(IN)VISIBILIDADE
Natal, RN 22 de fev 2024

(IN)VISIBILIDADE

3 de fevereiro de 2024
3min
(IN)VISIBILIDADE
Foto: Agência Brasil Ricardo Schimidt

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

O discurso conservador é o de que mulheres Trans/Travestis não são mulheres; que somos aberrações; que não temos o direito de existir, nem de usar o banheiro que se adeque à nossa identidade, nem praticar esportes coletivos juntamente com outras mulheres (cis).

O discurso conservador é o de que não devemos ter direitos, nem acesso aos serviços de saúde e assistência, nem nome – o nosso nome. Querem a todo custo nos invisibilizar, nos apagar, nos deslegitimizar, nos exterminar do convívio social. Afinal, somos perigosas, somos taradas, pervertidas e pedófilas.

E nesse discurso conservador deixamos de ser invisíveis, passamos a ser vistas, e notadas, e apontadas, e condenadas... Viramos alvo de leis e proibições e perseguições e difamações... Jogam todos os holofotes sobre nossas existências para nos desrespeitar e nos perseguir e nos aniquilar.

Sim, esse é o discurso conservador que se vê, que se propaga, que é instagramável, que lota o X ou o Facebook ou o Tik Tok, que invade os grupos de mensagem do WhatsApp em nome da família e dos bons costumes e do tradicionalismo.

Contudo, há um discurso “conservador” que só nós, mulheres Trans/Travestis conhecemos: o discurso “conservador” do desejo reprimido; do fetiche potencializado; do macho alfa que quer ser penetrado pelas bonecas; dos nudes que chegam antes de um “Oi, bom dia! Como vc está?”; da sacanagem desenfreada; da libido que lambe os beiços e baba sobre nossos corpos; do discurso que se disfarça da boca pra fora, mas que se escancara no olhar.

Deixamos de ser invisíveis e aberrações e perigosas à noite, na calada da madrugada, nos quartos de motel, nos bancos dos carros que nos pegam nas ruas discretas, dentro de suas próprias casas quando a esposa viaja para visitar a mãe junto com seus filhos. (Algumas voltam mais cedo e flagram o desejo escancarado e tão bem escondido rolando sobre a cama que guardou seu sono na noite anterior... Você já deve ter ouvido uma história dessas, né!?)

Impõem-nos invisibilidade. Desejam-nos visíveis, palpáveis, macias, cheirosas e quentes... Afinal, devemos preencher todos os sentidos dos que só podem ser livres junto aos nossos corpos Trans/Travestis.

Impõem-nos invisibilidade. Desejam-nos sem filtros, sem capas, sem roupas, sem máscaras. Invisíveis enquanto se escrevem as leis. Visíveis na cama, encostada em muros, dentro dos carros, nos terrenos baldios, estacionamentos, nos espaços clandestinos como são clandestinas as vontades escondidas e guardadas a muitas chaves.

Chaves que se apresentam na forma do preconceito, do discurso conservador, na perseguição dos nossos direitos, da insistência em nos invisibilizar enquanto cidadãs que somos.

Chaves que caem por terra quando nossas roupas caem no chão.

Apoiar Saiba Mais

Pra quem deseja ajudar a fortalecer o debate público

QR Code

Ajude-nos a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Este site utiliza cookies e solicita seus dados pessoais para melhorar sua experiência de navegação.