A ofensiva da extrema direita e a defesa da democracia
Natal, RN 19 de jun 2024

A ofensiva da extrema direita e a defesa da democracia

26 de maio de 2024
11min
A ofensiva da extrema direita e a defesa da democracia

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No final de abril de 2024 integrantes da extrema direita de vários países se reuniram em Budapeste, na Hungria, para a Conferência de Ação Política Conservadora, que teve entre os conferencistas o primeiro-ministro Viktor Orbán. Segundo Jamil Chade, em artigo publicado no dia 25 de abril de 2024 no UOL “Entre os convidados o deputado Eduardo Bolsonaro, representantes do FOX - o partido espanhol herdeiro do franquismo - aliados de Donald Trump, candidatos americanos, deputados paraguaios, membros da equipe de Javier Milei, um ministro israelense e partidos xenófobos da Itália, Eslovênia, Polônia, França, Alemanha, Áustria e Holanda”.

Entre os objetivos do encontro, o de articular estratégias para uma ofensiva eleitoral mundial e em especial para eleições para o Parlamento Europeu que será realizada no dia 9 de junho de 2024. Como disse Jamil Chade, “os discursos formais são apenas a face pública do encontro. O foco da articulação envolve principalmente as eleições em junho para o Parlamento Europeu, aonde a extrema direita chega com posição de destaque em quatro dos seis países fundadores da União Europeia. Outro objetivo central é a eleição americana e o retorno de Donald Trump para a Casa Branca”.

O cientista político holandês, Cas Mudde que há três décadas pesquisa a extrema direita no mundo, ao constatar o seu crescimento eleitoral, especialmente na Europa, mas também em outros países não europeus, como Estados Unidos, Argentina, México e Brasil se refere a mais uma onda da política de extrema direita pós Segunda Guerra Mundial, e o que caracteriza seu atual renascimento, é sua integração e normalização no cenário político contemporâneo.

Jamil Chade, em outro artigo, publicado no dia 19 de maio de 2024 no UOL, Extrema direita global se une e projeção indica guinada reacionária na União Europeia faz referência a outro encontro internacional da extrema direita realizado em Madrid no mesmo dia (19 de maio), organizado pelo FOX – partido que cultua Francisco Franco, que impôs uma ditadura na Espanha entre 1939 até sua morte em 1975 - e destaca dois temas importantes para eles hoje: a imigração (especialmente em países europeus, como o fechamento das fronteiras e ampliação de expatriação) e mudanças climáticas, com o objetivo de rever medidas que foram resultado de acordos climáticos como o Pacto Ecológico Europeu, que quando foi aprovado afirmava que as alterações climáticas e a degradação do ambiente eram (e continuam sendo) uma ameaça existencial para a Europa e para o mundo e que o Pacto objetivava criar uma “economia moderna, eficiente na utilização dos recursos e competitiva, garantindo zero emissões líquidas de gases com efeito de estufa até 2050 (https://commission.europa.eu/strategy-and-policy/priorities-2019-2024/european-green-deal_pt).

O encontro em Madrid contou com a presença de representes de vários partidos de extrema direita, como Javier Milei presidente da Argentina – que em seu discurso criticou o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sanchéz e chamou sua esposa, Begoña Gomez, de corrupta e criou um incidente diplomático. Para o chanceler espanhol José Manuel Albares, que exigiu uma retratação pública de Milei, as acusações não apenas são graves, como criou um fato sem precedentes na história das relações diplomáticas entre os dois países. A embaixadora do país na Argentina retornou a Espanha.
O encontro contou ainda com a participação de Marine Le Pen, da França, Viktor Orbán da Hungria, a primeira-ministra da Itália Geórgia Meloni e representantes do governo de Israel.

E um aspecto importante, ressaltado no artigo de Jamil Chade - e preocupante para as democracias europeias - é que pesquisas de opinião apontam que partidos de extrema direita podem ganhar as eleições em nove dos 27 países da União Europeia, incluindo a França e Holanda e que será a segunda força política na Alemanha, Suécia, Espanha e Portugal.

Em relação à extrema direita no Brasil, em artigo publicado no jornal Le Monde Diplomatique Brasil (edição de janeiro de 2024), intitulado A ultradireita está preparada e atuante, Silvio Caccia Bava mostra como ela continua atuante, mesmo depois da derrota eleitoral de 2022 e cita uma pesquisa do Instituto Datafolha no qual 90% dos que votaram em Bolsonaro não se arrependeram e mantém seu voto, evidenciando a continuidade da polarização política e que poderá também impactar as eleições municipais de outubro.

Mas a questão central é: como isso é possível? Como se constrói essa coesão e esse ativismo da extrema direita? E responde: “Com muito dinheiro, internacional e nacional, com a criação de organizações que estruturam a alimentam a militância, a formação de seus integrantes, seu ativismo e suas bandeiras”. Certamente há outros aspectos, sociais, políticos e econômicos nos respectivos países.
Mas ter organizações muito bem financiadas e organizadas nos países também é importante e ele destaca a Atlas Network, que atua desde os anos 1980 com recursos de doações de empresas privadas como Pfizer, ExxonMobil e Philip Morris, e cita o crescimento de think tanks (“grupos de reflexão”, organizações privadas para produzirem pesquisas e análises sobre determinados temas). Em 1985 eram 27 instituições e em 2016 eram 450, muitas na América Latina. E cita Alejandro Chafuen, presidente e CEO do Atlas Network de 1991 a 2018 que diz “criaremos mais think tanks, mais tentativas de derrubar governos de esquerda, e mais pessoas ligadas à Atlas nos cargos mais altos de governos ao redor do mundo. É um trabalho contínuo”.

No Brasil houve um crescimento de think tanks a partir dos anos 1990, como a criação, entre outros, do Instituto Mises, do Instituto Ordem Livre e dos Instituto Liberal do Nordeste e o Instituto Millenium. Este último foi criado no Brasil em 2005, e na sua página consta que se trata de “um centro de pensamento para a promoção e o fortalecimento da democracia representativa, da liberdade, do Estado de Direito e da economia de mercado, que não tem fins lucrativos nem vinculação político-partidária, e se trata de uma rede é formada por empresários e intelectuais atuantes em diversas áreas do conhecimento. Mas como diz Silvio Cavva, essencialmente são organizações políticas disfarçada de instituições acadêmicas que disponibilizam arsenal teórico e treinamento político para seus adeptos e cujos resultados servem aos interesses de seus financiadores.

Documentos importantes sobre a atuação da extrema direita é do Global Project Against Hate and Extremist (Projeto Global Contra o Ódio e o Extremismo) e o relatório mais recente, publicado em março de 2024, destaca à crescente ameaça global da extrema direita e sua natureza transnacional. Em relação ao Brasil, elaborou um documento detalhando as atividades e ideologias de 22 grupos de extrema direita que “promovem ideologias que estimulam a violência, a discriminação e a divisão no país e buscam minar a democracia” e entre seus atos mais recentes, o vandalismo no do dia 8 de janeiro de 2023 em Brasília, por apoiadores de Bolsonaro “inflamados por alegações infundadas de fraude eleitoral, semelhantes ao ataque ao Capitólio dos EUA realizado por apoiadores de Trump em seis de janeiro de 2021”.

O relatório traz um breve histórico de organizações de extrema direita no país que ao longo do tempo teve vários grupos e organizações políticas como a Legião Cruzeiro do Sul (fascista, criada em 1922, no ano da tomada de poder por Mussolini na Itália), o integralismo na década de 1930, com a criação da Ação Integralista Brasileira em 1932 (versão do fascismo no país, anticomunista, que usava o lema Deus, Pátria e Família, retomado nas eleições de 2018 por Bolsonaro) e outras que se organizaram mais recentemente, especialmente a partir de 2018, com a vitória eleitoral da extrema direita na eleição presidencial.

São listadas 22 organizações de extrema direita que continuam atuantes no país, entre elas, o Movimento Integralista e Linearista Brasileiro, Carecas do ABC (gangue de shinheads integralistas em São Paulo), Falange de Aço (RS), Força Nacionalista do Brasil (separatista e antissemita), Frente Integralista Brasileira, a Divisão Misantrópica do Brasil (versão brasileira de um grupo de neonazistas criado na Ucrânia), e o Instituto Conservador Liberal (criado por Eduardo Bolsonaro, que é contra os direitos LGBTQI+ e defende a criminalização do comunismo e entre os grupos de extrema direita é o que parece mais articulado internacionalmente, participando de encontros internacionais – como o da Hungria e organizando conferências no Brasil).

Um aspecto importante na análise da extrema direita foi o crescimento de grupos neonazistas, como mostrou a antropóloga Adriana Dias em sua tese de doutorado na Unicamp defendida em 2018 (Observando o ódio; entre uma etnografia do neonazismo e a biografia de David Lane) e que depois da defesa da tese continuou fazendo pesquisas em sites, blogs, fóruns e comunidades neonazistas na rede mundial de computadores, e em documentos e atividades não digitais, analisando suas formas de ação. Em 2021, ela afirmou com base em seus levantamentos, que houve um crescimento de 60% das células neonazistas no Brasil e que esse crescimento se deu no governo de Bolsonaro, apoiado por eles. Esses grupos estão organizados principalmente nos estados do Sul e Sudeste, especialmente São Paulo e Santa Catarina.

Uma matéria publicada no jornal O Globo no dia 16 de janeiro de 2022, se refere a um mapa elaborado por ela mostrando que havia 530 grupos ativos no país e que teve um crescimento de 270,6% de janeiro de 2019 a maio de 2021 (https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2022/01/16/grupos-neonazistas-crescem-270percent-no-brasil-em-3-anos-estudiosos-temem-que-presenca-online-transborde-para-ataques-violentos.ghtml).

Uma análise minuciosa sobre grupos de extrema direita no Brasil também foi realizada pela cientista política Camila Rocha, no livro Menos Marx, mais Mises: O liberalismo e a nova direita no Brasil (Editora Todavia, 2021).

Como afirma Cas Mudd, no livro O regresso da ultra direita. Da direita radical à direita extremista (Editora Presença, 2020) a extrema direita veio para ficar. Ela não está mais restrita aos partidos radicais de direita, e é cada vez mais normalizada, mas considera também que é um produto das circunstâncias nacionais e que a melhor maneira de lidar com os desafios que se impõem, deve ser pensada de acordo com essas condições.

Nesse sentido, a ênfase deve estar no combate, inclusive via o sistema judicial, com a punição de grupos e pessoas que atentam contra a democracia, como também revela a urgente e necessária defesa e fortalecimento da democracia. Como se afirma na introdução do livro Extrema direita no Brasil. Sujeitos e coletivos pela “restauração nacional” de Christina Vital, Michel Gherman, Beatriz Lemos e Laís Santos (Rio de Janeiro Fundação Heirich Böll, 2024), “Esta constatação levanta a necessidade de identificação de seus atores, narrativas, ethos, estéticas e dos seus mecanismos de atuação com vistas à superação do extremismo de direita por forças democráticas comprometidas com justiça social, climática, de gênero e racial”.

Se, como vimos, a extrema direita está organizada no plano internacional e no Brasil em particular (dentro e fora do Congresso Nacional) cabe não apenas uma reflexão a respeito, mas que os democratas e a esquerda organizada não apenas defendam a democracia como possam oferecer uma alternativa viável do ponto de vista social, político e econômico que vá além da crítica e do enfrentamento cotidiano com a extrema direita e seus aliados.

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