Sem olhos em Gaza
Natal, RN 16 de abr 2024

Sem olhos em Gaza

20 de fevereiro de 2024
3min
Sem olhos em Gaza

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Sem Olhos em Gaza é o título de um ótimo romance de Aldous Huxley, publicado em 1936, que pinçou um verso de John Milton em 'Sansão Agonista', sobre a tragédia bíblica do homem que foi traído por Dalila que cortou seu cabelo e tirou sua força descomunal, até que preso e cego, os cabelos voltaram a crescer e ele destruiu o templo matando a si mesmo e aos filisteus que o aprisionaram.

Mas sem olhos em Gaza poderia se referir ao que boa parte da mídia e do Mundo estão fazendo em relação à tragédia de imensas dimensões que está acontecendo na Faixa de Gaza, onde mora o povo palestino, que está sendo vítima de um massacre por parte do governo de Israel como retaliação a ataques do grupo terrorista Hamas em outubro. Ao longo dos meses, quase a totalidade da mídia mundial se mostrou pró-Israel, inclusive taxando de antissionista qualquer manifestação de pesar pelos palestinos.

É certo que os massacres crescentes de crianças, mulheres e vítimas civis começaram a mudar essa percepção, mas ainda assim parte da opinião pública parece, como o título deste texto, do romances e do verso, não ter olhos para Gaza, numa cegueira não causada por perfurações, como Sansão, mas por açodamento e se deixar manipular pela mídia.

Daí a importância da fala de Lula na cúpula de países africanos comparando o massacre dos palestinos pelo governo israelense ao holocausto judeu realizado pelo nazismo. Lula não quis comparar tragédias nem colocar uma régua de morticínios, nem muito menos minimizar o holocausto, ainda um trauma para o povo judeu, mas alertar para o fato de que o extermínio diário e sistemático de um povo aconteceu na Segunda Guerra e está acontecendo agora em Gaza.

Não surpreende a reação alucinada da mídia brasileira, mais pró-Israel e alinhada com o governo Netanyahu do que a próprias mídias israelenses e norte-americanas. Para a Globo News & cia, em sua tradicional histeria anti PT, Lula teria gerado uma "crise diplomática" e se desgastado no cenário internacional. Não foi o que se viu. Nenhum líder internacional e nenhum veículo global de renome criticaram a fala de Lula. Pelo contrário. Após a declaração, polêmica, mas possivelmente necessária, alguns países pediram o cessar fogo em Gaza.

Pode-se argumentar que Lula errou no tom, que não se deve comparar tragédias etc etc. Mas o certo é que Lula fez com que se abrissem os olhos em relação a Gaza. E a reação destemperada e agressiva de Netanyahu pode indicar que Lula agiu de forma certa no sentido geopolítico e mesmo de redução de danos (previa-se um massacre por Israel esta semana em Rafah no Ramadã, período sagrado para os muçulmanos).

Resta registrar que muitos dos críticos de Lula e devotos da política israelense na verdade alinham com o desejo por sangue tão caro ao bolsonarismo e à extrema-direita. Que glorifica Israel e consequentemente desumaniza o povo palestino. Assim como Hitler e o nazismo fizeram com o povo judeu . Desumanização significa genocídio. Seja em Auschwitz ou em Gaza.

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