Após 13 anos e com vigília, açude de Gargalheiras volta a sangrar
Natal, RN 25 de abr 2024

Após 13 anos e com vigília, açude de Gargalheiras volta a sangrar

4 de abril de 2024
7min
Após 13 anos e com vigília, açude de Gargalheiras volta a sangrar
Foto: Simara Araújo/Sidys

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Após 13 anos de uma longa estiagem, o Açude de Gargalheiras, em Acari, no Rio Grande do Norte, voltou a sangrar no fim da noite desta quarta-feira (3). O momento foi de emoção para os seridoenses que fizeram vigílias, comemorações e aguardaram o transbordamento do manancial centímetro por centímetro. 

A última vez que o açude sangrou foi em 2011 e a espera pela sua trigésima sangria, desde sua inauguração em 1959, causou comoção e recebeu destaque nacional. Desde da última segunda-feira (1º de abril), quando faltava apenas 1 metro para atingir o topo, os ansiosos não arredaram pé do local para testemunhar o momento histórico. 

Desde então, a contagem regressiva para a sangria, que é quando as águas de um açude transbordam, reuniu vigílias, festas de aniversários, muito forró, filmagens, vídeos ao vivo, aglomerações e chegou a ser o assunto mais comentado na rede social X (antigo Twitter) no Rio Grande do Norte, superando a noite de eliminação do reality Big Brother Brasil. 

Manancial com 12cm para atingir a sua capacidade máxima | Foto: Origem Films

Na tarde desta quarta (3), o corpo de bombeiros de Caicó, esteve no local e deu orientações e cuidados para os moradores da região. Entre as recomendações, evitar saltos dentro do manancial, utilizar bóias do tipo colete e não entrar no açude se tiver ingerido bebidas alcoólicas. Confira o vídeo com todas as dicas: 

Para sertanejos, o momento é de festa  

A Prefeitura de Acari anunciou a “Festa do Gargalheiras” para o próximo domingo (7), com shows dos artistas Bruno Martins, Giannini Alencar e Giulian Monte, além de um pranchão.

O aumento repentino no nível do Gargalheiras foi impulsionado pelas chuvas recentes que banharam o estado, somado à contribuição da sangria do Açude Dourado, em Currais Novos, que direcionou parte de suas águas para o açude de Acari. Em apenas um mês, a capacidade passou de 4,98% para a sangria completa, demonstrando um rápido crescimento do manancial.

Para os seridoenses, a cheia é motivo de festa e alguns nem acreditavam que viriam a sangria do Gargalheiras com os próprios olhos. Fernando Azevedo, estudante de jornalismo e acariense, comentou que nunca viu a sangria do açude com os próprios olhos, já que na última cheia ele era criança e só viu por fotos. Para ele, além do momento ser emocionante e marcante, representa uma nostalgia do tempo que estudava sobre as cheias anteriores na escola. 

Acompanhar essa sangria foi uma experiência muito nostálgica, porque eu lembro a minha infância, quando a gente estudava sobre o Gargalheira na escola. A gente sabia quais eram os anos em que tinha acontecido as sangrias. Eu lembro que só cheguei a ver fotos, porque, realmente, eu nunca vi o Açude sangrando. O que a gente chama de véu, que é a água descendo pela parede. É a coisa mais linda. É a terceira maravilha do Rio Grande do Norte, e não é à toa, né? Eu nunca vi isso. Nem acreditava que podia ver.”, desabafou o estudante com tom de emoção. 

Antes de tudo, o sangramento representa alegria para o povo sertanejo. “Eu acho que é a maior felicidade do povo sertanejo e do povo seridoense, porque Acari chega a abastecer cidades vizinhas, como Currais Novos. E tipo assim, pra todo mundo da região é uma conquista muito grande e que parecia muito impossível há um tempo, sabe? Porque sempre o açude ficava pegando água, mas nunca não passava de, sei lá, 50%? Era uma tristeza. Mas agora, parece até mentira. Quando eu olho. Eu fico encantado. Parece muito surreal pra mim.”, finaliza. 

Quando seco, manancial virou cenário do filme Bacurau 

Reconhecido como patrimônio cultural, histórico, geográfico, paisagístico, ambiental e turístico do Rio Grande do Norte em janeiro de 2023, o açude Marechal Dutra, o Gargalheiras, ganhou destaque nacional ao servir de locação para o premiado filme "Bacurau" (2019), dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho. Foi no açude, que Mendonça gravou as cenas de “Lunga”, anti-herói do longa, vivido pelo ator Silvério Pereira, em 2018.

O cineasta, em tom de admiração, chegou a celebrar a cheia através das redes sociais, compartilhando imagens do antes e depois do açude.

Saiba+: Cineasta de Bacurau mostra Gargalheiras antes e depois das chuvas

Antes disso, em março deste ano, quando o reservatório atingiu 31,57% (14 milhões de metros cúbicos) de sua capacidade, Mendonça publicou um vídeo em suas redes sociais mostrando o antes e depois do reservatório. No mesmo dia 18 de março do ano passado, o Gargalheiras estava com apenas 3,98% (1,7 milhão de metros cúbicos) de sua capacidade total, que é de 44,4 milhões de metros cúbicos.

8 curiosidades sobre o Açude Gargalheiras

  • A ideia de construção de um açude na região surgiu com a seca de 1877. Na época o então Instituto de Obras contra as Secas estudava a construção de grandes reservatórios de água no Nordeste.
  • A primeira planta do açude Gargalheiras é de 1909. Diversas empreiteiras assumiram o projeto ao longo dos anos, até que em 1955 o 1º Grupamento de Engenharia de Construção torna-se responsável pela obra e a concluiu em 1958. A inauguração do açude aconteceu no ano seguinte.
  • A primeira sangria foi registrada em março de 1960. Dificilmente o açude passava três anos sem transbordar. O maior intervalo foi de 2011 até 2024.
  • O maior transbordamento atingiu 2,80 metros em 1985.
  • O maior período de sangria foi em 1964, quando as águas do Rio Acauã vazaram por cinco meses.
  • O Rio Acauã faz parte da Bacia do Rio Piranhas-Assu, principal rio que corta a região do Seridó.
  • Segundo pesquisas arqueológicas, a região onde foi construído o açude Gargalheiras abrigou uma grande lagoa chamada Macaguá, onde viviam em seus arredores grupos indígenas Tarairiú. Com o represamento das águas, uma área de cerca de 1.200 hectares foi inundada.
  • A origem da palavra Seridó, segundo Câmara Cascudo, provém de “ceri-toh”, um vocábulo indígena dos povos tapuias, cujo significado é “parcas folhagens”. Uma clara referência à topografia da região. Porém há discordâncias. Alguns pesquisadores fazem alusão à influência dos holandeses descendentes de judeus sefarditas na região, onde a denominação derivaria de “sarid” (em hebráico seiscentista: sobrevivente). Outros estudiosos, entretanto, falam que a origem remonta à “she’erit”, na tradução do hebraico antigo para o português: “refúgio Dele (Deus) ou lugar de quietude, amor e bênçãos”.

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