Um assombramento, um abraço e um agradecimento
Natal, RN 22 de mai 2024

Um assombramento, um abraço e um agradecimento

23 de dezembro de 2023
4min
Um assombramento, um abraço e um agradecimento

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Três episódios distintos, três homens diferentes, três inusitâncias, como nomeei uma das minhas colunas desse mês. É isso que trago para a penúltima coluna de 2023.

O primeiro deles: o assombramento. Chegou até mim como uma revelação: eu era um ser que chamava muita atenção aos olhos de um menino gay que, ao mesmo tempo que se encantava quando me via passar nas ruas de Caicó com meus cabelos de fogo e meu andar de pressa, se enchia de medo.

“Você era um ser proibido, um corpo proibido” – disse-me ele. Ser que carregava as culpas, as dores e as delícias daquele menino que, de alguma maneira sabia que seria uma pessoa da minha comunidade. Farejamento de semelhantes.

Essa história aconteceu há anos. E aquele menino, hoje um homem gay, me revelou isso com os olhos cheios de brilho, encantamento e ainda medo. Daqueles que a gente percebe por traz do riso descontrolado, da voz trêmula e do nervosismo detectável.

O segundo episódio: o abraço. Havia muito tempo não recebia um abraço daqueles. Abraço desconhecido, porém casa, de tão familiar. Abraço recheado de tantas coisas que não soube identificar na hora. Não foi um abraço, foi o abraço. Recebi-o indefesa e sem explicações. Espontâneo, em uma fila de almoço de confraternização, entre muitos olhares.

Veio de uma pessoa que até então não saberia dizer quem era. Um professor, jovem, de outra cidade, uma na qual já trabalhei. Para ele, eu era uma referência. “Você para mim é representatividade” – foi o que ele me disse. Guardei o abraço, estou presa nele. Guardei a mensagem e a promessa de uma conversa. E de um outro abraço, que sei, não será mais o mesmo, pois não me tomará de assalto.

E quanto ao terceiro... O agradecimento... Sou grato por tudo o que você fez por mim – recebi essa mensagem. Não reconheço que tenha feito muito. Na verdade, acho que falhei. Mas aquelas palavras vindas aleatoriamente, no meio de outro assunto, me fizeram ficar reflexiva. O que fiz de fato? Ensinei o quê? Deixei que lições?

Parece que mesmo que eu não saiba dizer, as palavras daquele rapaz de 20 anos, em forma de agradecimento, diziam-me que pelo menos eu tentei... E que alguma coisa foi feita, mesmo sem sabermos ao certo como.

Três episódios distintos, três homens diferentes, três inusitâncias marcaram meu 2023.

Nunca imaginamos o tamanho do alcance de nossas vidas sobre outras. Não sabemos quem nos vê, nem como elas nos leem e nos interpretam. Não sabemos o quanto impactamos positivamente ou não a vida de outras pessoas. Nós não temos os olhos dos outros, e, portanto, somos cegos diante de nós mesmos. Não sabemos de como nossas existências atravessam outras.

Esses três episódios me colocaram em estado de introspecção e reflexão quanto a essas conexões todas que, conscientes ou não, estabelecemos com quem está à nossa volta: conhecidos, desconhecidos, transeuntes, companheiros de viagem, alunos, amigos, familiares, colegas de trabalho, namorados, filhos...

Como nos percebem? Como nos entendem? Como nos assimilam em suas vidas? Onde alcançamos? Como alcançamos? Alcançamos, de fato? Esse estado reflexivo me imbuiu de senso de responsabilidade. Obrigou-me a sair da minha bolha individual para tomar consciência de que sou só parte. Estou presa, conectada, atada a uma engrenagem que não compreendo, que não compreendemos. Apenas existimos e somos dependentes uns dos outros. E isso é um fato.

Não sabia que essas vivências iriam mexer tanto comigo: Um assombramento, um abraço e um agradecimento... Eles me tornaram mais fraterna. Penso que esses episódios me humanizaram um pouco mais e fico feliz que as flechas disparadas (mesmo que inconscientemente) voaram de volta e me atingiram... fui atravessada por três outras vidas...

Vou fechar 2023 mais plena de humanidade!

Vou festejar o Natal mais cheia de luz, paz e amor ao próximo!

Vou estar entre os meus, mas carregada de tantos outros!

No mais, desejo a você que me lê, um Natal assim: cheio de bons assombramentos, de fortes abraços e de agradecimentos sinceros.

Feliz Natal!

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