Ler o que está escrito? Não, obrigado!
Natal, RN 22 de fev 2024

Ler o que está escrito? Não, obrigado!

30 de janeiro de 2024
4min
Ler o que está escrito? Não, obrigado!

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A piada é bem conhecida. A pessoa posta nas redes sociais e grupos de zap o seguinte anúncio: "Vendo bolo de cenoura com cobertura de chocolate, vinte reais cada um, entrego em domicilio, falar comigo, Maria, contato 9999-2222". Em seguida, como comentários, as perguntas: "É bolo de quê?"; "Tem cobertura?"; "Quanto custa?"; "Entrega em casa?"; "Qual o contato?". É como se a pessoa não quisesse ler o texto, o enunciado.

Claro que em uma realidade tão complexa como a atual, com recessão,  perda de direitos, violência, desajuste social, extrema-direita, esse tipo de "leseira", como diz no Nordeste, é coisa pouca, quase uma besteira. Mas reflete dois fenômenos também atuais que a grosso modo merecem uma atenção: a dificuldade de leitura (e ainda mais de compreensão de texto) e a relação com a internet e redes sociais. 

Fui dar uma pesquisada e achei números bem preocupantes: pesquisa encomendada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) no final de 2023 mostra que 84% dos brasileiros acima de 18 anos de idade não compraram livros no ano. A pesquisa cita algunas das razões: falta de tempo, os preços, poucas livrarias e ausência dos livros nas lojas.

A pesquisa ainda revela que 60% dessas pessoas consideram o hábito da leitura importante, mas se sentem desmotivadas para comprar livros. Entre os que compraram pelo menos um livro em 2023, 57% são mulheres e 43% são homens. Segundo o estudo, no Brasil existem cerca de 25 milhões de consumidores de livros. Pouco para uma população de 200 milhões de almas. Mas é que temos.

Sobre internet encontrei um estudo da Microsoft feito em 2018 que aponta que as pessoas em geral perdem a concentração após apenas oito segundos após entrar on line. Os fatores também são variados: uma infinidade de abas abertas no navegador, o alerta de e-mails soando a cada cinco minutos, o celular vibrando com notificações do WhatsApp ou de aplicativos de notícias. Informação demais ao mesmo tempo, que torna mais difícil se concentrar numa atividade só como ler uma página de um livro. Ou entender sobre onde e como o bolo é vendido, qual seu preço e de que ele feito.

Os estudos mostram que os efeitos das tecnologias são mais perceptíveis e preocupantes entre os jovens. Não duvido, mas pessoalmente vejo a minha geração (entre 45 e 55 anos) terrivelmente perdida não apenas com a tecnologia em si, mas na percepção de informações disponíveis na rede, sendo justamente o público que cai em golpes virtuais.  E que faz as perguntas sobre o tal bolo de cenoura com cobertura de chocolate.

Precisamos todos, jovens e coroas, ler mais livros e regular melhor nossa maneira de usar e absorver a Internet? Com certeza. O desafio é como fazer isso numa época em que você no mesmo celular e ao mesmo tempo pode assistir um filme, ler um livro, falar com os amigos, assistir a um gatinho fofo no tik tok e fazer um pix. De quebra ainda pode comprar o bolo de cenoura com cobertura de chocolate por vinte reais. Depois de perguntar o sabor e o preço,  claro.

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