquisas para escrever o livro e fazer a adaptação para roteiro cinematográfico, Dunga conta que os registros históricos mostram que os potiguares tiveram reação violenta à chegada dos invasores, mas acabaram sendo dizimados diante da desproporção das armas utilizadas pelos portugueses.

“Tem um texto sobre o Marco de Touros do Frei Vicente do Salvador, que fala do morticínio dos índios. O Brasil começa pelo Nordeste e pelo Rio Grande do Norte. A reação dos potiguares foi de defesa, mas eles tinham poucas armas de fogo, conseguidas com os franceses, que eram inimigos dos portugueses. Depois veio a invasão Holandesa, peguei o texto de um dos diretores da Companhia das Índias Ocidentais, escrito na época, da 1ª tentativa de tomada do forte em 1631 e da invasão em 1633. O professor Napoleão deixa os alunos de boca aberta com a história de Natal, mostra a Cidade Alta, onde nasceu a cidade, a Ribeira...”, continua Dunga numa conversa por telefone.

Carlos Tourinho I Foto: cedida

O amigo havia encontrado Tourinho pela última vez no dia 15 deste mês, justamente, para falar sobre o roteiro do filme.

Foi quando disse que não estava preocupado com a perda da inscrição no edital, porque ele ia fazer aquele filme de qualquer jeito. Ele era tomado de amor muito grande por Natal, inclusive pelo Beco da Lama, sobre o qual fez filmes de ficção e documentários, no qual retratava a realidade do Beco há 15 anos, hoje é algo completamente diferente. Ele só tinha se queixado de cansaço, mas andava, falava, brincava... estava normal, não usava bengala, pegava ônibus sozinho”, conta Dunga.

Ao tentar fazer a inscrição de Carlos Tourinho nos editais da Lei Paulo Gustavo, Dunga se deparou com um extenso currículo de quatro páginas apenas de trabalhos realizados pelo cineasta.

Cartaz de Jesuíno Brilhante

Era uma obra atrás da outra, com várias atividades de cinema que ele exerceu durante a vida, uma obra de quem tem mais de 40 anos de trabalho. Ele gostava de curtas e mais ainda de documentário”, revela Dunga.

Tourinho nasceu no Piauí, morou no Rio de Janeiro e veio ao RN pela primeira vez em 1972, como o Diretor de Fotografia do filme Jesuíno Brilhante, que teve parte das locações gravadas em Assú, com a participação de várias pessoas da cidade e da região como figurantes. O cineasta se mudou em definitivo para Natal no ano de 2006, quando também fundou o Itec.

Em suas redes sociais, Dunga escreveu um depoimento sobre a influência que Tourinho exerceu sobre o cinema e a arte da vida:

"Morreu Carlos Tourinho.
Em 1972, para realizar tomadas de cenas do filme Jesuíno Brilhante em terras norte-rio-grandenses, Carlos Tourinho, piauiense, residente no Rio de Janeiro, veio a Natal pela primeira vez. Seria o diretor de fotografia da película que iria contar a história de um filho de família abastada dos interiores, que tem um primo assassinado por tropas policiais e que resolve fazer vingança, tornando-se cangaceiro.
O filme foi dos mais aplaudidos pela crítica do sul do país e considerado um bom fruto pelo mercado cinematográfico brasileiro. Natal ainda vivia a febre dos encontros do Grande Ponto, centenas de homens reunidos para bate-papos à Rua João Pessoa, entre a Avenida Rio Branco e Rua Princesa Isabel, na Cidade Alta. Uma turma grande, aficionada do cinema, reunia-se na Praça das Cocadas – como eles rebeldemente chamavam a praça do Grande Ponto, discutindo arte, principalmente cinema, que tinha programação especialmente planejada pelo Cine Clube Tirol, todas as manhãs de domingo, no Cine Rio Grande, ali perto, à Avenida Deodoro.
Nove de dez deles sonhavam ser cineastas e possuir equipamentos que pudessem projetar em suas próprias casas as imagens dramatizadas que mais gostavam. Intelectuais de grandes conhecimentos na área, eles pouco destacavam atores, os filmes eram referidos pelos seus diretores: os brasileiros Glauber Rocha ou Nelson Pereira dos Santos; os estrangeiros Pier Paolo Pasolini, Alfred Hitchcock, Jean-Luc Godard, François Truffaut, Alain Resnais estavam na boca de todos.
Carlos Tourinho voltou para o Rio de Janeiro levando o sonho de ajudar a fazer de Natal um polo cinematográfico; sonho esvanecido pelas dificuldades e pelo tempo.
Em 2006, ele retornou a Natal, agora para morar e tentar tornar realidade o sonho de fazer cinema na cidade. Estabelecido, cria o Instituto Técnico de Estudos Cinematográficos – ITEC, com o objetivo de formar mão-de-obra especializada no gênero. E cai em campo, anunciando curso no qual os alunos passariam por todas as fases de produção de um filme: aprenderiam a lidar com câmeras; refletores; escreveriam roteiros; tornar-se-iam continuístas, claquetistas, maquinistas, atores
".

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