Para entender a rivalidade ANDES X PROIFES
Natal, RN 22 de jun 2024

Para entender a rivalidade ANDES X PROIFES

8 de junho de 2024
8min

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Por Flávio Fernandes Fontes | doutor em psicologia e professor efetivo do curso de Psicologia da (UFRN)

“Percebe-se que os partidos de esquerda radical tentam ocupar, ou melhor, retomar o espaço que antes havia sido seu e que hoje é de ocupação da CUT e, também, do PT” (Moura, 2011, p. 74).

O Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES-SN) e a Federação de Sindicatos de Professores e Professoras de Instituições Federais de Ensino Superior e de Ensino Básico Técnico e Tecnológico (PROIFES) são duas instituições de representação nacional da categoria dos docentes da educação pública federal. Ambas têm tido papel importante na atual greve das universidades e institutos federais, juntamente ao Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica (SINASEFE) e a Federação dos Sindicatos Trabalhadores Técnico-administrativos em Instituições Públicas de Ensino Superior do Brasil (FASUBRA).

ANDES, SINASEFE e FASUBRA trabalharam em articulação, ao ponto de realizar coletivas de imprensa de forma conjunta, na sede do ANDES em Brasília. Enquanto isso, nas redes sociais e em assembleias, o ANDES realizou uma verdadeira campanha de ódio contra o rival PROIFES, acusado de intruso e traidor. Em uma das manifestações na capital federal, membros do ANDES espalharam capachos com o nome "PROIFES" no chão, para que fossem pisoteados pelos militantes. Nas redes sociais, um desenho mostra um manifestante chutando o traseiro de um senhor que tem "PROIFES" escrito na sua calça e usa um chapéu com as cores dos EUA.

Quando o PROIFES decidiu assinar acordo com o governo, no dia 27 de maio, tal momento foi chamado de farsa e uma campanha foi instigada para que os sindicatos da base do PROIFES se desfiliem da federação e passem a se vincular ao ANDES. Essa tentativa de exterminar o rival se encontra em andamento, afinal, quem poderia apoiar o peleguifes ou traifes, como passou a ser chamada reiteradamente a odiosa federação? De um lado a legítima esquerda, do outro uma federação governista que não merece existir. Aqueles que ousam desafiar esta narrativa são logo atacados, só podem ser igualmente traidores. É uma questão de tudo ou nada, ou se está com o ANDES ou se está do lado do inimigo.

Para entender o que está acontecendo, escolhemos fazer um recuo histórico e retomar as disputas entre diferentes correntes dentro do Partido dos Trabalhadores (PT), tema estudado por Wellington Duarte, atual presidente do PROIFES. Para Duarte (2016), a trajetória do PT foi de afastamento do marxismo, “uma ‘migração ideológica’ para uma ‘esquerda moderada’, recaindo no reformismo” (p. 44). Na busca por sucesso eleitoral, o PT passa a fazer alianças políticas que causam controvérsias internas. A corrente Articulação (ART) começa a se tornar hegemônica, e enfrenta a oposição das correntes Convergência Socialista (CS), Democracia Socialista (DS) e O Trabalho (OT), que criticam o “afastamento definitivo de alguns dos pilares do marxismo revolucionário, qual seja, a renúncia à tomada violenta do poder, a defenestração da ditadura do proletariado e uma releitura da democracia na construção do socialismo” (Duarte, 2016, p. 57). No primeiro congresso do partido, realizado em 1991, vence a tese que aceita o termo “Estado de Direito” e se abandona qualquer referência à ditadura do proletariado.

A Convergência Socialista, a Causa Operária (CO) e a Tendência por um Partido Revolucionário (TPOR) saem do PT no ano de 1992, o que ensejará a criação de dois novos partidos: o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), fundado em 1994 e o Partido da Causa Operária (PCO), fundado em 1995. Embora com uma história bem mais antiga que o PT, o atual Partido Comunista Brasileiro (PCB) é registrado em 1996 e também se insere neste campo de crítica ao PT. Com o início do primeiro governo Lula, outra importante divergência interna do PT formará o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), fundado em 2004, a partir da expulsão de Heloísa Helena, Babá, João Fontes e Luciana Genro.

O conflito entre integrantes do PT, PSTU, PCO, PCB e PSOL terá importante influência no ANDES e na forma como surgirá o PROIFES. No final dos anos 1980 e ao longo dos anos de 1990 e início dos anos 2000 o ANDES esteve dividido entre a corrente ANDES-AD e uma oposição que assumiu os nomes de Andes Hoje, Fórum Andes Plural e ANDES-SIND (Silinske, 2022). Com o início do governo de Lula em 2003, este conflito interno se acirrou enormemente, levando à ruptura, com a saída de membros do grupo de oposição e criação do PROIFES no ano de 2004, pelos motivos bem sintetizados por Silinske (2022): “da crescente separação entre os defensores da estrutura sindical vertical e horizontal, da discordância acerca do indicativo de greve contra a Reforma da Previdência em 2003, da divergência sobre o papel do sindicato no governo Lula e da disputa eleitoral para a Diretoria Nacional do ANDES-SN no Biênio 2004-2006” (p. 125).

A partir de 2004 ANDES e PROIFES seguiram estratégias distintas. O PROIFES enfatiza a negociação com o governo federal, se aproximando do PT, PC do B e CUT (Dutra, 2016; PROIFES, 2019). O ANDES enfatiza a greve, rompe com a CUT em 2005 e se filia oficialmente à CONLUTAS em 2007, entidade que em 2010 se transforma em CSP-CONLUTAS, mantendo proximidade com PSTU e PSOL, além de setores mais à esquerda do próprio PT. Em 2023 no 41º Congresso do Andes-SN, foi aprovada a desfiliação do ANDES da CSP-Conlutas, pelo entendimento que tal central isolava o sindicato, por não se articular com outras centrais. Esse movimento está ligado ao enfraquecimento do PSTU e ao crescimento do PSOL e PT dentro do ANDES.

A divergência atual entre ANDES e PROIFES representa mais um capítulo de uma tensão histórica entre revolução e reforma dentro do campo da esquerda. De um lado aqueles que defendem ruptura, transformação radical, e de outro os que defendem modificações parciais, limitadas. Os revolucionários, mais alinhados às perspectivas ideológicas dos partidos PSTU, PCO, PCB e PSOL, são frequentemente denominados de ultra esquerda, esquerda radical ou extremistas e costumam denunciar o estado de direito e as eleições como mera farsa burguesa (Arcary 2007; Moura, 2011). A participação nas eleições gerais é uma tática subordinada e secundária, utilizada mais para divulgação e recrutamento do que com o objetivo de efetivamente vencer pelo voto (uma caracterização mais adequada para o PSTU, PCO e PCB, uma vez que o PSOL procura expandir o discurso para conseguir algum sucesso eleitoral). Para Moura (2011), a esquerda radical vê o campo sindical como terreno prioritário a ser disputado, visando a disputa ideológica com a esquerda sindical “governista”. Conquistar o terreno dos sindicatos seria o primeiro passo na construção da hegemonia no campo da esquerda e uma etapa na estratégia revolucionária global.

Vejo que muitos colegas docentes se engajaram no atual movimento grevista para lutar por melhorias na educação e nas nossas carreiras e se surpreenderam com a intensidade do ódio na relação entre as instituições sindicais que representam nossa categoria. O sectarismo político e seus seguidores têm “muita dificuldade para realizar a frente única, mesmo quando acordos eram possíveis para campanhas conjuntas, porque identificavam os potenciais aliados, em especial, os mais próximos, como inimigos” (Arcary, 2007, p. 271).

A disputa entre revolucionários e reformistas assumiu de tal forma o centro das atenções que a busca por vitórias para a categoria passou, em alguns momentos, ao segundo plano. Eu gostaria de pensar que seria possível uma reconciliação, mas a campanha de ódio promovida pelos primeiros contra os segundos parece ter destruído todas as pontes de diálogo. O conflito é entre uma esquerda autoritária e uma esquerda democrática.

Arcary, V. (2007). Ultra-esquerdistas e sectários, anotações para uma história do extremismo de esquerda. Tempos Históricos, 10(1), 267–291. https://doi.org/10.36449/rth.v0i0.1234
Duarte, F. W. (2016). As peripécias do partido dos trabalhadores na trajetória política brasileira: das raízes ao II congresso. Revista de Economia Regional Urbana e Do Trabalho, 5(2), 43–75. https://periodicos.ufrn.br/rerut/issue/view/860/Francisco Wellington Duarte
Dutra, N. L. L., & Castioni, R. (2019). Dois sindicatos e uma categoria: o caso dos docentes federais do Brasil. VII Seminário Da Rede ASTE -Rede de Pesquisadores e Pesquisadoras Sobre Associativismo e Sindicalismo Dos Trabalhadores e Trabalhadoras Em Educação, 167–183.
Moura, P. T. C. de. (2011). As razões da esquerda radical - PCB, PSTU e PSOL: estrutura organizativa e objetivos políticos [Universidade Federal do Rio Grande do Norte]. https://repositorio.ufrn.br/jspui/handle/123456789/13645
PROIFES. (2019). PROIFES-Federação 15 ANOS. Lutas e conquistas. https://proifes.org.br/livro-proifes/
Silinske, J. (2022). A Organização do Movimento Sindical Docente no Ensino Superior em Porto Alegre [Universidade Federal do Rio Grande do Sul]. https://lume.ufrgs.br/handle/10183/257375

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