Firehosing como estratégia de disseminação de mentiras
Natal, RN 20 de jun 2024

Firehosing como estratégia de disseminação de mentiras

9 de junho de 2024
8min
Firehosing como estratégia de disseminação de mentiras

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Em 2016 foi publicado o artigo The Russian ‘Firehosing of Falsehood’ Propaganda Model de dois norte-americanos: Paul Christopher e Miriam Matthews (cientista social e psicóloga, respectivamente). Trata-se do resultado de uma pesquisa sobre campanhas eleitorais presidenciais na Rússia focado na análise das estratégias que resultaram nas sucessivas vitórias de Vladimir Putin (eleito desde 1999. Na eleição mais recente, em 15 de março de 2024, teve 87,97% dos votos). (O artigo está disponível em https://www.rand.org/content/dam/rand/pubs/perspectives/PE100/PE198/RAND_PE198.pdf).

Eles chamaram essa estratégia de Firehosing (mangueira de incêndio) e usado no sentido de que da mesma forma como uma mangueira é utilizada para apagar um incêndio com uma grande quantidade de água com um fluxo contínuo e repetitivo, na eleição russa foi usada um grande volume de mensagens, no caso, mentirosas, disparadas por diferentes canais.

E o termo Firehosing passou a ter esse sentido para analisar eleições em outros países, ou seja, como uma estratégia de disseminação de mentiras, a elaboração e difusão em larga escala, utilizando distintos canais. Embora as mentiras em eleições antecedam (e não apenas na Rússia), eles consideraram que se tratava de uma nova forma de propaganda política concebida como uma “técnica de propagação de mentiras em larga escala e em um fluxo constante, com o objetivo de afogar a opinião pública com mensagens e conseguir o monopólio da primeira impressão sobre determinados assuntos”.

Eles caracterizam o modelo russo contemporâneo para propaganda em eleições como ‘a mangueira de fogo da falsidade’ por causa de duas características: o alto número de canais e mensagens e o que chamaram de “uma sem-vergonha disposição para disseminar verdades parciais ou ficções absolutas” e cita um analista das eleições russas para quem essa a nova propaganda “entretém, confunde e sobrecarrega o público". A analogia com a mangueira de incêndio portanto, alude ao volume e a força de disseminação de notícias falsas, especialmente em eleições ( mas não apenas).

Em relação às eleições, há muitos exemplos no Brasil , como em 2018 e 2022. Em 2018 uma das mentiras que teve inegável impacto eleitoral, especialmente para determinados setores da sociedade, foi o uso do que ficou chamado de kit gay – apelido pejorativo do material didático Escola Sem Homofobia elaborado no governo de Dilma Rousseff, mas não efetivado nas escolas – mas não impediu que fosse intensamente usado pela campanha de Bolsonaro (e por ele mesmo) contra o PT. A agência de checagem Aos Fatos fez um levantamento na época e afirmou que o suposto kit gay havia sido compartilhado mais de 65 mil vezes só no Facebook.

Na eleição presidencial de 2022, a disseminação de mentiras continuaram, como parte indissociável desse modus operandi como as mentiras sobre Lula e entre elas, que se ele ganhasse a eleição as igrejas seriam fechadas, mas também sobre urnas eletrônicas, fraudes, etc.

Embora o Firehosing tenha sido usado em campanhas eleitorais é utilizado como estratégia não apenas para ganhar a eleição, mas também quando os que a usam, ganham eleições, como ocorreu no governo Bolsonaro no qual havia, entre outros exemplos, no próprio Palácio do Planalto, o que foi chamado de Gabinete do ódio, responsável pela disseminação de desinformação e mentiras.

No dia 28 de agosto de 2022 o site Congresso em Foco publicou um artigo de Rudolfo Lago (Documento do STF explica como funciona o “Gabinete do Ódio”) no qual informa sobre um documento produzido pelo juiz Aírton da Veiga, auxiliar do ministro Alexandre de Moraes, que detalhava como funcionava o “Gabinete do Ódio” e quem eram os seus financiadores. O documento foi produzido depois de uma ação da Polícia Federal que realizou busca e apreensão na casa de empresários que em um grupo de whatsapp, defendiam um golpe de Estado caso Lula vencesse a eleição presidencial (como se sabe, Lula venceu e houve uma frustrada tentativa de golpe).

O documento com 121 páginas “faz a conexão entre a operação e o financiamento do que se convencionou chamar de Gabinete do Ódio, grupo que, sob as ordens do Palácio do Planalto, espalhava fake news e afirmações agressivas contra adversários”.

E que, segundo o juiz, a ação da Polícia Federal foi realizada “em virtude da presença de fortes indícios e significativas provas apontando para a existência de uma verdadeira organização criminosa de forte atuação digital e com núcleos de produção, publicação e financiamento (…) com a nítida finalidade de atentar contra a Democracia e o Estado de Direito”. (https://congressoemfoco.uol.com.br/area/governo/documento-do-stf-explica-como-funciona-o-gabinete-do-odio/).

Fora do governo, as mentiras bolsonaristas continuaram como, entre outros exemplos, sobre as enchentes e tragédia no Rio Grande do Sul. Uma matéria publicada no dia 11 de maio de 2024 pela agência de checagem Aos Fatos (Veja tudo o que já desmentimos sobre as enchentes no Rio Grande do Sul) mostra, como até então – e continuou depois - a circulação de mentiras veiculadas especialmente nas redes sociais, como que o governo Lula teria patrocinado o show de Madonna no Rio. (sobre a matéria citada no Aos Fatos ver https://www.aosfatos.org/noticias/informacoes-falsas-enchentes-rs/).

Em relação ao uso das redes sociais na difusão dessa estratégia (sistemática de notícias falsas, mentiras etc.), é que nelas são muito mais rápidas do que fatos verificáveis e os desmentidos não tem a mesma rapidez e eficácia. E quando dirigidas para seguidores, não há contestação, criando um ambiente que favorece a circulação de mensagens com conteúdo que confirmam crenças e valores prévios.

Quais as estratégias mais eficazes para combater essa técnica de manipulação, de mentiras em larga escala , especialmente nas redes sociais? Ocupar os espaços para dizer apenas que são mentiras não surte efeito porque, como se sabe, elas são direcionadas justamente para quem acredita nelas e não checam sua veracidade. Importante procedimento é o de evidenciar como se opera seu planejamento, produção, e disseminação, e mais do que isso: punindo os (i) responsáveis.

E nesse sentido, é essencial a atuação tanto do Congresso Nacional, com a aprovação, por exemplo da PEC das fake news que pretende instituir a Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet, já aprovada no Senado e ainda não votada na Câmara dos Deputados (tramita desde 2020). No entanto, sua aprovação com a atual composição, majoritariamente de direita e extrema direita, é muito difícil. Mais eficaz são as decisões e atuação do Supremo Tribunal Federal, como finalizar o inquérito das fake news, - que está no tribunal desde março de 2019 - além das plataformas que precisam ter mecanismos eficientes para coibir o uso dessas estratégicas (e não apenas em eleições).

Nesse sentido, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Luís Roberto Barroso , assinou no dia 6 de junho de 2024 um acordo com seis plataformas de redes sociais (Google, Youtube, Meta, Tiktok, Kwai e Microsoft) para ações de combate à desinformação e definir medidas que serão desenvolvidas por cada plataforma como parte do Programa de Combate à Desinformação (criado pelo STF em 2021). Conforme matéria publicada no site G1.Globo por Márcio Galvão ( STF assina parceria com seis plataformas para combater desinformação) “O programa prevê o combate a práticas que afetam a confiança das pessoas no Supremo, distorcem ou alteram o significado das decisões e colocam em risco direitos fundamentais e a estabilidade democrática". (https://g1.globo.com/politica/noticia/2024/06/06/stf-assina-parceria-com-seis-plataformas-para-combater-desinformacao.ghtml).

Da mesma forma, é de fundamental importância à atuação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em seu discurso de posse à presidência do tribunal no dia 3 de junho de 2024, a ministra Cármen Lúcia se referiu à mentira digital como insulto à dignidade do ser humano. Ela ressaltou os prejuízos causados pela desinformação propagada nas redes sociais, sobretudo em períodos eleitorais. Para a ministra, empregar as redes para espalhar fake news é um instrumento de covardes e egoístas: "Contra o vírus da mentira, há o remédio eficaz da informação séria".

Resumidamente Firehosing é uma estratégia (e estrutura) de comunicação que dissemina notícias falsas, especialmente nas redes sociais, criando polêmicas efêmeras, desqualificação dos adversários etc., integrando um conjunto de estratégias de desinformação, falácias, teorias da conspiração e fake news.

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