Sobre IA nas redes sociais (e sobre não querermos mais ser nós mesmos)
Natal, RN 15 de jul 2024

Sobre IA nas redes sociais (e sobre não querermos mais ser nós mesmos)

13 de junho de 2024
4min
Sobre IA nas redes sociais (e sobre não querermos mais ser nós mesmos)

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Há algumas semanas no Facebook a escritora pernambucana que mora em São Paulo Micheliny Verunschk (autora de "O som do rugido da onça" e "Caminhando com os mortos") escreveu texto duro e poderoso sobre, nas palavras dela, "a adesão massiva de amigos, no facebook, a todo tipo de IA (Inteligência Artificial)". Como qualquer um que acesse a rede de Mark Zuckerberg pode ver, muita gente, mas muita mesmo, vem fazendo uso de jogos e filtros que, com uso de IA, criam "versões" diferentes dos rostos das pessoas, geralmente mais jovens, mais glamourosas e em condições diferentes da realidade (em trajes do século 19, roupas de faroeste, cores e tamanhos de cabelo diferentes, etc e tal.

Para Micheliny, isso "faz parte de um processo de zumbificação, de anestesia coletiva (…) de colocar seu poder, sua alegria, singularidade , sua energia criativa em um gerador infinito de mentiras. a emulação de corpos, vidas e ideais falsos afastam as pessoas do que importa de verdade". É algo que concordo totalmente e que há muito vem me preocupando. Os filtros do IA tornaram mais fácil e banal um desejo que parece acometer as pessoas há tempos: o de não ser (ou não parecer) elas mesmas.

Esse é um processo histórico, claro, e se eu quiser aprofundar o debate terei de ir nas maquiagens faciais em uso na Roma Antiga e no Egito dos faraós, assim como no pó de arroz que embranquecia a aristocracia francesa. Mas fiquemos na questão nos tempos de internet. Recordo que há uns quinze anos, antes dos filtros, nos tempos de aplicativos de encontros amorosos, como Badoo e Meetic, diversos amigos e amigas passaram por mal entendidos e desencantos porque as pessoas com quem marcavam os encontros na vida real (ou às vezes elas próprias) eram bem diferentes da foto do perfil.

Claro que todos nós nos impactamos com a ação do tempo em nossos corpos e desgostamos de algo aqui ou acolá, uma calvície que se alastra, umas olheiras a mais, pele desgastada, uns quilos também a mais, enfim. É certo que gostaríamos de mudar alguma coisa em nós mesmos e que nos preocupamos com a visão que as pessoas têm de nós e de nossa aparência. Mas também é certo que mascarar ou disfarçar essas (supostas) imperfeições com a artificialidade dos filtros de IA não vai resolver a questão. Uma plástica ou botox é uma maneira, a meu ver às vezes equivocada e de maus resultados, de se corrigir essas "imperfeições", mas é algo prático. Uma foto de perfil "rejuvenescida" por IA não vai mudar o rosto da pessoa quando ela tiver de ir a uma festa, um evento. E provavelmente maquiagem e produtos diversos não conseguirão alterar o rosto para "caber" na imagem gerada por IA.

No seu texto-desabafo, Micheliny Verunschk registra que não considera engraçado nem inofensivo esse processo que "normaliza o falseamento da verdade, o que gera uma legião de insatisfeitos, de deprimidos, alienados de nós mesmos somos mais suscetíveis a nos alienarmos da realidade. de toda ela, e vejam bem, esse não é um problema, uma fraqueza individual. é uma perturbação coletiva bem pensada e elaborada por mecanismos do neoliberalismo que influenciam a vida política e social, que desmontam democracias, que adoecem o mundo", escreveu. De fato, me assusto quando vejo no Facebook comentários elogiosos quando uma pessoa coloca uma foto "irreal" do rosto como perfil. "Amiga, está linda!" ou "Essa foto ficou bacana!". Quando aquilo não é uma foto, não é algo real.

Sei que os tempos são de pós-verdade e que a IA veio para ficar e pode ser utilizada de maneiras saudáveis e úteis. Mas me preocupa e assusta esse processo de insatisfação com rostos e corpos ser assimilado como passível de resolução através de um comando de Chat GPT.

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