“Escola de Hip Hop” leva cultura periférica para estudantes de Natal
Natal, RN 13 de jun 2024

“Escola de Hip Hop” leva cultura periférica para estudantes de Natal

2 de junho de 2024
6min
“Escola de Hip Hop” leva cultura periférica para estudantes de Natal
Foto: Michelangelo

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Um projeto criado em Natal leva a cultura periférica para estudantes da rede pública. É a Escola de Hip Hop, que já levou oficinas de break, grafite e rima para a Escola Estadual Professor Edgar Barbosa e Instituto Padre Miguelinho, e prevê novas ações ao longo do ano.

Um dos nomes por trás do projeto é o poeta Pedro Guilherme, o Acerola, de 18 anos. Ele próprio estudava no Padre Miguelinho, onde concluiu o ensino médio em 2023, e no ano passado sentiu a necessidade de falar sobre o 13 de maio, o Dia da Abolição da Escravatura — ou falsa abolição. 

“Com isso, eu criei um evento que envolvia tanto palestras educativas, como também levei para dentro do espaço escolar a cultura do hip hop”, diz. Depois, ele se juntou ao amigo Adriel Carlos, de 22 anos, rapper conhecido como Santos Noctua, que tinha uma ideia parecida sobre atuação nas escolas, para desenvolver o que seria o “projeto piloto” da Escola de Hip Hop.

Nesse ano, a primeira edição aconteceu no Edgar Barbosa.

“Era muito lindo ver o sorriso na cara de cada aluno ao participar do evento, foi uma coisa muito gratificante, de verdade, ver o sorriso, a animação de cada aluno ali presente”, diz Acerola.

Além das oficinas, há um segundo momento chamado de “culminância”, onde cada estudante pode aplicar um pouco do que aprendeu. 

“Quem é do grafite a gente faz um ‘grau’ para eles estarem expondo as obras feitas na oficina, quem é do slam e da batalha a gente tem no segundo momento uma batalha de rima pra galera poder expor seu slam, poder batalhar. E nesse mesmo espaço abre uma ‘cypher’ para a galera das danças urbanas, o break, poder também estar se apresentando”, explica Santos Noctua, estudante de Letras na UFRN.

Para Acerola, um dos objetivos do projeto é aplicar a Lei 10.649/2023, que torna obrigatório o ensino da temática "História e Cultura Afro-Brasileira” nas escolas, além de buscar combater a evasão nas salas de aula.

“O ensino hoje, dentro das escolas, ainda é eurocêntrico. É um ensino que desvaloriza a nossa cultura, desvaloriza o que é daqui. É uma coisa que ainda está muito atrasada. Ainda parece que estamos na época colonial. Falta essa representatividade para os alunos”, diz Acerola, um jovem negro.

“Então a gente tem, dentro dos objetivos, diminuir a evasão escolar e através do projeto o aluno conseguir ter um espelho que consiga motivar ele a permanecer dentro do espaço escolar e estudando até o fim”, afirma.

“É muito importante a gente frisar que está promovendo a formação de novos artistas e expandindo a cena do hip hop daqui. Porque quando a gente vai nas escolas, a gente dá essa oportunidade dos alunos interagirem com a cultura, a gente está fomentando a cultura daqui. Estamos abrindo portas para novos artistas se descobrirem e para um aumento e um fomento da cultura do hip hop no estado”, atesta Santos Noctua.

EQUIPE ADMINISTRATIVA DA ESCOLA DE HIP HOP:

Adriana Sckaff - Diretora Geral
Santos Noctua - Coordenador Geral
Madruga - Produtor executivo
Acerola - Produtor artístico

INTEGRANTES DA ÚLTIMA EDIÇÃO:

Rudá - oficineiro
Gapix - oficineiro
Kamal - oficineiro
Eliot - oficineiro
⁠Frizzy - oficineiro
Nanduzz - oficineiro
Duduzin - oficineiro
Nandrill - DJ
Michelangelo - Comunicação
Vine - Comunicação
Oya (conv. Slam)
Calmaria (conv. Slam)
Adayo (conv. Slam)

Outro ponto, para Santos, é ajudar a proporcionar o lazer e a cultura para jovens em situação de vulnerabilidade. 

“A gente sabe que muitas vezes dentro da escola a gente fica nesse sistema atrasado, antigo, eurocêntrico, de estar fazendo sempre a mesma coisa, a mesma repetição, e deixamos de lado algo muito importante que é o lazer, o conhecimento desses alunos, que eles possam estar se divertindo aprendendo e absorvendo uma cultura que é sua”, continua.

Diversidade

Além do projeto ser tocado por pessoas negras, Santos Noctua e Acerola explicam também que há um compromisso com a diversidade, a inclusão de pessoas LGBTQIA+ e a presença de mulheres. Um dos oficineiros da última edição, por exemplo, foi Eliot, um artista trans.

“Nós temos majoritariamente pessoas negras, e também é muito importante a gente ter essa representatividade feminina que a gente traz, porque quando a gente vai lá e só tem homens se apresentando, as meninas sentem mais dificuldade de ir lá se apresentar. E eu acho muito importante porque a gente trouxe várias mulheres, e eu senti que teve diferença até na vontade das meninas se apresentarem por ter essa representatividade”, diz Santos.

“Então, essa questão da representatividade é uma coisa que o projeto preza muito, de trazer uma pessoa trans como Eliot, para que as pessoas trans que tinham também na escola poderem ver que elas também podem fazer arte, assim como pessoas negras como o Kamal”, comenta.

Os colégios escolhidos não são por acaso. A equipe da Escola de Hip Hop busca principalmente unidades localizadas em pontos tradicionalmente periféricos. 

“Que vão ter um público normalmente de pessoas negras, pessoas LGBTQIA+, então a gente foca nessas zonas, nesse público, que é o público que realmente mais carece e necessita de se expressar artisticamente”, aponta Adriel Carlos. 

“A gente está dando uma ferramenta de expressão para essas pessoas que muitas vezes são silenciadas durante a escola. Na sala de aula você não pode falar, você não pode se expor. E dar essa ferramenta delas conseguirem se comunicar eu acho muito importante”, avisa.

Pedro Guilherme, o Acerola, ainda explica o quanto o hip hop mudou sua vida.

“Quando eu conheci a cultura hip hop, eu estava num momento da minha vida sem autoestima, perdido. A cultura hip hop vem e me abraça, me dá um norte”, comenta.

Para ele, era como se estivesse preso dentro da caverna de Platão. O hip hop o fez se sentir com autoestima.

“O rap vem e me salva desse sistema racista, desse sistema capitalista, desse sistema que nos ilude. É muito doido isso, mano. O rap realmente vem e muda toda a minha essência. E foi essa sensação quando eu conheci a cultura hip hop, o rap, quando eu escutei Racionais, Sabotage, Djonga, quando eu escutei Baco Exu do Blues, quando eu escutei Dexter, quando eu escutei 509-E”, afirma.

Apoiar Saiba Mais

Pra quem deseja ajudar a fortalecer o debate público

QR Code

Ajude-nos a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Este site utiliza cookies e solicita seus dados pessoais para melhorar sua experiência de navegação.