Movimento Negro quer saber papel de igrejas evangélicas na escravidão
Natal, RN 19 de jun 2024

Movimento Negro quer saber papel de igrejas evangélicas na escravidão

30 de maio de 2024
4min
Movimento Negro quer saber papel de igrejas evangélicas na escravidão
Campanha quer abrir os arquivos das igrejas evangélicas sobre escravidão no Brasil. Foto: reprodução @mnebrasil

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Escravidão: E a igreja com isso? é o que procura saber uma campanha do Movimento Negro Evangélico (MNE). O motivo é que o papel das igrejas protestantes durante o período da escravidão no Brasil ainda é um tema pouco explorado, principalmente pela falta de dados e informações. Como resgate da memória, buscando alcançar políticas de reparação, o Movimento quer mudar esse cenário, solicitando que as cinco maiores igrejas protestantes que já tinham presença no Brasil durante o século 19 abram seus arquivos para pesquisadores e pesquisadoras, e ainda que reconheçam seus papéis na escravidão.

A campanha mira nos arquivos da Igreja Presbiteriana do Brasil, da Convenção Batista Brasileira, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, da Igreja Metodista do Brasil e da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. A dominação da Igreja Católica no período da escravidão já é conhecida, no entanto, todas essas cinco denominações evangélicas também já tinham representações no Brasil antes de 1888, quando a escravidão foi extinta por lei no país.

“A gente entende que precisamos de uma reparação histórica. E essa reparação vem a partir do reconhecimento. A gente sabe que existe uma discussão frequente sobre a participação da Igreja Católica nesse processo de escravidão, mas entendemos também que é necessário críticas e análises sobre a atuação da Igreja Protestante que se estabeleceu ali no século 19. E o manifesto tem ideia de que o silenciamento traz o esquecimento”, defende Samuel Galvão, articulador do MNE no Rio Grande do Norte e integrante da coordenação nacional do Movimento.

E esse esquecimento é perigoso, pois faz com que a história seja contada apenas pelo ponto de vista dos opressores, pontua Samuel. Por isso, a campanha quer que as próprias denominações protestantes façam internamente essa busca pela documentação, e a partir disso se posicionem, reconhecendo o papel que tiveram durante a escravidão no Brasil, com um pedido de perdão oficial ao povo negro brasileiro e trabalhando para resgate e preservação da memória.

“Buscamos reconhecimento da escravidão, além de incentivar a preservação e resgate da memória e responsabilizar as intituições e defender a reparação dos povos escravizados como um direito fundamental para a gente conseguir um país mais justo e igualitário, que tenha um compromisso radical com a justiça social”, afirma Galvão.

“A gente entende que é um processo político: se a gente não fala sobre, se não tiver o reconhecimento, a gente não pode tratar, não pode mexer com as estruturas e nem com uma teologia que é fundamentalista, branca e europeia. Então esse processo de omissão, esquecimento e silêncio é ato político”, complementa.

O Movimento entende que algumas igrejas ainda têm sim documentação daquela época. Para isso, é necessário um mapeamento e, assim, uma transparência maior sobre a atuação dessas igrejas na escravidão. De acordo com Galvão, o MNE já conseguiu o diálogo com algumas igrejas sobre o tema.

“Já conseguimos contato, por exemplo, com uma Igreja Anglicana, com um dos bispos do país, para a gente dialogar sobre a participação da igreja nesse processo de escravidão e para pensarmos algum nível de reparação. Existem algumas igrejas escocesas que participaram ativamente da escravidão e, nesse processo de reconhecimento, abriram alguns arquivos e diante disso, reconheceram que alguns membros e pessoas que eram das diretrizes da igreja tiveram papel fundamental na compra de escravizados e de incentivar esse comércio”, explica.

A partir da abertura dos arquivos, o Movimento Negro Evangélico quer estabelecer parcerias com universidades para catalogar o material e definir linhas de pesquisas sobre esses documentos.

O Movimento busca a colaboração voluntária das Igrejas Protestantes por meio de um manifesto, que pode ser assinado aqui. Quem deseja apoiar a campanha também pode assinar.

Outra ação da campanha é uma semana nacional de discussão sobre igreja, memória e escravidão, que vai ocorrer entre os dias 28 e 30 de junho, em várias igrejas e instituições do país. Na ocasião, o Movimento incentiva atividades em comunidades de fé, igrejas, pequenos grupos, coletivos e até mesmo vizinhanças, sobre o tema. Um formulário para que o MNE possa auxiliar nas atividades propostas pode ser acessado neste link.

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