Chei(r)o de afeto
Natal, RN 28 de fev 2024

Chei(r)o de afeto

10 de fevereiro de 2024
4min
Chei(r)o de afeto
Foto: Acervo pessoal

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O cheiro sacudia nossa memória... não como algo que se percebe pelo nariz, mas como algo que enche a boca e os olhos de água. Cheiro de sabor, cheio de toques, cheio de sorrisos, conversas partilhadas nas cozinhas e temperos afetivos que não se encontram em qualquer lugar.

Eu e um dos meus sobrinhos conversávamos sobre isso. Na cozinha de sua casa, diga-se de passagem. Falávamos sobre cocadas de goiaba, café coado em fogão de lenha, farofa e doce leite. Memórias nossas, de outras cozinhas.

Ele vivera em Minas, mas em Minas não tinha doce de leite igual aquele, igual ao de “voinha”. Parece contraditório, né?! Minas, doce de leite e a doce iguaria mais gostosa vir do Nordeste. Certamente nenhum dos produzidos lá tinha memória, nenhum despertava os cabelos brancos na beira do fogão mexendo mexendo mexendo o leite para não “embuluar”. Nenhum tinha aquela pitadinha de “voinha” na receita.

Essa história do doce do meu sobrinho é igual àquela da cocada de goiaba de outra avó, agora a minha. Aquela “voinha” do meu sobrinho é minha mãe. Esta, a da cocada de goiaba, é a mãe da minha mãe: vovó. Minha Vovó Martiniana! Quem não comeu a cocada dela, não vai saber do que eu falo. Pode até imaginar, sentir outros cheiros e gostos e texturas de outras cocadas de goiaba. Nenhuma delas será como a dela, não para mim. Faltará a pitadinha da minha Grande Leoa na receita.

Ela, vovó, fazia doces para nos receber e para vender na bodega, nos deixava raspar os tachos quentes, mesmo com as proibições de nossas mães que diziam que comido quente dava dor de barriga. Não lembro de ter tido nenhuma, não por conta dos doces, mas lembro dos tachos fumegantes: o cheiro, o gosto, a textura, e os olhos felizes de vovó vendo-nos, eu e meus primos em algazarra, raspando tudo.

Minha mãe (a “voinha” do meu sobrinho) provavelmente aprendeu a fazer o doce de leite que não tem em Minas, nem em lugar nenhum, com ela, vovó. Aprendeu a temperar sua comida com afetividade, afago e o amor que ninguém empacotou em Sazon nenhum. Tempero de família, de mãe para filha, de uma mãe para outra mãe, de uma avó para outra.

Lembro ainda do cheiro do café forte que vovó fazia e se misturava com o de lenha queimada... café que cheirava, fumaçava e chiava enquanto era coado sobre o fogão de lenha. Esse cheiro só eu sinto, até hoje, como um afago, como um aceno, como um sorriso.

É... na conversa que eu e meu sobrinho travávamos, a farofa inconfundível de mamãe (“voinha” dele) também encheu nossas bocas. Se ríssemos, era capaz de cuspirmos farofa na cara um do outro. Doce e farofa tipo exportação, ambos iam pra Minas... Ambos continuam preenchendo nossos sentidos e memórias...                        

Nessa conversa, a farofa de mamãe acabou se misturando com o feijão macassar temperado com cebola e coentro. Feijão enfarofado que não comíamos no prato com garfo e faca. Amassado pelas mãos grandes de meu pai, o “voinho” do meu sobrinho, transformados em bolinhos macios e deliciosos, eles eram comidos aos bocados, de suas mãos artesãs para nossas bocas felizes. Comíamos as rapozinhas, como ele assim as chamava. Comíamos afeto, acima de tudo.

Ao fim e ao cabo, chegamos a um veredito: fomos muito bem alimentados. Alimentaram-nos de muito amor. E como não sentir tanta coisa quando um cheiro desses resgatados da memória nos arrebata?!  Como não encher a boca e os olhos de água numa hora dessas?! Como?!

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