Amar é (ou das certezas impostas e excessivas)
Natal, RN 19 de jun 2024

Amar é (ou das certezas impostas e excessivas)

21 de maio de 2024
5min
Amar é (ou das certezas impostas e excessivas)

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Misto de álbum de figurinhas e HQ de muito sucesso nos anos 80, a série ilustrada 'Amar É…', criada pela neozelandesa Kim Grove, em 1967, mostrava um casal (de crianças!!!) em momentos de afeto, com frases românticas e assertivas, sendo sucesso absoluto inclusive no Brasil, onde as meninas na minha geração colecionavam com a mesma intensidade que os meninos faziam com os álbuns da Copa do Mundo de 1982 ou campeonato brasileiro.

Anos depois, tanto por conta própria como em conversa com amigas, percebemos que havia algo de estranho naquilo tudo. O casal ser de crianças e estarem sempre pelados era o de menos, dada a inocência da coisa. O problema era a assertividade de tudo: amar é isso, amar é aquilo, amar é assim e assado. A tal Kim Grove pode ter tido as melhores intenções, mas fato é que tantas certezas sobre algo que vem a ser algo tão abstrato (e complexo) como o amor pode gerar confusões e até ser perigoso.

Lembro e registro isso porque quem me acompanha sabe que tenho temas fixos, quase obsessivos. Sei que já escrevi sobre esse assunto neste espaço e corro o risco de ser repetitivo, mas é que essa temática me perturba. "O escritor não escreve sobre o que quer, mas sim sobre o que seus demônios querem que ele escreva", disse Mario Vargas Llosa. Pois os meus demônios volta e meia voltam para a temática de comportamento em redes sociais e a armadilha das certezas absolutas. Vejo, com fascínio e alguma preocupação, essa tendência atual de impor certezas, como já escrevi aqui, e lamento que as redes sociais, principalmente as mais usadas pelo público entre quarenta e cinco e sessenta anos, facilitem tanto essa transmissão de "verdades absolutas".

Claro que hoje os internautas são especialistas em tudo: guerra na Ucrânia, show de Madonna, Israel, nutrição, geopolítica, IA, etc. Mas quando é sobre o amor, ah, aí cada um e cada uma se torna dono das maiores certezas. Vejo pessoas queridas - e inteligentes, experientes - postando nas redes, seja nos feeds nos stories, que o amor é isso, e é aquilo. Algumas vezes dando receitas bem exatas sobre o que é o amor e como deve ser aplicado. E aí mora o perigo, vaticinando que se não for daquela maneira que eles receitam, então, não é amor!

Dia desses li na postagem de uma pessoa querida que "o amor não comporta brigas nem mau humor". Hã, como assim? Só se for um amor tipo Abelardo e Heloísa, platônico e literário, porque qualquer casal que passe um mês junto - se amando ou não - passará por atrativos e crises de mau humor pelos dois lados. Outra vez postaram que "amar é suportar os defeitos um do outro, ou não é amor". Na vida real sabemos que é possível amar uma pessoa e querer aperfeiçoar uma coisa ou outra no comportamento da pessoa amada, no caso um defeito que pode ser corrigido e em sendo só melhora a relação.

O que me parece estranho é que os amigos e amigas que postam essas certezas sobre o amor são pessoas vividas, casadas ou que já passaram por relacionamentos sérios, que têm filhos, já viajaram. Enfim, são, como se diz no interior, passadas na casca do alho demais para acreditarem piamente neste "amor" de redes sociais.

O curioso é que na Literatura, por mais que os trovadores medievais tenham forjado um "amor romântico ideal" e que mestre supremo Shakespeare tenha empurrado "Romeu e Julieta" (na verdade é mais uma paixão adolescente de três dias que um amor real) pela nossa goela, o fato é que "amores" como os de Anna Karenina, Anna Bovary, Oriane de Guermantes,Capitu e Bentinho, Diadorim e Riobaldo, Rita Baiana estão aí para nos mostrarem o contrário: que o amor não tem certezas nem lógica e muito menos regras definidas. Na verdade é até difícil diferenciar o que é amor de carinho ou atração física em dados momentos.

Talvez o ser humano esteja sempre à procura do amor, e as redes sociais (os stories principalmente) sejam o desdobramento dessa necessidade/vontade. Mas há que não se cair em certezas impostas, principalmente no que tange algo tão sensível quando, nem digo o amor, mas a relação amorosa com outra pessoa. Pode se amar no mundo real, inclusive, com TPM, humores ruins, cansaço, contas a pagar, torneira da pia quebrada, unha encravada, queda de cabelos e menopausa. Amor não precisa ser uma idealização, mas um cotidiano.

Recordo de uma amiga querida há anos que num papo alegre disse que "antes eu sonhava com amor, hoje só quero sexo razoável, boletos pagos e uma viagem no fim de ano". E, para finalizar, uma poesia do gênio inglês W. H. Auden: "Milhares viveram sem amor. Nenhum sem água".

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