Clima, Política e Desastres
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12 de maio de 2024
7min
Clima, Política e Desastres

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Está ficando rotina e não nos surpreende mais, vermos nos noticiários desastres, como cheias e inundações, deslizamentos e soterramento de casas e rodovias, destruição e mortes, muitas mortes. Seja no Rio Grande do Sul, Maranhão, Acre, em São Paulo, Minas Gerais, Petrópolis (RJ), Recife (PE), Salvador (BA), e muitos outros lugares, nos perguntamos por que isso está acontecendo tão constantemente? São as mudanças climáticas? Por que as mesmas situações se repetem e cada vez mais os desastres são maiores e as consequências mais nefastas?

O pior é que estamos também acostumados a escutarmos os alertas dos especialistas e as situações continuarem a ocorrer, afetando principalmente os menos favorecidos. Autoridades repetem que o problema é porque a população ocupou áreas de risco como encostas, beiras de rios, lagos e falésias, além de áreas próximas ao mar. Então fica a pergunta: por que isso aconteceu? A principal resposta seria devido à falta de Planejamento Urbano, que induz a falta de ações que impeçam o uso de áreas passíveis de risco.

E quais são as soluções, quando essas ocupações irregulares já aconteceram?

De acordo com especialistas, existem três tipos de resposta possíveis diante dessas situações: a mitigação das causas, a adaptação para preparar-se para as consequências e a redução de danos diante das tragédias.

“Mitigação é quando você ataca o problema: é quando você interrompe o desmatamento, quando você tira uma termoelétrica de operação, quando substitui uma fonte poluente por uma fonte renovável”, afirma o especialista.

“A adaptação é quando o problema vai acontecer e você começa a adaptar principalmente as populações mais vulneráveis ao problema. Por exemplo, quando tira as populações da área de risco, quando dá mais assistência para um pequeno agricultor lidar com uma seca.”

Já a redução de danos é lidar com as perdas e reduzir os danos, promovendo respostas emergenciais às tragédias. Muitas vezes, mesmo já tendo sido detectados os riscos, sequer são elaborados planos de contingência para serem aplicados nessas situações, o que poderia trazer maior agilidade e eficácia às ações emergenciais.

Segundo Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima (OC), no geral “Perdas e danos é o que se faz normalmente: desbarrancou, você vai procurar sobreviventes, vai construir casas”. O problema, na visão do especialista, é que as ações tomadas por autoridades federais, estaduais e municipais tendem a se concentrar apenas nesse terceiro estágio de resposta.

“O pessoal só age quando já está no nível da desgraça”, diz Astrini, enquanto que “o dinheiro investido na primeira camada vale muito mais, porque ele evita a adaptação e evita o desastre.”

Ações que estão sendo tomadas tanto pelo governo federal, quanto pelo governo estadual e pelos municípios, no caso das chuvas no Rio Grande do Sul — alertas da Defesa Civil, evacuação de pessoas de áreas de emergência, restabelecimento de serviços etc., que são imprescindíveis no momento — se encaixam no terceiro tipo.

No momento, as fortes chuvas que atingem o Rio Grande do Sul, as mais intensas registradas em território gaúcho em décadas, já deixaram mais de uma centena de mortos, causaram estragos em 281 municípios, romperam barragens e desalojaram mais de 24 mil pessoas. Há ainda mais de 100 pessoas desaparecidas, enquanto o mau tempo já provoca danos em outros Estados do Sul.

Os governos federal e estadual criaram uma força-tarefa e tentam evitar mais mortes, promovendo evacuações e retirando pessoas de áreas de risco.

“Mas a responsabilidade não é apenas dos governos estaduais e federal”, diz Marcio Astrini, “mas também do Congresso — pois as tragédias são resultado da falta de adaptação e de combate às mudanças climáticas, duas áreas onde os Executivos precisam fazer mais e onde o Legislativo têm promovido ativamente retrocessos, na opinião dele”.

"A maioria conservadora tem aprovado diversos projetos considerados nocivos para o meio ambiente. Nunca tivemos um Congresso tão dedicado a desmontar os avanços na área ambiental", afirma o especialista em políticas públicas à frente do Observatório do Clima, rede de entidades que monitora a questão climática no Brasil.

Além disso, ainda segundo Astrini, ações que se limitam às respostas de emergência em situações de crise não são suficientes. Eventos extremos como esse — cada vez mais comuns por causa das mudanças climáticas — não podem mais ser tratados como “imprevistos”.

Embora nem sempre seja possível prever com precisão a intensidade de um evento extremo, já sabemos que eles se tornarão mais frequentes e quais as medidas que precisam ser tomadas para nos adaptarmos a eles, afirma o especialista.

De acordo com Carlos Afonso Nobre, pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), "o que acontece no Rio Grande do Sul não é uma tragédia natural. É consequência da ação humana, da irresponsabilidade, do descaso com o Meio Ambiente".

Modelos climáticos preveem há décadas um aumento de chuvas extremas no sul da América do Sul, incluindo toda a bacia do Prata (formada pelos rios Paraná e Uruguai), lembra Astrini.

“O maior problema que a gente enfrenta neste momento não é a previsão, é a aceitação”, afirma Astrini. “A gente precisa aceitar que, infelizmente, esse é o novo normal. Mas não basta aceitar pacificamente, é preciso aceitar e tomar atitudes.”

"Em nosso planeta, nunca aconteceu nada como o que acontece no Rio Grande do Sul neste mês de maio. Estou falando em um período de 125 mil anos", alertou. Ele ressaltou ainda que "o que está acontecendo no Rio Grande do Sul nunca ocorreu em nossa história. Os órgãos públicos podiam ter tomado medidas preventivas, porque sabíamos desde o ano passado que isso poderia ocorrer".

Carlos Nobre, cujo currículo inclui a coordenação-geral do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/INPE), enfatizou a necessidade de ações urgentes e políticas públicas efetivas para enfrentar os desafios das mudanças climáticas e evitar que tragédias como essa se repitam no futuro.

Astrini diz ainda que é preciso lembrar da responsabilidade do Congresso em relação à situação climática que leva a tragédias como a sofrida pelo RS, neste momento.

"Deputados trabalham dia e noite para destruir a legislação ambiental do Brasil com afinco. Neste momento estão querendo acabar com a Lei de Licenciamento Ambiental, querem acabar com a reserva legal na Amazônia, querem acabar com as reservas indígenas”, diz Astrini. “A gente nunca teve um Congresso tão agressivo nesse esforço para desmontar a legislação ambiental no Brasil”, afirma. “Então eles têm enorme responsabilidade por situações como essa e têm que ser cobrados por isso.”

Deputados e senadores contrários a pautas importantes para ambientalistas argumentam que a legislação ambiental atrapalha o desenvolvimento econômico e, em alguns casos, negam dados científicos sobre o aquecimento global ou sobre desmatamento no Brasil.

Até quando a população, a maior afetada pelos eventos extremos, vai se calar? Quando vai entender que destruindo o meio ambiente está se autodestruindo? E quando exigirão que os parlamentares eleitos para representar os interesses do povo de fato defendam o que é melhor para todos?

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