Duas leituras e um gesto de atenção
Natal, RN 26 de mai 2024

Duas leituras e um gesto de atenção

11 de maio de 2024
4min
Duas leituras e um gesto de atenção

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Era sábado, era véspera de Dia das Mães e a manhã prometia uma boa prosa.

Fui em busca dela e me fiz presente no lançamento do novo livro de Aldo Lopes, “Memorial do Esqueleto e Outros Contos”. O número 641 das edições do Sebo Vermelho, bravamente idealizadas e mantidas pelo polêmico e necessário Abimael Silva. Logo percebo que a leitura desse livro se faz também necessária: não só em função do seu autor e do seu editor, não só em função da minha predileção por esse gênero literário, mas, sobretudo, porque uma história (estória?) bem contada sempre cai bem.

E o poder narrativo de Aldo se mostra logo de cara: conquista nossa atenção num primeiro golpe, sem firulas, sem rodeios, e sabe fazer uso daquela virada de chave, de maneira exata e precisa, em que coincidem clímax e desfecho. Vejam, por exemplo, os contos “O Jardim” ou “O gancho do teu braço em meu pescoço”, quando a gente cai em si e percebe que, por trás da estória (história?), tinha outra acontecendo bem embaixo do nosso nariz.

Na mesma manhã, sigo no rastro de outra leitura: a reimpressão de um zine de Gessyka Santos, “No silêncio habita o incêndio”. Gessyca é mais uma dessas bravas pessoas para quem não basta escrever: é preciso cuidar também da edição, publicação, divulgação e distribuição. Ou, como costumo designar, um exemplo de autora-editora. Há muitos selos editoriais em Natal nessa linha, todos dignos de nota, mas o que aprecio no trabalho de Gessyka e sua Anzóis Produtora Potiguar (em parceria com Gonzaga Neto) é o engajamento na cultura de autonomia e resistência dos fanzines. Esses “folhetos” de artesania caprichada que muita gente nem sequer percebe que existe, caindo no equívoco de achar que boa literatura só se encontra em livros ou revistas de “prestígio”. Por trás de sua aparente simplicidade, quanta potência um zine pode conter… Tal como nos versos – delicados e simultaneamente fortes – de Gessyka:

O silêncio grita
em alguém
vestido de tudo

Sim, Gessyka, sim, Aldo, um monte de histórias e estórias estão acontecendo e a gente simplesmente não consegue percebê-las, ouvi-las, vê-las. E quando me refiro a essa condição “invisível”, não me refiro àquela arrogância de “caras tristes fingindo que a gente não existe”, como cantava o saudoso Cazuza, estou falando mesmo é desse pequeno gesto que, mais por descuido do que por maldade, esquecemos de praticar: um pequeno e gentil gesto de atenção.

Foi o que me pareceu dizer, em outras palavras, Cleo, a jovem mulher que conheci nessa mesma manhã. Enquanto conversávamos na calçada da avenida Rio Branco, notei aquela mocinha mirrada acenando para mim. Ao seu lado, no chão, alguns livros dispostos como num sebo improvisado. Conversamos alguns minutos e, de maneira muito educada e articulada, contou que vivia em situação de rua. Acabei comprando um de seus volumes (um livro sobre Ziraldo) e ela decidiu me presentear com outro, comentando, distraída: “tantas pessoas, mas hoje só você me deu atenção”.

O profeta tinha razão. Que tenhamos olhos para ver (ainda que tarde) e força para praticar (porque nem sempre é tão bonitinho e fácil). Que consigamos, enfim, compreender que, assim como o privilégio da leitura, a gentileza pode ser uma questão de hábito.

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