Deixe elas!!!
Natal, RN 24 de mai 2024

Deixe elas!!!

6 de janeiro de 2024
3min
Deixe elas!!!
Imagem ilustrativa. Crédito — Freepik / Licença grátis.

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Na parada de ônibus, enquanto esperava meu transporte, concentrada com um livro aberto no colo, fui surpreendida com um diálogo que me desprendeu da leitura...

Tá muito velha – dizia o homem 1.

Os homens aqui eram tudo doido por ela -  retrucou o outro.

Depois que casou e foi embora daqui nunca mais tinha dado as caras -  continuou o número 1.

Também, acabada desse jeito, eu sumia mesmo – acrescentou o outro entre risos debochados.

Como eram esses homens?! Velhos e acabados, acabadíssimos. Desses que o etarismo destilado por eles também os atravessa. Mas, por serem homens, acreditam que não os atinge.

A mulher em questão, descia de um dos ônibus. Aguardava com suas muitas bagagens um táxi que se posicionava para embarcá-la.

Era alguém que deixara a cidade ainda jovem, decerto. E que, por razões que só a ela cabia saber, estava de volta. Não mais jovem, verdade, mas deslumbrante para a idade que parecia ter: entre 65, 70 anos.

Na hora não pude deixar de pensar de forma etarista. Não com relação à mulher, mas com relação aos homens. Uns trastes feios e velhos desses! Quebraram os espelhos de casa, pra não verem as carcaças que viraram. Juntando os dois não dá metade da beleza que ela ainda carrega...  E segui pensando, com o livro fechado, alimentando meu etarismo e meu discurso de revolta contra aqueles velhos homens velhos.

Peço desculpas pelo desembesto de pensamentos etaristas contra eles, mas eles atacavam uma mulher... Sororidade é tudo numa hora dessas. Tive vontade, inclusive, de dirigir-lhes a pergunta: Vocês não perceberam que a idade também chegou e que o impacto dela sobre suas imagens não foi de nada generosa?! – Polida, mas áspera!

Não o fiz. A idade me fez aprender a controlar certos impulsos que a juventude não filtrava... Meu ônibus chegou exatamente nessa hora. Peguei meu lugar na fila que se formava para o embarque, subi, tomei meu assento, reabri meu livro...

Não consegui mais me concentrar. A cena e o diálogo me voltavam à cabeça o tempo todo e com eles uma série de conjecturas: No mínimo ela nunca deu bola pra eles. Afinal, todo mundo queria pegar ela. Despeito, só pode. Desejo recolhido. Dor de cotovelo curtida com o tempo. Se ela se mostrasse disponível, eles pulavam em cima feito hienas sobre a presa, certeza. Deixava de ser velha e acabada em 10 segundos. Eles podem envelhecer e se acharem os “paizinhos”, os “velhos da lancha”, mas nós, mulheres envelhecemos e somos acabadas, as velhas descartadas... E não pudemos envelhecer, não, é?! Deixa eles pensarem assim... Enquanto isso a gente vai pegando os “novinhos” KKKKKKKKKK...

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