Brasil precisa de um plano de prevenção contra as tragédias climáticas
Natal, RN 19 de jun 2024

Brasil precisa de um plano de prevenção contra as tragédias climáticas

19 de maio de 2024
6min
Brasil precisa de um plano de prevenção contra as tragédias climáticas
Crédito: Lauro Alves / Corpo de Bombeiros / RS

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Desde o final de abril, o Brasil assiste atônito às imagens das águas que dominam cidades e levam vidas no Rio Grande do Sul. O número de pessoas desalojadas pelas enchentes chegou a 540.188, e outras 77.202 estão em abrigos, segundo o Boletim divulgado pela Defesa Civil hoje (18). Com a atualização, os afetados pela tragédia climática chegaram a 2.304.422. Subiu para 155 o número de pessoas mortas e 94 pessoas ainda estão desaparecidas.

Expressões como catástrofe socioambiental, emergência climática, adaptabilidade e resiliência dominam os noticiários e passam a integrar o vocabulário de autoridades e da população brasileira, na busca por explicações e soluções aos eventos climáticos extremos.

É positivo o fato de que os governantes passaram por cima de suas divisões políticas e estão unidos agindo em favor da população. O governo do presidente Lula, governadores estaduais, e Forças Armadas e grande número de voluntários estão mobilizados. Mas é necessário ir além desses esforços. Por conta do aquecimento global, eventos como este se repetirão em outras partes do país.

Para além deste momento de emergência, é preciso pensar mais seriamente num plano nacional de prevenção de tragédias climáticas. O Brasil necessita de fato construir um sistema muito eficiente de proteção do meio ambiente, de proteção contra as mudanças climáticas e de prevenção do que fazer diante desses eventos climáticos.

Está acontecendo hoje no Rio Grande do Sul, mas aconteceu no ano passado a maior seca da história da Amazônia. Têm ocorrido enchentes na Bahia, Minas Gerais, São Paulo, com muita frequência. Essa é a hora de fortalecer muito a preparação do Estado para agir nesses momentos. A forte chuva no Sul não é algo isolado e, por conta do aquecimento global, irá se repetir ao longo dos anos.

Estamos vivendo uma nova realidade, a da crise climática, e ainda não sabemos exatamente como ela funciona e nem quanto ela custará aos cofres públicos. Tudo indica que eventos climáticos extremos aumentarão sua ocorrência e sua intensidade de forma exponencial, e precisamos de cidades adaptadas a isso, de hábitos e costumes adaptados a isso e de uma economia adaptada a isso. Se nosso modelo econômico restringe os gastos que são necessários com adaptação das cidades e com respostas a desastres, esse modelo não é compatível com a realidade que vivemos.

Para que futuros eventos climáticos extremos não causem o dano que as chuvas no Rio Grande do Sul causaram, o Brasil precisa de um grande plano de adaptação climática, que deve ser executado o mais rápido possível.

Esse plano de gestão de risco climático tem que ser dinâmico, porque o clima continuará mudando. É com essa ideia que se trabalha no governo, desde o ano passado. A emergência é tentar ao máximo mitigar as perdas e as dores dos gaúchos, mas é preciso ir além disso porque o clima continuará superando os cenários.

Contudo, nada impressiona os ruralistas. A Comissão de Constituição e Justiça do Senado colocou em pauta uma proposta para reduzir a reserva legal na Amazônia com o relatório favorável do senador Marcio Bittar (União-AC).

Quando, em fevereiro de 2023, uma enchente castigou o litoral de São Paulo, atingindo São Sebastião, onde 65 pessoas perderam a vida, 64 no município, o Ministério de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas começou a preparar um plano de prevenção. Era o segundo mês do governo e com a ideia de que não é o bastante gerir o desastre, é preciso formular um plano de gestão do risco climático. E é isso que tem sido preparado desde então para 1.942 municípios considerados mais vulneráveis.

Mas é preciso mais. A Suécia começou anos atrás a preparar a remoção de uma cidade inteira, quando descobriu que em 40 anos ela estaria submersa. O Brasil precisa saber melhor quantificar os riscos para todas as suas áreas expostas.

O Painel Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC) da ONU divulgou, recentemente, informação de que 2023 pode ter sido uma virada de chave. O que era evento extremo virou normal, e o que vai ser extremo ainda nem se sabe o que é.

A dificuldade do governo está no fato de que é preciso prever o imprevisível. É por isso que se fala em um plano que seja dinâmico, porque ele terá que ser alterado de acordo com as mudanças do clima. Há muito a fazer diante desses quase dois mil municípios brasileiros mais expostos. Cidades precisam de remoção, de obras em encostas, de dragagem, novos gabaritos de construção, equipamentos públicos, planos de adaptação e de gestão de risco.

O coordenador da frente de Justiça Climática do Greenpeace Brasil, Igor Travassos, lembra que no Brasil a maior fonte de emissão de gases de efeito estufa, que causa a mudança climática, é o desmatamento. Enfrentá-lo é fundamental. Mas, é preciso mais. É necessário ter uma cultura da prevenção, porque o Brasil já teve sinais bem eloquentes dos riscos de outros desastres como o que vemos no Rio Grande do Sul.

Em 2022, no Recife, houve 133 mortos e mais 130 mil desabrigados. Tivemos várias ocorrências em Petrópolis, nesse ano, além do que houve em 2020 e 2011. Em 2023, além das cheias no sul houve uma seca extrema no Norte — destaca.

A esmagadora maioria dos brasileiros concorda que as chuvas históricas que atingiram o estado do Rio Grande do Sul, na última semana, estão relacionadas, em maior ou menor grau, com as mudanças climáticas. Essa é a principal conclusão da pesquisa do Instituto Quaest divulgada na noite de 4ª feira (8/5/24), que entrevistou 2.045 pessoas em 120 municípios entre os dias 2 e 6 de maio.

No governo também se fala o mesmo. Mas não fará sentido um plano de combate ao risco climático, como o que vem sendo desenvolvido desde a tragédia de São Sebastião, se no Congresso continuar a marcha do absurdo, com a tramitação de vários projetos de lei e ou propostas de alteração da Constituição com potencial para ampliar a destruição ambiental. A desta semana é mais um projeto que tenta reduzir a reserva legal na Amazônia. Eles negam a ciência, eles negam os fatos, eles negam o direito à vida.

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