O mais importante desafio de Rafael Motta
Natal, RN 24 de jul 2024

O mais importante desafio de Rafael Motta

25 de junho de 2024
6min
O mais importante desafio de Rafael Motta
Rafael Motta no lançamento de sua pré-candidatura pelo Avante / Foto: Canindé Soares

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Rafael Motta precisa vencer o mais importante desafio de sua carreira antes de buscar os votos suficientes para chegar ao 2° turno nas eleições de outubro, caso leve a candidatura adiante.

O ex-deputado federal tem que convencer o eleitor de que é um político confiável. 

No Rio Grande do Norte, as principais lideranças da política ganharam primeiro a confiança do eleitor e só depois colheram os votos. José Agripino Maia, Garibaldi Alves Filho, Wilma de Faria, Carlos Eduardo e Fátima Bezerra foram eleitos e reeleitos, na prefeitura e/ou governo, porque conquistaram a confiança do cidadão comum. Porque de um jeito ou de outro, cada um com seus predicados, fizeram brilhar os olhos dos joões e o sorriso das marias.

Neto de vice-governador e filho de um ex-deputado estadual que comandou o Poder Legislativo no Estado, Rafael deveria ter aprendido a lição dentro de casa. Mas parece distante desse objetivo, se é que essa é de fato uma meta pessoal dele.

Vereador de Natal e deputado federal por dois mandatos, logo encantou a juventude pela via da centro-direita. Perdeu o bonde, no entanto, ouvindo conselhos duvidosos e fazendo escolhas equivocadas.

Essa trajetória confusa está desenhada nas urnas. Em 2012, ano de sua estreia na política, o candidato do PP foi o segundo vereador mais votado de Natal, com 9.460 votos. Dois anos depois, já filiado ao PROS, chegou a expressivos 176.239 votos, alcançando a marca de segundo deputado federal mais votado no Estado.

Aliás, 2014 é o ano de ouro da família Motta, com o filho na Câmara Federal e o pai, Ricardo Motta, deputado estadual mais votado, superando 80 mil votos, e todo poderoso presidente da Assembleia Legislativa.

Um sonho que começa a ruir com as denúncias de corrupção envolvendo o pai na ALRN e no Idema, e nas decisões que Rafael tomava em meio a um cenário político instável e nebuloso.

Em 2016, na Câmara dos Deputados, Rafael foi um dos sete parlamentares da bancada potiguar a apoiar o golpe que retirou do poder a então presidenta Dilma Rousseff. Poucos meses depois, ainda com a chancela dos mais de 170 mil votos que recebeu dois anos antes, ensaiou uma pré-candidatura a prefeitura de Natal, mas abandonou o barco na véspera para apoiar Kelps Lima, derrotado com um celular na mão e sem votos suficientes para chegar ao 2º turno. 

Em 2018, após um impeachment, vários retrocessos aprovados no Congresso e o rastro das denúncias contra o pai, Rafael Motta (PSB) perdeu mais da metade dos eleitores que conquistara quatro anos antes. Na bacia das almas, renovou o mandato com o apoio de 82.791 votos. Em Natal, o deputado foi votado por 8.863 pessoas, um contingente menor do que em sua estreia como vereador.

Àquela altura, o espaço entre os jovens já era ocupado por uma nova liderança feminina do PT que rompia a bolha do partido, avançando ao centro e batendo a marca de 112 mil votos.

Em 2022, numa candidatura ao Senado solitária em meio a uma disputa ultra polarizada entre o candidato apoiado por Lula (Carlos Eduardo Alves) e o candidato de Bolsonaro (Rogério Marinho), Rafael se vende como terceira via tentando atrelar a imagem dele à do atual presidente.

A performance de Motta não atrapalha só o adversário apoiado pelo PT. Os 22% dele fortalecem a extrema-direita no Estado e dão munição para transformar Marinho no líder nacional da oposição no Congresso.

No final de 2023, sem mandato, Rafael se aproxima do coordenador da campanha de Bolsonaro em Natal, o prefeito Álvaro Dias, de quem ganhou o cargo de secretário de Esportes. 

No período, viu o chefe apresentar à população uma colega sua, Joana Guerra, como preferida à sucessão municipal. 

Pediu demissão quatro meses depois de assumir a pasta para ser candidato a prefeito. Como o PSB nacional preferiu manter, em Natal, a aliança com o Governo Federal e embarcou na campanha de Natália Bonavides, Rafael deixou o partido. Não sem antes ler na imprensa local o presidente nacional da legenda dizer que, por trás da sua pré-candidatura, estaria o desejo de compor chapa com Carlos Eduardo, o candidato que ajudou a derrotar em 2023 na corrida para o Senado. 

Parece roteiro de filme.

Há alguns dias, Motta gravou um vídeo criticando a gestão Álvaro Dias sobre a falta de creches. Foi perfeito na crítica não fosse por um detalhe: é a mesma gestão da qual foi funcionário por quatro meses e de onde saiu porque não conseguiu convencer o chefe a apoiá-lo na empreitada eleitoral. 

Rafael Motta é novo, gente boa, tem carisma, preserva um certo capital político, mas já não é natural de fábrica, vem com o carimbo da desconfiança.

Enquanto diz que a pré-candidatura é para valer, negocia nos bastidores a vaga de vice na chapa de Carlos Eduardo (PSD), agora filiado no Avante. No horizonte, caso a dupla vingue e vença as eleições, está a possibilidade do ex-prefeito renunciar pela terceira vez o eventual mandato para disputar o Governo e, então, finalmente, Rafael teria novamente a chance de voltar a ter o protagonismo do qual gozou no início da carreira.

É a dinâmica da política, onde tudo pode acontecer. Inclusive, nada.

Há quem diga que, às vezes, é preciso se perder para se encontrar na vida. 

Rafael precisa confiar nisso. Mas antes, tem uma missão: passar para o eleitor a confiança de que acredita nele mesmo. 

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