Lã de carneiro, boi
Natal, RN 18 de jul 2024

Lã de carneiro, boi

16 de junho de 2024
4min
Lã de carneiro, boi

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Humberto Hermenegildo (aposentado)

PELEGO, como sabemos, é uma peça de lã de carneiro usada sobre a montaria, de modo a tornar macio o assento do cavaleiro. Com origem etimológica no espanhol (pellejo), emergiu como regionalismo no espaço campestre rioplatense, com vários significados. Durante o Estado Novo, o termo ganhou conotação política e passou a designar o sindicalista cooptado. A pelegada “amaciava” o trabalhador para facilitar a vida do patrão e fingia representar os trabalhadores, manipulando as massas para atender aos interesses patronais.

Seriam pelegos, capachos, traidores e servis os líderes do PROIFES? Esses sindicalistas furam greves e ajudam a destruir os direitos da classe? Aproveitam-se das vitórias alheias? Defendem incondicionalmente o gestor? Não conseguem ver nada além de suas próprias e momentâneas necessidades? Além dos dirigentes, considera-se também pelego o próprio trabalhador que é contra o sindicato, mas está sempre atento aos acordos coletivos: “Quanto foi o reajuste salarial e/ou os ganhos da greve”, pergunta ele ao colega que está no movimento… sempre muito crítico, muito preparado e esclarecido, sempre ancorado no discurso de algum político ou no governo da vez, de qualquer matiz ideológica.

No mundo rural, dos rodeios, o peão dispensa o pelego e, ao contrário, fustiga o cavalo ou boi, sem amaciamento no contato entre homem e animal. Seria, digamos, uma ação a contrapelo do antigo hábito de cavalgar. O Boi, que fora em priscas eras o símbolo do Brasil, passa a ser, nesses espetáculos, um suporte de alto desempenho para avaliação das habilidades do peão. Nada de “Bumba-meu-boi”. Apesar de a legislação federal normatizar a realização dos rodeios, ativistas dos direitos animais denunciam o uso de instrumentos causadores de dor e estresse, a exemplo do sedém (espécie de cilício confeccionado de materiais diversos: seda, lã, espuma revestida de tecido macio, crina de cavalo ou mesmo de pelos da cauda do boi) que é amarrado e retesado ao redor do corpo do animal, na região da virilha, tracionado ao máximo quando ele é solto na arena.

Na conjuntura da atual greve de docentes, o PROIFES tem sido acusado de peleguismo, porque assinou o acordo com o governo. Como a personagem LULA, à frente do governo, não é exatamente um representante patronal como outros que o antecederam na história da nossa República e sim o símbolo da classe trabalhadora que chegou ao poder, seria ele também um pelego quando assinou o acordo? Quem o governo traiu? Os patrões que o ajudaram a se eleger e a governar, ou os docentes que votaram nele? Que governo é esse e que federação é essa? A quem são devidos os ganhos do acordo repudiado por parte dos docentes em greve?

Em justaposição aos resíduos da imagem do Boi como símbolo nacional, a imagem de um Lula a simbolizar um Brasil construído nas lutas não deixa de ser melancólica e até grotesca, se usada para alegorizar o momento político desta greve. Fustigado por todos os lados, o BOI LULA estaria na arena de um rodeio, a sangrar. Cairia por terra esse boi, para desespero do peão que precisa dele para se firmar como herói? Quais seriam os despojos dessa guerra sem mediação, sem negociação?

Em tempo, não considero pelegos os dirigentes ou sindicalizados do ADURN/PROIFES, ou do ANDES. Sou contra a desfiliação. Sou a favor de discutir o assunto, dentro de um campo respeitoso e com a admissão de termos como civilidade, intransigência, negociação, radicalismo e democracia, no âmbito do patrimônio intelectual construído pela academia, na sua pluralidade, no nosso campo de ação.

Nessa conjuntura, despontam as eleições municipais. Que posicionamentos devemos esperar dos candidatos quanto à representatividade docente junto ao governo atual, uma vez que vários desses candidatos são ou foram vinculados à universidade? Eleitor federal, eleitor municipal. Com a palavra, uma militância – cuja qualidade, supõe-se, é superior à quantidade – representada na greve.

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