A cidade que não sabe chover
Natal, RN 19 de jun 2024

A cidade que não sabe chover

25 de maio de 2024
7min
A cidade que não sabe chover

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Na semana passada escrevi um texto sobre a situação desastrosa em que se encontra a população do Rio Grande do Sul após as fortes e constantes chuvas que colocaram em colapso as cidades gaúchas, bem como a necessidade de identificarmos as questões políticas que estão diretamente inseridas nesse colapso.

Nesse texto de hoje, gostaria de continuar tratando da emergência climática que nos encontramos, trazendo o diálogo para a nossa realidade local, aqui da cidade do Natal. A realidade é única, ano após ano, bastam alguns minutos de uma chuva um pouco mais forte que vemos vários pontos de alagamento em nossa cidade. Desde criança que observo essa situação, e dizia que natal não sabia chover.

Tenho certeza de que você leitor consegue lembrar de muitas situações de desastres que já tivemos em nossa cidade por causa das enchentes. Cito aqui algumas como por exemplo: O deslizamento no bairro de Mãe Luiza em junho de 2014, em plena copa do mundo. Um ano depois, tivemos o triste caso do servente de pedreiro que morreu sugado pela tubulação enquanto ajudava outras pessoas, e ficou dias sem ter seu corpo encontrado pelas autoridades, que deu inclusive origem à construção daquela escadaria de Mãe Luiza. A cheia na rua das Alagoas com a Ayrton Senna em julho de 2022, onde inclusive andaram de jet-ski em plena avenida inundada. A BR 101 na altura do Arena das Dunas, que toda chuva alaga. As diversas crateras e buracos que são abertos pelas chuvas. O afundamento da BR 101 na divisa Natal/Parnamirim, onde em baixo passa o rio Pitimbu canalizado. Isso sem citar o bairro da Ribeira, muitos bairros da Zona Norte, Satélite, entre outros.

Ou seja, exemplos temos de sobra para percebermos que a situação de nossa cidade está delicada. E que precisamos agir, seja a sociedade, mas principalmente a prefeitura de nossa cidade que dorme no ponto, e toma chuva, porque os pontos de ônibus daqui são uma negação.

Felizmente a situação de nossa cidade é bem diferente da realidade das cidades gaúchas, principalmente por ter uma geografia diferente, além de não termos muitos rios grandes cortando nossa cidade em vários pontos.

Mas, sobretudo, precisamos lembrar que a chuva não é o problema, pelo contrário, chuva é benção dos céus. Muito menos os ciclos da natureza. Como falei no texto da semana passada, e sugiro a leitura caso não tenha visto.

Nós seres humanos por nos acharmos donos do Planeta, cometemos muitos erros e degradamos o meio ambiente, em detrimento do lucro, do capital, do dito desenvolvimento, do progresso, e tudo isso nos coloca diante dessa emergência climática na qual estamos submersos.

Natal é uma cidade que precisa urgentemente de um planejamento urbanístico, que dentre outras coisas mais estruturantes, inclua a não impermeabilização do solo, um sistema eficiente de esgotos de águas pluviais, saneamento básico, melhoria das lagoas de captação e a não desertificação, ampliando as áreas verdes.

Temos a cultura de que uma árvore atrapalha, até mesmo a ideia de que suas folhas sujam a rua. Eu quando jovem morava numa rua pequena no bairro de Cidade Satélite, com cerca de 40 casas ao todo, nela havia muitas árvores nas calçadas das casas, muitas mesmo, pensando aqui rapidamente, consigo contar umas 14 árvores apenas nas calçadas, fora as que tinham também dentro de seus terrenos. Portanto, hoje, ao visitar esta mesma rua, chegamos ao número alarmante de um total de ZERO árvores nas calçadas, isso mesmo, nenhuma árvore mais, isso levando em consideração apenas a minha antiga rua.

Agora imaginem isso numa larga escala, na cidade como um todo. Aqui as pessoas cortam uma árvore com extrema facilidade. Lá nessa minha antiga rua, muitos reclamavam de que as folhas quando caiam sujavam as calçadas. Eu jamais conseguia ver folhas de árvores como sujeira, nunca entendi esse pensamento.

Outro hábito que a sociedade possui ainda, infelizmente, é o de jogar lixo para fora. Seja fora do carro, pela janela, seja fora de casa, colocando nas calçadas independente da coleta regular de lixo. Assim como os entulhos que são jogados em terrenos desocupados (baldios), sem nenhum critério. Ora, o sistema de esgotamento das águas da chuva já são precários, imaginam cheios de lixo. Desde criança que carrego meu lixo comigo até encontrar uma lata de lixo, minha mãe nunca me deixou jogar um papel de bala no chão, muito menos pela janela de um carro. São pequenos atos que, somados, fazem a diferença.

Nós vivemos em uma cidade que possui um solo muito favorável para a absorção da água das chuvas, pois é em sua maioria, arenoso, composto por um vasto campo de dunas. Mas aí cabe ao poder público e da construção civil, não querer concretar tudo, e impermeabilizar os solos. Dessa forma, dificulta muito a absorção da água para o solo.

Outro fator é o estado de colapso em que se encontram grande parte das lagoas de captação espalhadas por toda a cidade. Estudos recentes mostram que estamos à beira do colapso total, pois elas já não dão conta do volume de água, bem como já não estão funcionando adequadamente, por falta de manutenção constante e preventiva.

E mais, precisamos aprender a valorizar as árvores. Precisamos de uma plano de arborização amplo em nossa cidade. Tanto pelo poder público, mas também pela população em geral. Novas áreas verdes e sustentáveis precisam ser criadas ou melhoradas. Nossas praças, canteiros das ruas, calçadas das casas, são locais que precisam ser arborizadas. Pois como já é de conhecimento da população, as árvores auxiliam no controle do clima e do aquecimento global, além de servirem como escoamento natural das águas.

O trânsito é outro fator que também está interligado, uma cidade evoluída é aquela que detém um sistema de transporte público eficiente, e não aquele que tem muitos carros, cada pessoa sozinha dentro de seu carro. Pois isso irá interferir tanto na questão da poluição atmosférica, bem como na malha viária necessária para a enorme quantidade de carros circulando. Ou seja, tudo isso deve ser pensado e levado em consideração para que Natal se torne uma cidade sustentável e que forneça segurança à população mesmo com grandes chuvas.

Diante de tudo isso que coloquei, sugiro a vocês que nos lê, a reflexão e ação. Tanto a ação individual, como a coletiva. E, principalmente, a ação de eleger, acompanhar e cobrar daqueles que estão no comando de nossa cidade, seja na prefeitura ou na câmara. Precisamos avaliar bem para escolhermos pessoas que estejam devidamente preocupadas em fazer da cidade do Natal, uma cidade melhor e que seja sustentável.

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