Tá ligado naquela boyzinha?
Natal, RN 25 de jun 2024

Tá ligado naquela boyzinha?

6 de junho de 2024
4min
Tá ligado naquela boyzinha?

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Dia desses escrevi em minhas redes sociais comentário bem humorado sobre algo que percebi no Instagram. Deixando bem claro que não sou purista nem radical no que tange à linguagem, por acreditar que a língua portuguesa é dinâmica, vide as influências e incorporações nos últimos séculos no Brasil, vi no Instagram um perfil em São Paulo que oferece um "walking tour" pelo Centro. Em bom português: passeio ou caminhada histórica. Parece tão forçado quando o "takeaway" que lanchonetes e restaurantes usam para se referir a "pegar na loja". Já escrevi em tempos idos sobre o excesso de "off" em vez de "promoção".

A língua portuguesa, como todas, é dinâmica, principalmente no Brasil, país que sofreu colonizações e povoamentos diversos em uma área quase continental. Para além de nomes e termos de povos originários (inúmeros nomes de cidades, rios e gentílicos são de línguas indígenas, como o próprio "potiguar" = comedor de camarão) e de povos de nações africanas, depois a língua sofreu influência do francês (abajur e sutiã, para ficar nos exemplos aportuguesados), do árabe (álcool, açúcar, açougue), do italiano, mais no século 20, e mesmo do flamengo/holandês (casos do Seridó, no RN e Pernambuco).

Ou seja, o assunto é complexo. Ao mesmo tempo que nos irritamos com os excessos, também compreendemos que não se pode esperar que o idioma, principalmente o falado, fique estático e não sofra alterações.

Importante: é uma utopia completa acreditar que o idioma pode ser "formatado" ou "decidido" em gabinetes de bibliotecas por intelectuais letrados. Nada disso. A língua se constrói nas ruas. Por mais que Shakespeare, Cervantes e Camões tenham "criado" as línguas inglesa, espanhola e portuguesa, a construção delas todas foi entre mercados e fábricas, entre apresentações culturais e baixo meretrício. Há uma clara diferença entre a linguagem acadêmica e/ou literária e a linguagem coloquial, a do dia a dia. Elas podem e devem coexistir.

Dito isso tudo ainda me chamaram a atenção, em comentários nas postagens ou mensagens privadas, para mais dois aspectos linguísticos: o geográfico/regional e o geracional. O primeiro coloca uma lente sobre as imensas diferenças terminológicas entre regiões e mesmo entre estados. Qualquer potiguar sabe que em João Pessoa e Recife, a duas e quatro horas, respectivamente, de distância de carro, não apenas os sotaques são diferentes mas os termos, expressões e gírias. Entre regiões, então, a disparidade é gritante.

Ainda existe a questão geracional, afinal, os mais jovens constroem léxico próprio, sempre foi assim. Nunca esqueço do dia em que meu filho Pedro e um amigo, ambos lá pelos catorze anos, conversavam entre si na minha frente e Pedro perguntou ao outro: "Tá ligado naquela boyzinha?". Depois, curioso, perguntei: "Filho, boyzinha significa garota, é isso?". Ele respondeu que sim. "Mas boy não é garoto em inglês, e garota significa girl?". Pedro me olhou como se eu fosse idiota. E naquela hora, era. A linguagem não se constrói com uma lógica, muito menos de gênero. Hoje, uma década depois, percebo até mesmo amigos e amigas na minha geração, cinquentões, falando os termos "aquele boy" e mesmo "boyzinha". A língua é dinâmica, criativa, sem regras. E são demais os perigos dessa língua, como cantou Vinícius de Moraes. Tendo ou não paixão.

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