Um espectro ronda a Europa
Natal, RN 25 de jul 2024

Um espectro ronda a Europa

23 de junho de 2024
11min
Um espectro ronda a Europa

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Em 1848 foi publicado o Manifesto do Partido Comunista, escrito por Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895). Trata-se de um  dos mais importantes textos políticos do século XIX. Ele  inicia com a frase “um espectro ronda a Europa: o espectro do comunismo.  Todas as potências da velha Europa uniram-se numa Santa Aliança para conjurá-lo: o papa e o czar, Metternich e Guizot, os radicais franceses e os espiões da polícia alemã”.

Em 2024, outro espectro ronda a Europa: não mais o comunismo, mas o fascismo, expresso no crescimento da extrema direita. Na França, no último dia da votação para o Parlamento Europeu, em 9 de junho, com os resultados anunciados, milhares de pessoas se manifestaram em Paris (Praça da República) contra a extrema-direita e uma das faixas resumia o sentido da mobilização: “Fascistas às portas do poder. União já!”.

O que ocorreu na eleição para o Parlamento Europeu integra o que o cientista político holandês Cas Mudde chamou de quarta onda da extrema direita pós-guerra - a partir de 2000 (as anteriores foram o Neofascismo, 1945-1955, Populismo de Direita, 1955-1980, Direita Radical, 1980-2000) sendo o exemplo mais recente os resultados da eleição para o Parlamento Europeu, realizada entre os dias 6 e 9 de junho para eleição de 720 deputados de 27 países, em torno de 350 milhões de eleitores (é importante registrar que o comparecimento às urnas foi em média de 50,8%, ou seja, pouco mais de 175 milhões de votantes- Na eleição para o Parlamento Europeu o voto é obrigatório apenas em quatro países: Bélgica, Luxemburgo, Grécia e Bulgária. Em Portugal, por exemplo, a abstenção foi de 63,6%). 

O fato relevante desta eleição é que a extrema direita teve mais votos em 18 dos 27 países da União Europeia.

No livro A extrema direita hoje (publicado em 2019 e no Brasil em 2022 pela Eduerj) Cas Mudde afirma que uma característica da quarta onda e que difere das anteriores, é que há uma naturalização e consolidação da extrema direita nos sistemas políticos: “O número de países nos quais a extrema direita é considerada aceitável em coalizões pela direita tradicional, e até mesmo por alguns partidos de esquerda, cresce cada vez mais”. 

Outra característica é a sua heterogeneidade. Há países em que a extrema direita está mais consolidada e no poder, como na Polônia, Turquia e Hungria na Europa, Índia (Modi), Israel (Likud do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu) e Filipinas com Rodrigo Duterte, no poder desde 2016 e outras com líderes da extrema direita que foram eleitos em eleições mais recentes como Donald Trump nos Estados Unidos (2017-2020), Jair Bolsonaro no Brasil (2019-2022) e atualmente Javier Milei na Argentina, eleito em novembro de 2023.

E tem crescido eleitoralmente em países de larga tradição democrática como França, Holanda, Suécia, Dinamarca, Noruega e Finlândia, e também na Itália e Grécia (na eleição de maio de 2023 a extrema-direita elegeu 34 deputados no parlamento mais à direita da Grécia nas últimas décadas), além do crescimento eleitoral de partidos fascistas na Espanha (Vox) e Chega! de Portugal (criado em 2019 por André Ventura, na eleição para a Assembleia da República, em março de 2024, elegeu 48 parlamentares. Antes, tinha 12, e terminou em terceiro lugar, atrás da Aliança Democrática, que elegeu 79 e do Partido Socialista, com 77 - que antes tinha 120).

O que as recentes eleições para o Parlamento Europeu significam? Juntamente com o (a)s representantes dos governos dos países que compõem a União Europeia, o (a)s eurodeputado (a)s decidem sobre leis que podem influenciar a vida dos cidadãos dos respectivos países, como decisões econômicas (aprovação e controle do orçamento, por exemplo) sobre combate a pobreza, imigração, segurança, mudanças climáticas etc.

O principio é o da defesa do que chama de os valores da União Europeia: o respeito pelos direitos humanos, à liberdade, a democracia, a igualdade e o Estado de direito. No entanto, o crescimento da extrema direita põe em risco esses princípios, às conquistas democráticas desses países, cujos desdobramentos podem ameaçar também as democracias de outros países, fora do continente Europeu.  

No Parlamento Europeu a representação dos países varia conforme sua proporcionalidade. O número mínimo de eurodeputado (a)s de cada país é seis (Chipre, Luxemburgo e Malta) e o número máximo é 96 (Alemanha). Os outros três maiores são a França, com 81, a Itália com 76 e a Espanha com 71deputados.

E há também os grupos políticos. Atualmente são sete, e entre eles, Grupo do Partido Popular Europeu (Democratas-Cristãos), que ampliou sua bancada em 13 assentos e é a força predominante no Parlamento Europeu com 458 deputados dos 720. Eles se agrupam não por nacionalidade, mas em função das suas afinidades políticas. Para constituir um grupo político é necessário um número mínimo de 23 deputados (a)s e uma representação de, pelo menos, um quarto dos Estados-Membros. Cada deputado (a) só pode pertencer a um grupo político (há também os não inscritos e independentes que somam, juntos, 89 deputados).Em relação à extrema direita, há dois grupos: Identidade e Democracia (o principal partido é o Reagrupamento Nacional, de Marine Le Pen, da França) e Europeus Conservadores e Reformistas (o Partido Irmãos da Itália, de Giorgia Meloni, integra essa frente). Eleitos em 2019, juntos, eles tinham 118 das 705 cadeiras no Parlamento Europeu (16,7%). Na eleição de junho de 2024, houve um aumento de 15 assentos, passando para 720 e esses dois grupos elegeram 131 deputados (18,1%) (https://g1.globo.com/mundo/noticia/2024/06/10/quem-e-a-extrema-direita-na-europa.ghtml).

Houve crescimento da extrema direita que tem as maiores representações como Alemanha, França e Itália. Na Alemanha em primeiro lugar ficou a União Democrata-Cristã, oposição conservadora moderada, com 30% dos votos (e 30 cadeiras), em segundo, o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha, com 16 cadeiras O Partido Socialdemocrata do chanceler Olaf Scholz, de centro-esquerda, ficou em terceiro lugar com 13,9% e 14 cadeiras.

Na França, o partido de extrema direita Reagrupamento Nacional de Marine Le Pen teve 31,37% dos votos e elegeu 30 deputados, com o seu melhor resultado na História, cerca de um terço dos votos, mais do que o dobro da votação do partido do presidente Emmanuel Macron, Renascimento, que caiu de 31,4% obtido na eleição de 2019 para 14,6% (13 cadeiras) em 2024.  (O Renascimento tem 270 dos 577 assentos do Legislativo francês). O Partido Socialista teve 13,8% dos votos e conquistou 13 cadeiras.

Na Itália, o partido fascista Irmãos da Itália - que em setembro de 2022 elegeu a primeira-ministra Giorgia Meloni - foi o mais votado com 28,8% dos votos, e elegeu 24 dos 76 deputados que a Itália tem no Parlamento Europeu, seguido do Partido Democrático (de centro) com 24,1%, com 21 cadeiras (A Aliança Verde Esquerda teve 6,7% e conquistou 6 cadeiras).

Na Hungria, o Fidesz, do primeiro-ministro Viktor Orbán, de extrema direita, ficou em primeiro lugar com 43.8% dos votos (embora com o pior resultado em 14 anos).

 Na Espanha, o Vox, também de extrema direita, que havia perdido força nas eleições gerais espanholas em 2023, conquistou 10% dos votos, elegendo seis deputados, e se tornando a terceira força do país no Parlamento Europeu.

No entanto, houve vitórias importantes para conter a onda fascista: o campo progressista conseguiu algumas vitórias como em Portugal (O Chega, de extrema direita, teve 9,8% dos votos e apenas duas cadeiras no Parlamento. O Partido Socialista (PS), foi o mais votado (32,8%) e elegeu oito deputados. A Aliança Democrática do primeiro-ministro Luís Montenegro, ficou em segundo, com 31,1% dos votos e sete cadeiras). 

Também na Finlândia, a esquerda superou a extrema direta, o Partido dos Finlandeses, que integra a coalizão do governo, hoje no poder. A Aliança de Esquerda teve 17,3% dos votos e a melhor votação desde 1979, ficando em segundo lugar atrás da Coalizão Nacional de centro-direita. O Partido dos Finlandeses perdeu uma cadeira, com sua votação caindo de 13,8% em 2019 para 7,6% em 2024.  

Na Suécia os Verdes e o Partido da Esquerda avançaram mais do que a extrema direita (13,8% e 11%, respectivamente). Na França, embora a extrema direita tenha crescido, os partidos de esquerda (Partido socialista, França Insubmissa e os ecologistas), somados, tiveram uma votação muito próxima: 29,22%. 

Um aspecto importante nas eleições para o Parlamento Europeu foi uso pela extrema direita das redes sociais e a ampliação da participação dos jovens. 

Em relação aos jovens, 5 países da União Europeia baixaram a idade de voto para 16 anos: Bélgica, Alemanha, Áustria, Grécia e Malta. Embora minoritário e sem dados quanto a sua efetiva participação e considerando também o voto ser facultativo em 24 dos 27 países, no artigo Por que tantos jovens estão optando pela direita nas eleições europeias?  Publicado na BBC no Brasil no dia 7 de junho de 2024, Sofia Bettiza afirma que nas eleições europeias de 2019 os mais jovens compareceram às urnas em número recorde – e seus votos foram na maioria destinados a partidos verdes, que “defendiam políticas climáticas mais eficientes”. 

No entanto, na eleição de junho de 2024, houve uma mudança importante e os políticos da extrema direita tiveram mais sucesso em atrair a atenção dos jovens online, com uma eficiente estratégia nas redes sociais e que as questões que preocupam os jovens europeus, embora com variações entre os países, tem algo em comum: trata-se de “uma geração que cresceu durante a pandemia de covid-19 e que agora se sente preocupada com vários tópicos: a guerra na Europa, às mudanças climáticas, um mercado de trabalho incerto e a falta de habitação acessível”.

 E isso foi percebido pela extrema direita que usou em seus discursos, especialmente em relação à migração (tema comum da extrema direita na Europa), que, segundo a matéria “empurrou os jovens eleitores para a direita”. E informa ainda que “em 2023, cerca de 380 mil pessoas atravessaram ilegalmente as fronteiras da UE — o número mais alto desde 2016”. E a extrema direita associou esse crescimento ao aumento da violência e da criminalidade. https://www.bbc.com/portuguese/articles/ckkk4x7qe2po

Na França, com o resultado da eleição, o presidente Emmanuel Macron dissolveu o parlamento e convocou eleições legislativas para 30 de junho e sete de julho de 2024 para a Assembleia Nacional (primeiro e segundo turno, respectivamente). O objetivo é o de tentar aglutinar forças, ante a ameaça que representa a vitória da extrema direita. 

No dia 9 de junho, com os resultados da eleição para o Parlamento Europeu, Macron afirmou que “A principal lição é clara: este não é um bom resultado para os partidos que defendem a Europa” e decidiu dar à população o que chamou de “a opção de escolher um novo parlamento”.  

A defesa da união dos democratas, dos progressistas e da esquerda para derrotar a extrema direita é fundamental.   Na França, a esquerda representada pela La France Insoumise (rebelde), o Partido Socialista, os Verdes, o Partido Comunista, a Esquerda Republicana Socialista e o Movimento Geração, anunciaram um acordo para se unir em uma frente popular contra a extrema direita com “candidatos únicos no primeiro turno”. Mas não para defender Macron e sim ter como objetivo da aliança “levar a cabo um programa de rupturas sociais e ecológicas para construir uma alternativa a Macron e combater o projeto racista da extrema-direita”. 

A união é essencial para derrotar a extrema direita onde o espectro do fascismo estiver presente. Na França e em outros países, como o Brasil.

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