Desinformação e o uso político da tragédia do Rio Grande do Sul
Natal, RN 22 de jun 2024

Desinformação e o uso político da tragédia do Rio Grande do Sul

18 de maio de 2024
10min
Desinformação e o uso político da tragédia do Rio Grande do Sul
Rio Grande do Sul. Foto: Gustavo Mansur / Palácio Piratini (Foto: Gustavo Mansur / Palácio Piratini)

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O Programa de Combate à Desinformação do Supremo Tribunal Federal (STF) foi criado em agosto de 2021 com, entre outros objetivos,  o de combater práticas que  distorcem ou alteram o significado das suas decisões e “colocam em riscos direitos fundamentais e a estabilidade democrática”.

Em setembro de 2023, como parte dos estudos e pesquisas do Programa foi publicado o livro (e-book) Desinformação, o mal do século. Distorções, inverdades, fake news: a democracia ameaçada  (Editora da Universidade de Brasília). No prefácio, A infodemia veio para ficar. O que faremos? Dione Oliveira Moura, Diretora da Faculdade de Comunicação da UNB diz que  para a permanência e vigor dos processos democráticos de comunicação  é de fundamental importância  o “enfrentamento da avalanche de desinformações típicas de um cenário de infodemia”.

Infomedia é a “Denominação dada ao volume excessivo de informações, muitas delas imprecisas ou falsas (desinformação), sobre determinado assunto que se multiplicam e se propagam de forma  rápida e incontrolável,  que dificulta o acesso a orientações e fontes confiáveis, causando confusão, desorientação e inúmeros prejuízos à vida das pessoas”(.https://www.academia.org.br/nossa-lingua/nova-palavra/infodemia).

Para o combate eficaz a avalanche de desinformações é necessária não apenas pesquisas e reflexões como alternativas,  como entre outras,  uma educação midiática (alfabetização midiática e o letramento digital) e campanhas para o combate à desinformação, assim como também à apuração e a responsabilização criminal dos atores envolvidos na indústria da desinformação.

E cita a pesquisadora Raquel Recuero (coordenadora do Grupo de Pesquisa em Análise de Redes e Mídias Sociais) a qual constata que a existência  de bolhas que “circulam de forma abundante a desinformação de cunho negacionista” e que a desinformação “quase sempre oferece uma explicação muito mais simples, muito mais simplória do que a explicação científica para o fato” e que “o discurso conspiratório identificado nessas bolhas  também promove o esvaziamento do lugar de mediação da imprensa, das instituições e do papel do próprio processo democrático”.

A tragédia ainda em curso no Rio Grande do Sul mostra como se existe de um lado a solidariedade de muita gente, arrecadando dinheiro, alimentos, mantimentos etc., por todo o país, a ajuda do governo federal etc., o ecossistema  da  desinformação continua ativo e é nesse sentido que podemos nos referir ao uso político da tragédia.

Trata-se de uma verdadeira indústria da desinformação, uma campanha orquestrada  especialmente nas redes sociais pela extrema direita, com o propósito de desgastar e desqualificar o governo Lula,  como parte integrante do seu modus operandi. Não ajudar nem propor alternativas, mas mentir e atacar politicamente o governo.

Mas, há outras questões relevantes, como por exemplo, indagar as razões que leva alguém não apenas a mentir deliberadamente, como compartilhar mentiras sabendo que pode trazer graves consequências. No caso da tragédia, o conjunto de mentiras sistemáticas, cotidianas sobre o que está ocorrendo, revela pessoas que o ministro e presidente do Supremo Tribunal Federal, Luis Roberto Barroso, chamou de “criaturas das trevas, das sombras, que cometem  maldades se aproveitando do sofrimento das pessoas”. São  ladrões que  saqueiam casas, lojas, armazéns etc., pix falsos para doações, políticos vigaristas que usam as redes sociais  para alimentar a indústria da desinformação (e não apenas em relação à desastres climáticos), enfim, o que se constata é  a proliferação de mentiras, fake news,  com o objetivo de difundir o caos,  o medo e o pânico e assim prejudicar todos os esforços que tem sido feito para ajudar as vítimas.

Mentiras amplamente difundidas nas redes sociais cria uma espécie de uma realidade paralela, alimentando a insanidade  na rede de desinformação, como a difusão de teorias conspiratórias malucas, como atribuir a tragédia climática no Rio Grande do Sul à existência de muitos terreiros de macumba no estado, ou as antenas de um projeto científico  - criado em 1993 – desenvolvido nos Estados Unidos chamado HAARP (High Frequency Active Auroral Research Program - Programa de Investigação de Aurora Ativa de Alta Frequência) (ver a matéria A teoria conspiratória que atribui às antenas HAARP inundações no Rio Grande do Sul de Giulia Granchi da BBC News Brasil, publicada em 7 de maio de 2024 (https://www.bbc.com/portuguese/articles/czq52l4xgypo).

Teorias conspiratórias se associam a estratégia de propagação de fake news. Os que elaboram e difundem , especialmente nas redes sociais,  sabem que as emoções como o medo, o pânico engajam muito mais, que existe uma predisposição de determinado público, associado à ignorância, para acreditar neles, presos em suas bolhas. São mentiras dirigidas as pessoas mais inclinadas a assimilar  mensagens que apenas confirmam  suas  crenças, desconsiderando  argumentos contrários(viés de confirmação) e que se articula (e se estrutura)  também como um projeto político.

Diversas agências de checagens de fatos têm contribuído para desmentir a sucessão de boatos e mentiras sobre as enchentes no Rio Grande do Sul. Entre eles, o boatos.org, fundado em 2013 pelo jornalista Edgard Matsuki que em relação à tragédia do RS  desmentiu dezenas de boatos (https://www.boatos.org/lista/20-boatos-e-fake-news-sobre-as-enchentes-no-rio-grande-do-sul.html).

Outra é o serviço de checagem de fatos do grupo Globo, Fato ou Fake. Uma matéria publicada  no dia 6 de maio de 2024 pelo portal G1 e Globo  traz muitos exemplos de fatos mas principalmente de fakes em relação às inundações no Rio Grande do Sul. Limito-me a alguns que evidenciam a calhordice dos que, em meio a uma tragédia, criam vídeos, manipulam politicamente e divulgam mentiras que revelam, também, a estupidez e desinformação dos que acreditam e ajudam a divulgar em suas redes sociais.

Entre muitas mentiras, é citado um vídeo sobre imposto das doações no qual afirma que a Secretaria da Fazenda do estado estava impedindo a entrada de caminhões com doações por falta de nota fiscal. Nem estava (nem está) retendo nem solicitando notas fiscais e nem multando e tampouco que a Polícia Rodoviária Federal (PRF) estava recolhendo reboques com motos aquáticas por falta de habilitação dos proprietários.

São mentirosos também os vídeos que se referem a mais de 300 corpos encontrados na cidade de Canoas. Na mesma data havia em todo o Rio Grande do Sul registro de 95 mortes, 131 desaparecidos e 372 feridos, de acordo com dados da Defesa Civil.

Como também são os que mostram descartes de alimentos para vitimas; que o IBAMA estava impedido moradores de abrir estradas (que não tem nada a ver com suas atribuições) etc. (a matéria completa, com outros exemplos de mentiras está disponível em https://g1.globo.com/fato-ou-fake/noticia/2024/05/06/veja-o-que-e-fato-ou-fake-sobre-a-tragedia-no-rio-grande-do-sul.ghtml).

Há também um vídeo que Tarso Genro - que foi governador do estado do Rio Grande do Sul e prefeito de Porto Alegre - no artigo Territórios da catástrofe e da resistência (12/05/2024), atribui a “um estranho canalha – virtual ou real – afirmando que as autoridades do Estado brasileiro, em conluio com a China, estariam causando deliberadamente a tragédia climática aqui no Sul, provocando artificialmente chuvas para gerar o caos, a morte e desesperança, visando os fins ‘políticos’ de esquerda”. E diz que “essa é uma pequena e brutal demonstração da tara e da perversidade da extrema direita global, que monetizando a sua maldade absoluta pretende minar o exemplo magnífico de solidariedade que hoje atravessa o Rio Grande – de sul ao norte – com a maioria das suas organizações políticas e representações da sociedade civil”.

O que esse conjunto de mentiras, fake news expressam é a necessidade, urgente, de regulamentação das redes, com  o objetivo de combater a desinformação, como defende o presidente do STF, Luis Roberto Barroso, afirmando que parte das plataformas está articulada com a extrema direita e considera ser “inacreditável que a motivação política faça com que se tripudie das mortes”.

Nesse sentido, o Ministério da Justiça já pediu a Policia Federal investigar os perfis – inclusive de parlamentares (bolsonaristas) - que estão, de maneira  reiterada, espalhando mentiras e desinformação, da mesma forma, também foram abertos inquéritos pela Polícia Civil do Rio Grande do Sul.

Mas é preciso também compreender que o que está ocorrendo é resultado de um conjunto de fatores, climáticos, mas também da falta de investimentos, de preparo para a prevenção, manutenção e análises de riscos, dos desmatamentos, destruição de matas ciliares, assoreamento de rios etc. E há responsáveis. Nos governos de Michel Temer e de Bolsonaro houve um desmantelamento de políticas ambientais, não investimento em defesa civil etc., e foram os governos com maiores cortes dos investimentos orçamentários em  riscos e desastres ambientes, com  apoio inclusive do governo do Rio Grande do Sul e da Prefeitura de Porto Alegre com o desmantelamento de órgãos públicos do Meio Ambiente.

Como disse Maria Betânia Silva – Procuradora de Justiça Aposentada- no artigo As margens não são plácidas: um dia tudo transborda “A corrente de solidariedade que a tragédia despertou no Brasil inteiro é algo bonito de se ver. É comovente!  Mas é, no mínimo, revoltante saber que governador ignorou alertas científicos sobre as fortes chuvas, mexeu em quase 500 artigos do Código Ambiental do Estado, desmantelou  políticas ambientais, não investiu um centavo nas rubricas de órgãos voltados à defesa civil (...) e, por fim, agradeceu a Elon Musk sem nada mencionar sobre as ações do governo federal voltadas a mitigar o sofrimento das vítimas das enchentes e, a recuperar a infraestrutura estadual bem como a economia do estado. https://jornalggn.com.br/cidadania/as-margens-nao-sao-placidas-por-maria-betania-silva/

Tarso Genro em entrevista para o Fórum Onze e Meia no dia 15 de maio de 2024 afirmou que "A responsabilidade dos governantes atuais não é pela catástrofe que aconteceu - essa vem de longe. É pelo fato de que as medidas que eles poderiam ter tomado, que estavam ao alcance, não foram tomadas porque tinham uma visão negacionista da questão climática", um negacionismo científico  que resultou no sucateamento do sistema antienchente construído  no estado nos anos 1970.

Para Luis Nassif, no artigo Rio Grande e o grande desafio de reconstrução da democracia (13/5/2024) administrar esse desastre será uma questão vital para a democracia brasileira e para o governo Lula. A extrema direita está organizada, dentro e fora do parlamento e, como afirma Nassif, um fracasso do governo  poderá abrir espaço para a volta do bolsonarismo, com  todas as suas consequências (e não apenas para o meio ambiente).

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