Espaço em Natal utiliza da arte enquanto alternativa antimanicomial
Natal, RN 21 de mai 2024

Espaço em Natal utiliza da arte enquanto alternativa antimanicomial

12 de maio de 2024
10min
Espaço em Natal utiliza da arte enquanto alternativa antimanicomial

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Por muito tempo no Brasil, pessoas com demandas sérias de saúde mental foram excluídas da sociedade, ainda mais do que hoje. Na verdade, até alguns anos atrás, bastava ser uma pessoa LGBTI+, pessoa com alcoolismo ou mãe solteira, por exemplo, para ser considerada escória da humanidade e levada aos manicômios, que foram abolidos no país somente em 2001. A luta antimanicomial, comemorada em maio no país, se propõe a combater a ideia de isolamento da pessoa com sofrimento mental e, nesse sentido, em Natal, um exemplo é o Centro de Convivência e Cultura (Cecco).

Se apresentando como um lugar de liberdade e autonomia, mediado pela arte e cultura dos chamados usuários ou convivas, o Cecco foi inaugurado em 2017 e é vinculado à Secretaria Municipal de Saúde, se caracterizando como um espaço de serviço aberto que integra a rede de atenção psicossocial.

Surgiu no ambulatório de saúde mental, depois ocupou a Ribeira, bairro histórico da cidade de Natal. Hoje, o único Cecco da capital potiguar funciona no auditório do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) infantil, na Avenida Capitão-Mor Gouveia, no bairro Cidade da Esperança, sem uma sede própria. Uma das demandas do movimento hoje em Natal é que os Ceccos, assim como os demais dispositivos da  rede de atenção psicossocial, sejam territorializados, presentes em cada região da cidade.

Sociabilidade, inclusão e produção artística e cultural, indo contra a lógica que aprisiona e oprime o indivíduo com demandas mentais específicas. Essas são as principais vertentes do Cecco. O espaço busca atender a comunidade, principalmente pessoas com transtornos mentais, favorecendo a construção de vínculos sócio comunitários e criatividade, como explica Roxane Sales, psicóloga do Cecco e mestre em saúde coletiva.

A lógica de cuidado do espaço é recusar a reprodução de práticas excludentes, tendo a arte como aliada, ressalta a psicóloga. Foto: cedida/Cecco.

“No centro de convivência de arte e cultura, todos os profissionais têm como papel promover a interação entre os usuários, que chamamos de convivas, por meio de laços de convivência que promovam a autonomia, inclusão e reinserção social. Além desta função geral, como psicóloga tenho a escuta qualificada, que não é psicoterapia, mas auxilia  no processo de autonomia e cuidado por meio da fala e escuta. Além disso, facilito as oficinas de meditação”, explica.

A lógica de cuidado do espaço é recusar a reprodução de práticas excludentes, tendo a arte como aliada, ressalta a psicóloga.

“E, por isso, existe um investimento em criação de estratégias comunitárias de laços sociais e vínculos para desinstitucionalizar a loucura e afirmar a potência desse indivíduo na cidade, apontando a potência da arte em relação à luta antimanicomial e a arte como produção de saúde e de vida desses sujeitos. A manifestação artística enquanto ato político é possível, inclusive respeitando a diferença e o processo de que o usuário da RAPS [Rede de Atenção Psicossocial] e pessoas que não são reconhecidas como vozes ativas na nossa sociedade podem ser ouvidas, a partir das suas diferenças e potencialidades internas” .

Nessa perspectiva, o Cecco traz a prática de lidar com cada indivíduo de forma única e singular, com oficinas que não se comportam como atividades impostas, tão comum no modelo manicomial. Oficinas de dança, repercussão, rodas de poesia, roda musical, teatro, alongamento, meditação e zumba têm o objetivo de utilizar a arte como um recurso de tratamento e expressão, explorando a potencialidade da criação, defende Roxane. 

Oficinas de arte são comuns no Centro de Convivência e Cultura. Foto: cedida/Cecco.

“Além disso, nós temos a ampliação da ocupação de espaços da cidade, onde a inserção desses convivas no cotidiano é construída de acordo com esse pensamento coletivo, o pensamento de desejo deles, nunca como algo imposto que eles são obrigados a participar. E se insere também nesse movimento os atores sociais, que realizam trabalhos voluntários, os estudantes e professores, que também utilizam o serviço como espaço de formação”.

Cuidado em liberdade

Criação e tratamento em liberdade guiam espaços como o Cecco. A lógica vai contra a perspectiva que se nega a enxergar indivíduos em sofrimento mental como sujeitos dignos de cidadania.

Essa perspectiva do cuidado em liberdade foi difundida a partir da reforma psiquiátrica brasileira, impulsionada pela Lei 10.216, de 2001, que teve como marca registrada o fechamento dos manicômios e hospícios no país.

“A reforma psiquiátrica vai contra essa lógica manicomial, essa lógica de que trancar é tratar e de que o medicamento e o modelo biomédico é a única maneira de cuidar desse sujeito, que é um modelo que nós vamos contra. Então a gente vai sempre em relação a ampliação das possibilidades desse sujeito, tratando sem a exclusividade do medicamento e acreditando no serviço que possa tratar de maneira aberta sem trancafiar esse indivíduo”, pontua Roxane.

Foto: cedida/Cecco.

De acordo com a psicóloga Daniele Lima, do Centro de Referência em Direitos Humanos Marcos Dionísio, o cuidado em liberdade é uma proposta que visa lidar com as pessoas que necessitam de uma atenção especializada em saúde mental de uma forma que respeite a cidadania do sujeito. Assim, é estabelecida uma relação de cuidado às pessoas com demandas de saúde mental

“E isso vem para fomentar criatividade, plano de vida e saúde para essas pessoas. Vamos no sentido de relação de cuidado com esse usuário para que ele possa produzir novas formas de estar no mundo”, defende.

Desafios

Apesar da ampliação da temática na sociedade, que vem crescendo, ainda há muitos desafios para superar a questão manicomial, ressalta Roxane.

“Embora as políticas públicas de humanização dos cuidados, as práticas integrativas, já estejam bem difundidas entre os profissionais de saúde, até mesmo os próprios profissionais precisam de supervisão institucional para compreender como colocar em prática suas atividades e não sucumbir a esse modelo biomédico, a esse modelo de que tratar só é possível longe da família e longe do social, essa ideia de que tem que se manter à margem. Aquele sujeito que está adoecido ainda é um estigma muito forte em nossa sociedade”.

Existe, na sociedade, o preconceito que estigmatiza esses sujeitos, explica a psicóloga.

“Existe o estigma e preconceito ligado à noção de capacidade e de que o sujeito que adoece é perigoso. E por isso acaba-se reproduzindo locais que não trazem afetividade, e que sim despotencializam e acabam excluindo e trazendo mais adoecimento psíquico”

Então, do que precisamos para superar essa lógica de separar a pessoa com sofrimento mental para conseguir tratar suas demandas? A psicóloga aponta alguns caminhos, destacando a comunicação e a informação que, como ela defende, podem mostrar à sociedade, que é manicomial, quais são as marcas e os estigmas que ficam em uma pessoa que é tratada de maneira isolada da sociedade.

“Então precisamos de comunicação, de eventos – políticos, criativos, artísticos – que expliquem para sociedade maneiras diversas e alternativas de tratar”, sugere. “Podemos afirmar que embora haja comunicação e difusão sobre o significado da reforma psiquiátrica, da luta antimanicomial, ainda existe sim o estigma e o preconceito de exclusão em relação aos usuários dos serviços, às pessoas que se encontram adoecidas em sua saúde mental e em seus laços, e a necessidade de explicar tanto a profissionais como a comunidade acerca desses serviços e outras possibilidades de tratamento para retirar o estigma”.

Para a psicóloga, essa alternativa permite “trazer quais são as outras possibilidades formativas, as outras possibilidades de tratamento, trazer as falas, as narrativas desses usuários que fazem parte dos serviços como por exemplo o Cecco, que traz esse baseado na construção autônoma do sujeito por meio da arte, da cultura e dos laços de convivência. Então expor a outras maneiras criativas de tratar é sempre uma forma de ir na contramão do tratamento manicomial”.

Direito à loucura

No Brasil, quem trouxe e difundiu uma percepção mais humana e inovadora da loucura como expressão da subjetividade dos sujeitos com sofrimentos mentais foi a psiquiatra Nise da Silveira. A ativista contra as práticas violentas nos hospitais psiquiátricos defendia a arte como meio de libertação, sem nunca aceitar as formas agressivas de tratamento da época, como o isolamento do indivíduo da sociedade, os eletrochoques, a insulinoterapia e a lobotomia.

Em vez de utilizar esses métodos, a médica reinventou o próprio departamento de terapia ocupacional. Sob o comando dela, foram criados ateliês de pintura e modelagem.

"Aquilo que se impõe à psiquiatria é uma verdadeira mutação, tendo por princípio a abolição total dos métodos agressivos, do regime carcerário, e a mudança de atitude face ao indivíduo, que deixará de ser o paciente para adquirir a condição de pessoa, com direito a ser respeitada”, afirmava Nise.

A psiquiatra foi também pioneira no Brasil na pesquisa das relações afetivas entre pacientes e animais, aos quais chamava de co-terapeutas.

Vale ressaltar que a médica também passou a engajar-se politicamente já no início da carreira. Tornou-se militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e, denunciada por uma enfermeira, acabou presa por "posse de livros marxistas". Foram 18 meses no presídio Frei Caneca, onde conviveu com o escritor Graciliano Ramos — também detido ali — e isso acabou fazendo dela uma personagem do livro Memórias do Cárcere.

Seu trabalho e seus princípios inspiraram a criação de museus, centros culturais e instituições terapêuticas no Brasil e no exterior. Além disso, o audiovisual também homenageou Nise, tendo como principal exemplo o filme Nise: o coração da loucura, protagonizado por Glória Pires, que interpreta a psiquiatra.

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