A natureza é a “vítima silenciosa” da guerra
Natal, RN 30 de mai 2024

A natureza é a "vítima silenciosa" da guerra

6 de abril de 2024
6min
A natureza é a
Metin Aktas/Anadolu Agency via Getty Images

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Guerra é desequilíbrio civilizatório. O musicólogo Henry Barraud dizia que o século XX seria conhecido como “o século da barbárie armada da tecnologia”. Depois de duas guerras mundiais, ele tinha absoluta razão.

Infelizmente, estamos ingressando no século XXI assistindo a britzkriegs (guerras-relâmpagos em alemão) sequenciais: a invasão do Iraque em tempo real, a luta transmitida on-line contra o Estado Islâmico, a saga do Afeganistão, o genocídio de Ruanda que levou à morte de cerca de 800.000 tutsis e hutus, o drama dos refugiados da Síria, a invasão da Ucrânia pela Rússia e, agora, a Guerra de Israel contra o Hamas.

Esses fatos demonstram a continuidade das guerras que permanecem entre nós, com intensos impactos sociais e ambientais.

Os caminhos errôneos trilhados nas desumanidades e os impactos trazidos pelas ambições geopolíticas parecem não ter fim. A humanidade parece não ter apreendido com suas digitais coloniais deixadas sobre os continentes do sul planetário, em especial a África, onde a escravidão causou extremo sofrimento.

Para o meio ambiente não há estado de exceção. Os amargos frutos da dominação e da guerra não podem ser excepcionalizados. Provocam impactos ambientais perfeitamente mensuráveis. No caso da Ucrânia, por exemplo, o avanço militar com deslocamento de grande número de tanques, blindados, veículos pesados, aeronaves de combate, mísseis, artilharia e explosivos lançaram poluição, estilhaços, elementos químicos poluentes e toneladas de carbono na atmosfera, com intensa queima de combustíveis fósseis.

Obviamente, na guerra, a contenção da poluição não é prioridade. Resta apenas seu passivo ambiental, com um elevado preço para o ambiente e para a sociedade. Várias áreas guardiãs de biodiversidade foram impactadas, 33 das quais são consideradas de relevância internacional, abrigando 35% da biodiversidade da Europa, com 70 mil espécies de rara e endêmica flora e fauna.

O solo contaminado em Chernobyl sofreu vibrações severas com a passagem de tanques e veículos pesados, liberando poeira com contaminação radiativa que já estava sedimentada no solo.

As pessoas mais humildes são as mais vulneráveis aos efeitos da guerra. As implicações econômicas geradas vão do desabastecimento ao aumento do custo de vida, que se reflete não só localmente, mas mundo afora.

O impacto ambiental das guerras ocorre antes mesmo delas se iniciarem, pois, para construir e sustentar forças militares, é necessário consumir uma grande quantidade de recursos como metais, água e hidrocarbonetos.

Outro ponto é a infraestrutura militar (de edifícios a veículos, como aeronaves, carros e barcos) que necessita de grandes quantidades de energia para funcionar e que, na maioria das vezes, é gerada a partir da queima de combustíveis fósseis, contribuindo para as emissões de gases causadores do efeito estufa.

Colossais incêndios em dutos de gás e óleo foram provocados, lançando na atmosfera material particulado carcinogênico. Algumas estações de tratamento de esgoto foram atingidas e coliformes fecais foram liberados nos rios, provocando riscos epidemiológicos que implicam, inclusive, em contaminação na produção de alimentos.

A guerra é um ato de destruição. E, como sugerem os estudos, afeta desproporcionalmente os ecossistemas mais importantes do planeta. De 1950 a 2000, mais de 80% dos maiores conflitos armados do mundo ocorreram em locais de grande biodiversidade, áreas ricas em espécies nativas, algumas ameaçadas. 

A utilização de componentes químicos também cria uma série de riscos para a biodiversidade local. Exemplo disso ocorreu na Guerra do Vietnã, entre 1961 e 1971, quando militares norte-americanos despejaram cerca de 20 milhões de galões de herbicidas em amplas faixas do território sul do país para devastar florestas, limpar seu crescimento ao longo das fronteiras de campos militares e eliminar as colheitas inimigas. Não apenas a vegetação foi afetada, mas também a vida animal. Um estudo feito em meados dos anos 1980, por ecologistas vietnamitas, documentou a existência de apenas 24 espécies de pássaros e 5 espécies de mamíferos presentes nas florestas pulverizadas e áreas convertidas, comparadas às 145-170 espécies de pássaros e 30-55 tipos de mamíferos das florestas intactas.

Também é tática comum de guerra atacar instalações energéticas, industriais e petrolíferas, como forma de espalhar o terror por meio da destruição, desabastecimento e poluição. Esse tipo de ataque além de afetar a população que fica aterrorizada e desabastecida de recursos essenciais, também reverbera em sistemas ambientais como o de tratamento de água.

O estudo do impacto ambiental da guerra tem seu foco na modernização da guerra e seus crescentes efeitos sobre o meio ambiente. Táticas de terra arrasada têm sido utilizadas durante grande parte da história registrada. No entanto, os métodos de guerra modernos causam uma devastação muito maior no meio ambiente. A progressão da guerra de armas químicas para de armas nucleares vem gerando cada vez mais estresse nos ecossistemas e no meio ambiente.

Isso sem falar das bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagazaki em 1945, que dizimaram instantaneamente 35.000 pessoas. As armas nucleares liberaram níveis catastróficos de energia e partículas radioativas. Depois que as bombas foram detonadas, as temperaturas atingiram cerca de 3980°C / 7200°F. Com temperaturas tão altas, toda a flora e fauna nas zonas de impacto foram destruídas junto com a infraestrutura e vidas humanas. As partículas radioativas que foram liberadas resultaram na contaminação generalizada da terra e da água. 

É preciso buscar as questões éticas, de essência, para exercer o humanismo. É preciso olhar para a população, para as crianças, para os mais vulneráveis – e assumir como prioridade os traços de humanidade que distanciam a civilização da barbárie. É preciso buscar reconectar-se com a natureza e entender, de uma vez por todas, que não existe avanço da humanidade sem uma visão da conexão entre o ser humano e o ambiente que o cerca. Homem e natureza precisam de paz para viverem em harmonia.

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