A lanchonete no Tirol que guarda a história de um gênio criativo de Natal
Natal, RN 18 de jul 2024

A lanchonete no Tirol que guarda a história de um gênio criativo de Natal

23 de junho de 2024
9min
A lanchonete no Tirol que guarda a história de um gênio criativo de Natal
Sarrafo Caldo de Cana I Foto: Mirella Lopes

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O Sarrafo Caldo de Cana é uma lanchonete localizada no bairro do Tirol, Zona Leste de Natal, com caldo de cana e pastel frito na hora! Mas, para além dos atrativos gastronômicos, o lugar guarda a história mais do que interessante de seu fundador: Guaracy Augusto Picado.

Se você gosta de cinema, pode tê-lo visto no filme For All – O Trampolim da Vitória (1997), uma comédia que explora o choque cultural com a chegada dos norte-americanos a Natal durante a II Guerra. No Filme, Guaracy faz o papel de Franklin Roosevelt, o presidente dos Estados Unidos, que se encontra com Getúlio Vargas em Natal.

Guaracy Picado, no banco da frente do passageiro, como Franklin Roosevelt, nas filmagens do filme For All – O Trampolim da Vitória I Foto: cedida
Artur Picado, durante um atendimento I Foto: Mirella Lopes

Eu, a jornalista que escreve essas linhas, encontrei a lanchonete por acaso quando fui tomar uma água de coco com uma amiga. Ao ver algumas fotos na parede, me chamou atenção aquela clássica de Roosevelt e Vargas dentro de um jipe, em janeiro de 1943. Naquele dia, achei que contar que o dono de uma lanchonete no Tirol atuou em um grande filme era o que havia de mais interessante a ser contado. Foi só ao voltar outro dia e conversar com Artur Picado, filho de Guaracy que toma de conta do local hoje em dia, que descobri que o melhor ainda estava por ser descoberto.

Guaracy, atuando como árbitro de futebol I Foto: cedida
Bandeirinhas, cartões e troféus de Guaracy Picado de quando era árbitro. Lembranças mantidas pelo filho na lanchonete I Foto: Mirella Lopes

Guaracy Picado foi jogador do ABC, América, Alecrim e Santa Cruz. Depois, passou a atuar na arbitragem dos jogos realizados no Norte e Nordeste, os troféus não deixam mentir. Ele também é autor de inúmeros jingles, muitos usados em campanhas eleitorais e propagandas de televisão, como aquele bem famoso: se você for construir compre na Saci!

Jingle das lojas Saci I Imagem: reprodução internet

Se não me engano é de 1970 ou 1972. Ele também fez o jingle de uma loja chamada ‘A Sertaneja’. Hoje chamam jingle, mas meu pai fazia essas músicas muito antes de chamarem assim. Ele ganhou muito dinheiro com essas músicas para político. Teve um prefeito de Garanhuns, em Pernambuco, que meu pai não chegou a conhecer pessoalmente, ele fez e cantou a música ao telefone e mandou as fitas pelos Correios. Nessa brincadeira o prefeito ganhou a campanha e chamou ele [o pai] para passar o final de semana na cidade, mas painho não tinha tempo para nada. Era funcionário federal, tinha arbitragem... não parava”, conta Artur Picado.

Guaracy Picado, quando árbitro de futebol I Foto: cedida
Antes de se tornar árbitro, Guaracy Picado foi jogador de futebol I Foto: cedida

Pois é, inquieto e formado em Educação Física, Guaracy também foi funcionário público e foi coordenador do ginásio poliesportivo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). De tanto fazer reparos para não ter que esperar todo o processo de licitação para repor alguma peça, foi convidado para trabalhar na TV Universitária. Ele também foi funcionário dos Correios e foi músico profissional, chegando a concorrer em grandes festivais.

Os ônibus

ônibus I Foto: STTU
Foto: STTU

Numa cidade ainda com muitos analfabetos, lá pelos idos dos anos 1950, identificar as rotas dos ônibus de Natal já foi um problema para a administração pública. Pois foi Guaracy que também propôs uma solução e criou a numeração do sistema de transporte na capital, depois de ser consultado pela então prefeita, Wilma de Faria. A solução apresentada por ele, nosso professor Pardal, foi usar números curtos para que as pessoas que não soubessem ler, conseguissem memorizá-los, até mesmo fazendo uma associação aos números do jogo do bicho.

Wilma [de Faria], que era prefeita na época, ligou para ele pedindo ajuda. Foi ele que também sugeriu que o número fosse colocado na parte de cima, em uma capelinha, e com iluminação, para que as pessoas conseguissem enxergar à noite. Ele é muito conhecido na cidade ainda hoje porque, na época, tudo que iam fazer consultavam ele”, lembra o filho.

Guaracy Picado em um dos festivais de música aos quais concorreu I Foto: cedida

O filme

Com todo esse currículo e uma semelhança inegável, Guaracy foi chamado para interpretar Roosevelt pela produtora do filme. As gravações duraram algumas poucas semanas.

“Como ele fazia propaganda, o pessoal das produtoras já o conhecia. Elas tinham um ‘book’. Quando o pessoal do filme chegou, queria alguém parecido com o presidente Roosevelt, aí ele foi chamado. Painho gostava muito dessas coisas”, recorda Artur que, na época, estava trabalhando e não conseguia acompanhar o pai nas filmagens.

For All custou cerca de R$ 3,5 milhões e venceu o Festival de Gramado de 1997. O longa, quepode ser facilmente encontrado na internet, traz artistas conhecidos no elenco, como Betty Faria, José Wilker e Paulo Gorgulho.

Chão de terra batida

A lanchonete Sarrafo Caldo de Cana foi fundada em 1968 e nunca parou de funcionar. Ela foi erguida onde ficava os fundos da casa da mãe de seu Guaracy, que cedeu um pedaço do terreno para o filho.

A residência ficava onde hoje é a Clínica Odontológica do Sesc, no cruzamento das ruas Açu e Campos Sales. A lanchonete foi construída com a frente virada para o que hoje é a rua Açu. Uma foto da casa tirada em 1937, com a rua ainda de terra batida, também pode ser vista na lanchonete.

Casa da mãe de seu Guaracy Picado esquina das ruas Açu com Campos Sales, em 1937 I Foto: cedida
No lugar onde foi a casa, funciona uma clínica odontológica atualmente I Foto: cedida

Artur está à frente do negócio há cerca de 30 anos e, desde então, o comércio passou a ser sua renda principal. Foi com o dinheiro tirado de lá que ele mantém as contas em dia, junto com a esposa e as duas filhas.

Quando era pequeno, acho que com uns 12 anos, meu pai sempre trazia um dos três filhos e dizia ‘vamos trabalhar’, já pra ir aprendendo. Os três juntos não dava certo não porque o prejuízo era grande”, brinca.

Depois de algumas horas de conversa, com a chegada do horário de pico e alguns clientes à lanchonete, começo a me despedir de Artur. Em tom de lamentação, ele conta que o pai, hoje com 90 anos, sofre com Alzheimer e já nem lembra mais das proezas que seu gênio criativo já foi capaz de realizar.

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