Oi linda! Você é casada?
Natal, RN 21 de mai 2024

Oi linda! Você é casada?

15 de maio de 2024
4min
Oi linda! Você é casada?

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Conversando com uma amiga querida dia desses, ela desabafou sobre a postura de muitos homens atualmente em redes sociais, principalmente no Facebook e Instagram. Disse que há anos recebe convites de amizade virtual de homens desconhecidos e, observando amigos em comum e que se trata de pessoas reais e com aspectos em comum, acaba aceitando. Porém, minutos depois, muitos deles "pulam" na mensagem privada invariavelmente com frases como "Oi linda". No que a amiga educadamente responde - já antevendo o que vai acontecer - com um bom dia ou boa tarde protocolar, o sujeito continua: "Você é casada?".

Outras amigas ao longo dos tempos haviam me relatado histórias parecidas, na verdade, iguais. O sujeito, assim do nada, pede amizade, a mulher aceita, ele sem curtir nada, sem conferir as postagens ou curtir conteúdos interessantes, já tenta um contato pelo privado e este contato já parte com elogios (físicos, claro) e interesse pelo estado civil (ou seja, se está "disponível").

Quem acompanha minhas mal traçadas linhas sabe que um dos temas que mais gosto de debater e refletir é o comportamento em redes sociais, já que se trata de um terreno onde passamos grande parte de nosso tempo atualmente. O comportamento masculino me atrai ainda mais especificamente, por me parecer mais disfuncional.

Os relatos das amigas são muito parecidos com o que vejo em memes. Começa com os elogios e interesse pelo estado civil, aí parte para convites explícitos, seja para ligação de vídeo ou mesmo um encontro. Mas se a mulher demora para responder, não responde ou nega o encontro, os mimos iniciais se tornam agressões e ofensas. Pelos relatos, de "oi linda" e "você é gata" em pouco tempo (às vezes minutos) se torna "responde sua puta" ou "se acha melhor que eu, não é, vagabunda?!".

Sei que a impunidade e invisibilidade dos contatos virtuais favorece a agressividade. Tanto que pelas redes sociais, gente que grita, xinga e ameaça (seja em vídeos ou textos) quando no mundo real ou em audiências judiciais baixam o tom de voz e pedem "desculpas a quem se sentiu ofendido". Já sofri agressões pelo Facebook de sujeitos virtualmente brabos que, ao esbarrarem comigo pessoalmente (quando poderiam dar continuidade às ofensas aproveitando meus parcos 1,70 e 80 kg e que não sei brigar) faziam que não me viam e evitavam o encontro.

Mas a agressividade com mulheres beira um terreno bem mais pantanoso, até porque trisca machismo e misoginia. Até mais que isso. Recordo de uma amiga durante a pandemia (período antes da vacina) que fez amizade virtual com um homem a princípio gentil e culto mas que aos poucos mostrava agressividade quando ela não respondia. Curiosa, ela foi investigar, ou melhor "stalkear" o sujeito e descobriu que ele tinha ordem judicial de não se aproximar da ex-esposa. Ela confessou que foi salva de um primeiro encontro devido ao confinamento da época.

Em tempos de índices alarmantes de violência contra a mulher e feminicídios, todo cuidado é pouco, evidentemente. Na condição de homem cis por vezes me pego refletindo sobre esse "donjuanismo" virtual que leva tantos homens e aproveitar as redes para fazer abordagens diretas de maneira quase kamikaze. Em vez de tentarem estabelecer algum contato, investir em diálogo, saber dos gostos e dissabores das mulheres com quem flertam e ainda que virtualmente, ouvi-las.

Uma outra amiga desabafou dia desses que os homens atualmente não ouvem as mulheres e mostram desinteresse completo pelo que pensam e sentem. "Seja pessoalmente ou pelas redes ou zap, os homens só querem falar", lamentou. Talvez isso explique o fosso que se abre entre homens e mulheres em tempos em que elas, ao contrário de décadas atrás, se mostram cada vez mais independentes econômica e emocionalmente, empoderadas, enfim. Homens que só querem falar e se impor, como nos anos 40 e 50, acreditando que qualquer cantada vai "seduzir" a "mocinha indefesa" e mulheres cada vez mais livres e que já estão no século 21. Que os homens "tomem tento", como dizia minha avó, em tempos onde abordagens sem noção eram aceitas ou ao menos toleradas. Ao contrário de hoje, felizmente.

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