“Gato sem rabo”
Natal, RN 19 de jun 2024

"Gato sem rabo"

18 de maio de 2024
5min

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“virginia woolf estava certa/mulheres que escrevem são/como gatos sem rabo, por isso/ é esquisito, por isso incomoda” – esses versos não são meus, nem o título da coluna dessa semana. Eles são de Regina Azevedo, puta poeta potiguar – seus versos têm gosto de coisa boa que fica nas papilas gustativas por tempos.

Além disso, lendo Regina, eu tenho a certeza de que também posso. Não sei se versos – não sou uma puta poeta potiguar como ela. Mas sei que posso. Meus textos se movimentam dentro de mim e foi ela quem disse “os textos se mexem”. Eu os sinto, Regina! E você me faz crer que eu posso escrever. Posso ser um gato sem rabo.

Meus textos, às vezes, se mexem tão rápido que eu os perco. Sei que isso acontece com quem escreve. Outra escritora potiguar, essa contista/cronista/psicóloga, uma xará minha: a Madruga, Bia Madruga, amiga que os estudos acadêmicos me presentearam, também os perde. Li essa revelação em mais de um de seus textos: “Eu tinha um texto em minha cabeça, mas perdi.” – dizia em um. “...escrevia textos inteiros dentro da minha cabeça. Perdi todos”. – dizia no outro.

Depois fiquei pensando. Será que ela perde mesmo, ou ela inventou isso? Ficcionistas podem tudo. Mulheres que escrevem podem tudo. Inclusive fazer uma mentira virar verdade. Afinal, as poetisas, as poetas e os poetas não podem encontrar poesia no breu?! – “poesia não é só luz (ainda bem)” – escreveu Regina Azevedo. Eu creio!

Fiquei pensando também na história do “gato sem rabo” da Woolf e da Azevedo e da esquisitice de se deparar com um animal assim. Conheço um gato sem rabo, Lelêu. Ele mora na rua da minha mãe. Sem rabo, assemelha-se a uma lebre. Ele é branco. Sem orelhas de lebre: um bicho esquisito. (...todo mês sangra... – lembrei de Rita Lee)

Agora, uma mulher que escreve ser comparada a um animal assim?! Quem nos vê dessa forma!? Certamente o patriarcado. Esse sistema falocêntrico que acredita que “sem miolos na cabeça são as mulheres”. Esquisito de verdade é o patriarcado, sobretudo quando sabemos que falo nenhum tem cérebro. (E aí?! Quem é que não tem miolos?!)

Mulheres que escrevem pensam tanto, fervem tanto seus neurônios que são capazes da façanha de escrever textos (inteiros, imensos, com direito à revisão, cortes, reescritas ou engavetamentos) dentro de seus cérebros para, depois, registrá-los ou perdê-los... porque são muitos, dentro e fora da caixola. Atropelam-se, empacam, aceleram, se materializam, mas, às vezes, se perdem... (É sempre bom ter um bloco de notas ou um celular na mão pra registrá-los – pelo menos a ideia central que carregam)

Elas produzem textos simultâneos, pensamentos que se desenrolam em várias produções distintas, que viram discursos, ideias trocadas entre amigas no barzinho, um poema, uma crônica ou uma coisa qualquer aleatória nem sempre com rótulos literários definidos. Inventamos. Me incluo porque sou uma mulher que escreve. Sou um gato sem rabo. Uma gata sem rabo.

Nossos textos se manifestam em forma de uma dedicatória, quem sabe um cartão de Natal, uma homenagem para alguém, um texto recheado de críticas e argumentos, ou meloso e sentimental, uma ferida exposta, um cartão preso ao buquê ofertado, uma escrevivência, um soneto, uma música, até! Mulheres que escrevem são esquisitas porque pensam, e porque escrevem. Mas são bichos que não se estranham entre si pois se farejam. Eu farejo Woolf, Azevedo, Madruga, Ribeiro, Lispector, Fagundes Telles, Espanca, Moura, Rezende, Paiva, Carvalho, Adélia Danielli... Sinto todas elas.

Mas a minha xará Bia escreveu que “é preciso parar de inventar histórias. De contar contos... É preciso abandonar isso, e falar verdades”. Mas e se nossas verdades, se as verdades das mulheres que escrevem forem mais verdadeiras que as verdades que o patriarcado nos empurra goela a baixo. Se não impormos nossas verdades, Bia, mesmo sendo inventadas, mesmo vomitadas em forma de contos ou de poesia, teríamos que acreditar que somos gatas sem rabo?!

Teríamos que nos contentar com a nossa estranha natureza, nossa esquisitice e baixar as orelhas, já que não temos rabo?! Não seria melhor se continuássemos pensando, escrevendo, inventando, poetando, contando, transformando nossas realidades em crônicas para que mulheres que não escrevem acreditem que também podem se tornar mulheres que escrevem!? Não podemos (re)inventar nossos rabos como caudas deslumbrantes, felpudas e invejadas (quiçá)!?

Eu sou uma gata sem rabo que não quer parar de ser uma gata sem rabo. Quero continuar esquisita. Quero farejar as minhas manas e formar com elas bandos. Quero a sorte de cruzar meu caminho com uma gata Regina Azevedo e outra gata Bia Madruga. Sem rabos, mas com as cabeças fervilhando. É isso que eu quero. E assim como iniciei a coluna dessa semana com versos, termino com versos. Da Azevedo.

“sorte é que a cada dia/ há mais de nós/  mais gatas escrevendo/ mais gatos sem rabo/ cruzando o gramado” numa atitude de enfrentamento! E isso não é muito melhor que parar de inventar, Bia?!

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