Uma mão de palavras
Natal, RN 25 de jun 2024

Uma mão de palavras

2 de junho de 2024
4min
Uma mão de palavras

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Por Napoleão Paiva, médico e compositor

A palavra que nunca ouvi. E que repentina me cai nos ouvidos, ou nos olhos, e faz a festa. Como se eu tivesse achado uma pepita. O que longe está de ser uma meia-verdade.

Ocre, expressão da vez, de sonoridade rascante. Linda. Ainda mais linda no que traduz: cor de argila colorida, variação do amarelo acastanhado, alguma coisa assim.

Há quem se deslumbre com anéis, automóveis, dinheiro — aliás, uma quase unanimidade; a outros, bastam as palavras, das empavonadas às mais simples, com o condão todavia de nomearem tudo ou quase tudo ao derredor: objetos, bichos, sentimentos, o mundo e seus balangandãs. Taí um nome sacolejante, palavra de flandre, latão, ondulada de imagens e sugestões, também chamada berenguendéns, penduricalhos.

Viva a língua portuguesa na sua profusão de vozes ao sol ou na penumbra de fundo de baú. Arrebol, por exemplo, de tão sinuosa e sonora inspiração, não é verbete que merecesse estar ali, embrulhado em papel madeira com naftalina. Tantissimos vocábulos desmonetizados, sob olhares apenas de linguistas, filólogos ou de meros enamorados da arte de dizer, dos que se apegam ao que não se pega, que não se come, não se põe na bolsa ou no bolso, de baixo valor mercantil, nem de fácil utilidade, tampouco. Gente que se compraz com o quase abstrato do ofício, os umbrais das linguagens esquecidas, senão de todo perdidas.

Abro por acaso um vídeo do sobrinho Romeu que desinibido, como sempre, vai logo dizendo: congratulations !

Um esplendor de palavra, de sonoridade aberta, expressão de festa, achado do idioma de Shakespeare, gostosa de se dizer e de se repetir — congratulations! Rio do jeito do grande Romeu e da graça com que ele a pronuncia, com o acento impecável da alfabetização bilíngue.

“Fim de tarde/ No céu plúmbeo…” Vejo Natal no início da noite de ontem, como Manoel Bandeira possivelmente via a cidade onde estava e onde escreveu seu poema “Satélite” — aquele que de cor repito desde a puberdade. No céu plúmbeo. Depois de meio século não voltei a ouvir mais ninguém usar essa pepita, fragmento de metal nativo, que um dia chegou e ficou em mim adormecido, em nada arcaico, ao que parece sem idade, para sempre.

A sombra turquesa, o azul turquesa do mar de Fernando de Noronha, a pedra e o oceano iguais, feitos espelhos um para o outro a refletirem-se na imensidão insondável.

As que me chegaram do genial Rosa, inventor delas aos borbotões, com uma maestria que dispensa dos leitores a consulta aos dicionários - por lógicas e naturais. Nonada. Suspirância. Cabismeditado. Sagarana (resultante de hibridismo inimaginável até aos “inventores” atuais de inúmeros e espalhafatosos gêneros).
Neologismos sob medida para quando o idioma esbarra.

O voo do Tuiuiú, talvez a palavra mais musical da língua de Luís de Camões. Vibrato de guitarra. Nome de estranha ave, também chamada jaburu — os quais o bicho simplesmente ignora.

Todos os nomes têm ou tiveram seu instante de chegar, em todo tempo e lugar, sem bater à porta, sem cerimônia, de todas as maneiras, com a naturalidade de quem não cabe saber se será ou não bem-vinda.
Arrivederci.

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