Porto Alegre: a tragédia da cidade que virou rio
Natal, RN 26 de mai 2024

Porto Alegre: a tragédia da cidade que virou rio

13 de maio de 2024
7min
Porto Alegre: a tragédia da cidade que virou rio

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Quando eu era criança, lá por volta da virada dos anos 70 para os 80, lembro que sempre que algum parente chegava do sertão pra visitar a gente lá em nossa casa do conjunto Mirassol (especialmente nos primeiros meses do ano), minha avó materna, nascida no pé da Serra do Lima em 1921, perguntava: “E esse ano? A chuva já chegou?”.

Essa era uma questão fundamental que sempre fez parte do imaginário da minha avó e de seus ancestrais sertanejos, provavelmente, desde que os primeiros membros da família Paiva chegaram no alto oeste potiguar em alguma data do século XVIII ou XIX.

Para quem já passou pelo “flajelo da seca” a esperança é um afeto constante e a expectativa da chuva é um tropo recorrente, sempre presente no imaginário das populações que habitam esse nosso Rio Grande, que tem quase 90% do seu território no chamado semiárido nordestino.

Por isso a euforia esse ano com o aumento das chuvas e a sangria dos açudes, para a incompreensão dos moradores do litoral e do agreste que não conhecem os sentidos mais desesperadores e profundos da “crise hídrica” (o nome atualizado para “seca” nesse primeiro quarto do século XXI).

Enquanto por aqui se comemora a chuva, no outro Rio Grande (o do sul) o flagelo da água destruiu, de modo nunca antes visto, boa parte do estado, arrastando cidades inteiras e transformando Porto Alegre em um enorme rio de águas barrentas.

É difícil mensurar o cenário de catástrofe e a dor que os nossos irmãos gaúchos vem sofrendo após esse “evento climático” extremo que marcará, para sempre, o cenário natural e humano da região.

Apesar disso, e do fato incontornável que o único imperativo moral nesse momento é o da solidariedade irrestrita e incondicional com os brasileiros que sofrem o flagelo das cheias no sul do país, precisamos pontuar, seguindo a fria audácia do conceito, algumas conclusões que essa tragédia (já considerada a maior catástrofe climática da história do Brasil) nos impõe.

Em primeiro lugar fica muito claro que os auspícios de caos, anunciados há anos pelos cientistas do clima e negados insistentemente por políticos picaretas, agentes da industria do petróleo, milicianos da mineração clandestina e sacerdotes do agronegócio predatório, já está entre nós.

Infelizmente o evento que destruiu boa parte nosso estado irmão (o Rio Grande do Sul) não será um simples “fenômeno” climático inusitado, mas um evento que ocorrerá várias outras vezes, em outras cidades e regiões do país e pelo mundo a fora.

As mudanças climáticas, antes de serem produto de alguma histeria de militantes ambientais é agora o novo normal de nossas vidas e a situação ainda pode piorar muito nos próximos anos.

Muitas outras cidades se tornarão rio. Outras se tornarão desertos, como parece que já está acontecendo aqui no Seridó do nosso Rio Grande (o do norte). Muitas cidades também se tornarão cinzas, como a cidade Lahaina, na ilha de Maui no Havai, que simplesmente desapareceu, reduzida a pó em um dos maiores catástrofes climáticas da história norte americana.

Sim… claro. Há também cidades que se tornarão mar. Como por exemplo Recife, que figura em todas as listas de cidades com o maior risco de desaparecer nas águas do atlântico na medida em que o derretimento das geleiras avança.

Aliás, essa questão do avanço do mar diz muito respeito a nós, que moramos em Natal. Eu mesmo fico de bobeira quando descubro que construtoras querem erguer espigões na orla da praia do meio e na ponta do Morcego. Quem, com as faculdades mentais em ordem, compraria um apartamento num lugar que vai, em algumas décadas, ser engolido pelas águas do mar? É preciso estar muito contaminado por fake news negacionistas de grupos de whats app ou não conseguir enxergar mais do que um palmo na frente do pau da própria venta para não perceber os sinais de que não é um bom negócio imobiliário comprar imóveis em zonas de risco.

Um segundo ponto que a tragédia de Porto Alegre nos mostra é que as sociedades que apostaram em políticas neo liberais de desregulamentação ambiental e redução do Estado sofrerão bem mais do que as que caminham no sentido contrário.
O Rio Grande do Sul é um exemplo de estado tradicionalmente agrícola, que veio, especialmente nos últimos cinco anos, com a adoção de políticas neo liberais, flexibilizando sua legislação ambiental a ponto de criar um sistema de “autolicenciamento”, onde o empreendedor declara unilateralmente sua “promessa” de adesão a legislação ambiental e tira a licença do seu empreendimento direto no sistema, segundo declaração de Suely Araújo, urbanista e coordenadora de políticas públicas no Observatório do Clima no pod cast “O Assunto”: ( https://g1.globo.com/podcast/o-assunto/noticia/2024/05/07/o-assunto-1208-o-descaso-da-politica-com-a-crise-climatica.ghtml ).

A redução de políticas públicas com base em fundamentos ideológicos neo liberais é certamente o caminho mais rápido para o suicídio social em um contexto de crise climática porque, por trás da noção de que “o mercado se autorregula” está a ilusão de que há alguma racionalidade ou alguma “moralidade” nessa tal “autorregulação”. Uma falácia ideológica desse tipo leva inexoravelmente a um ponto de anomia ambiental, com um colapso da socialização e uma redução das comunidades afetadas a um estado de barbárie que, paradoxalmente, dinamita a própria possibilidade da existência do mercado nos moldes definidos por nosso capitalismo tardio.

O irónico é que talvez seja mesmo esse tipo de ideologia (neo liberal) que vá cumprir o papel histórico de criar as condições para o conceito hegeliano (apropriado por Marx) de “superação” (Aufhebung) do capitalismo.

O problema é que essas condições, impostas por uma lógica de reprodução infinita do capital, podem também levar junto o nosso futuro no planeta ou mesmo a manutenção, por mais algumas décadas da civilização que construímos. Se há um imperativo ambiental para onde catástrofes como a do Rio Grande do Sul nos aponta é que uma transformação profunda no modo de organização da nossa economia, antes de ser inexorável, é urgente. Apostar nessa mudança, hoje, não é uma utopia de sonhadores iludidos.

A grande utopia dos sonhadores iludidos é acreditar que as coisas vão continuar do jeito que sempre foram e que, depois da chuva, virá o sol, como depois de alguns anos de seca, no interior da minha avó, vinha a fartura da chuva e a festa da sangria dos açudes.

A mudança já chegou e a geração de nossos filhos e netos não pode mais se dar ao luxo, muito presente na geração de nossos avós, de ter esperança. Esperar que as coisas voltem a ser o que foram um dia de modo natural é, hoje, além da mais fatal de nossas ilusões, também a mais arriscada de nossas utopias.

Apoiar Saiba Mais

Pra quem deseja ajudar a fortalecer o debate público

QR Code

Ajude-nos a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Este site utiliza cookies e solicita seus dados pessoais para melhorar sua experiência de navegação.