Vídeo: alunos fazem despedida emocionada para professora de escola pública em Natal
Natal, RN 22 de jun 2024

Vídeo: alunos fazem despedida emocionada para professora de escola pública em Natal

9 de junho de 2024
15min
Vídeo: alunos fazem despedida emocionada para professora de escola pública em Natal

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Depois de pedir afastamento não remunerado para o período de um ano, a professora Vanusa Ruiz deu uma última passada na escola para organizar o laboratório de Química.

A diretora pediu que eu fosse porque a Secretaria [de Educação] tinha devolvido umas vidrarias que havia pedido emprestado. Ela disse ‘venha senão você vai embora, a gente não vai saber organizar e vai ficar tudo bagunçado’. E, realmente, só quem sabe organizar o laboratório de Química é o próprio professor”, relembra Vanusa Ruiz.

A tarefa era, na verdade, uma desculpa para que a professora retornasse ao Instituto Padre Miguelinho, escola da rede estadual localizada no bairro do Alecrim, em Natal, onde Vanusa leciona a disciplina de Química desde 2020.

Fui de manhã direto pra o laboratório, organizei tudo e ia voltar para casa porque precisava de tempo para organizar as coisas para a viagem. Assim que terminei, falei ‘Cristiane, posso ir agora?’. Ela disse, ‘Claro, vamos só tomar um café com o pessoal para se despedir’. Quando entrei na sala dos professores, eles tinham feito uma festa, cada um levou uma coisa, foi muito bacana. Eles fizeram minha despedida ali e eu já estava chorando. Era hora do intervalo e, de repente, estava todo mundo saindo, mas até aí tudo normal porque eles iam voltar para sala de aula. Fiquei sozinha na sala com a diretora porque como eu estava chorando, fui a última a comer”, conta rindo.

Quando a gente estava saindo da sala tinha aquela multidão, a escola todinha ali. No vídeo não dá para ver, mas eu já estava chorando. Eles me chamaram para ficar no centro, depois correram e me abraçaram, fizeram um abraço coletivo, meus óculos caíram, foi uma loucura”, conta, sorridente.

Confira o vídeo com a despedida surpresa dos alunos:

Fazendo dar certo

Todo esse afeto não é à toa. A professora conseguiu com ajuda de doações, e até investindo dinheiro do próprio bolso, colocar o laboratório de Química para funcionar. O espaço é uma raridade, até nas escolas privadas, por causa do alto custo para a aquisição e manutenção de materiais.

Nenhuma escola pública tem laboratório porque é muito caro manter, só temos nas universidades. Já tínhamos umas vidrarias antigas, fui pedindo reagentes aos colegas da universidade [UFRN] e o que precisava para as práticas eu levava de casa... óleo, ovo, açúcar... tinha minha apostila e todo dia olhava o que ia precisar. Começamos a fazer práticas e os meninos amaram”, revela a professora.

A sala onde hoje funciona o laboratório do Instituto Padre Miguelinho já foi uma cozinha e, por último, estava funcionando como depósito. Foi ao ingressar na escola, em 2020, que o espaço ganhou uma função científica e pedagógica.

Professora Vanessa Ruiz com os alunos no laboratório I Foto: reprodução
Estudantes do Instituto Padre Miguelinho durante aula no laboratório de Química I Foto: cedida
Estudantes do Instituto Padre Miguelinho durante aula no laboratório de Química I Foto: cedida

Trabalho em equipe

Como montar um laboratório, além de não ser barato, também é trabalhoso, foram os próprios estudantes que ajudaram nesse processo.

Quando entrei perguntei a Flávia, que era a diretora na época, se poderia fazer um laboratório naquele espaço. Ela disse ‘fique à vontade para o que você puder fazer aí’. Chamei os alunos para desencaixar tudo. O que tinha eles iam tirando e eu ia dando aula, não tinha como fazer isso sozinha, não temos bolsistas. Pegava as caixas com as vidrarias, os beckers, os balões... e ia explicando o que era e para que servia, já era uma aula prática. Enquanto isso, uma aluna já ia lavando a vidraria, outra secava e outro colocava no lugar. Foi assim que montamos a parte da vidraria”, conta.

Uma das surpresas da professora ao entrar na escola, foi encontrar o material antigo, que estava encaixotado há anos.

A escola já tinha os vidros, mas estavam parados. É um material bem antigo, da década de 1970. A escola pública antigamente era muito boa e esse pessoal já fazia laboratório! Eu sei porque estudei na década de 1980 e ainda era boa, excelente. Então, muita coisa já tinha, depois que entrei, acho que em 2021, o Governo também comprou uma vidraria. Outra coisa que me dá certeza de que antigamente faziam laboratório é que havia muito reagente, ainda tem, mas não tem mais validade. Se for fazer a prática com esse material, não vai funcionar”, revela.

O material continua guardado, mas está em exibição para que os alunos visualizem e saibam a função e riscos de cada um.

Se não der para usar na prática, mostro que aquilo existe, que precisa ter cuidado, que é perigoso. Eles usam bata, óculos de proteção... tudo isso deu para fazer lá. Eles adoraram e eu amei que eles gostaram”, conta.

Estudantes do Instituto Padre Miguelinho durante aula no laboratório de Química I Foto: cedida
Estudante do Instituto Padre Miguelinho I Foto: cedida

A professora Vanusa Ruiz, que também veio de escola pública, é de Natal e fez doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em São Paulo. Ao retornar à capital potiguar, passou cinco anos como professora convidada da Universidade Federal (UFRN), até passar no concurso para ser professora da rede estadual de ensino.

Sou aquela professora que realmente faço a minha parte. Dou uma boa aula e eles viram isso, entendo aquela manifestação dos alunos como um ‘obrigado’. Eu vim da escola pública e sei que o professor pode fazer a diferença na vida deles. Você pode trabalhar e fazer só o básico porque, realmente, ganhamos muito pouco, na verdade não paga nem as aulas que damos. Para você ter ideia, cada professor tem dez turmas com 40 alunos cada uma. Mas, mesmo recebendo pouco, estou sendo paga pelos pais deles, é a sociedade que paga aquele salário. Tenho esse compromisso de fazê-los aprender. Vim de escola pública e hoje estou aqui, estudando no Canadá”, conta Vanusa, que está acompanhando o marido e vai aproveitar o período para avançar no estudo do francês.

"São meninos muito carentes que precisam de uma educação que tire eles daquela realidade. Eu não posso brincar com isso. Não posso sair da minha casa e dar uma qualquer”, enfatiza professora."

Vou estudar para quando voltar continuar esse trabalho porque eu, realmente, tenho esse compromisso. São meninos que precisam disso, que vêm daquela sociedade marginalizada, sem acesso. São meninos muito carentes que precisam de uma educação que tire eles daquela realidade. Eu não posso brincar com isso. Não posso sair da minha casa e dar uma qualquer”, enfatiza.

Professora Vanusa Ruiz I Foto: reprodução

Para dar conta das diferentes esferas da educação, além das aulas práticas, a professora também dava aulas teóricas e resolvia questões do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Todo o material conseguido para montar o laboratório permanece no Instituto Padre Miguelinho, para que continue sendo usado pelos estudantes.

“Falei para a diretora conservar porque não é fácil montar, mesmo o laboratório mais simples. Dá para fazer todas as práticas que eles precisam para entender as questões do Enem. Eu dizia a eles, ‘tá vendo essa questão? Nós vimos na prática no laboratório’. É muito importante valorizar isso porque não temos laboratórios nas escolas públicas e conseguimos com muita luta. Inclusive, nas particulares de Natal, também não têm”, exemplifica.

Estudantes do Instituto Padre Miguelinho I Foto: cedida
Estudantes do Instituto Padre Miguelinho I Foto: cedida

A professora Vanusa já havia avisado aos alunos de sua saída há dois meses. Os estudantes, como podemos imaginar, não ficaram contentes com a notícia.

Eles reclamaram, diziam ‘logo agora que encontramos uma professora como a senhora, que mostra na prática!’ Incentivo muito eles a estudarem para o Enem, insisto que eles são capazes porque eles não acreditam que conseguem. Por exemplo, quando vim para cá [para o Canadá], eles acharam isso uma coisa de outro mundo. Eu disse, pessoal, vocês podem ir para qualquer país que vocês quiserem! É só estudar, tem muitos intercâmbios na universidade, é só não parar de estudar, o Enem é porta aberta, vocês são capazes de entrar. Para eles, isso é muita coisa”, conta a professora, que chegou no exterior no início dessa última semana.

Eles querem um professor que acredite neles e eles têm potencial. Olhe, tenho uma filha de 15 anos e esses meus alunos são do 3º ano, já vão fazer Enem. Eu não vejo diferença no potencial deles para o da minha filha que estuda no Cei [uma escola particular]. Eles são tão competentes quanto ela, mas precisam que os professores deem esse incentivo. Eles não têm nenhuma diferença intelectual para um aluno de escola particular! Tenho alunos excelentes e eu sei quando fazemos tarefas, sei o nível de cada um. Quando tentavam resolver questões do Enem mais difíceis, eles chegavam ao resultado. A limitação da escola pública não é pelo aluno", encoraja.

A professora não diminui o impacto das condições difíceis encontradas pelos profissionais da educação nas escolas públicas.

“Veja, digo isso sem esquecer que estamos num contexto de dificuldade também. A condição da escola pública é muito difícil, o professor tem que amar muito aquilo, realmente, porque a realidade do professor não é fácil! Mas se a gente tiver compromisso, a gente faz e isso não sou apenas eu, tenho colegas que são muito bons. Fazemos muito, com muito pouco”, ressalta Vanusa Ruiz.

A educação que transforma

“Achei fantástico esse reconhecimento porque os meninos mostraram a educação que eles têm. Aquilo tocou todo mundo. Quando entrei no estado ouvi muito que tivesse cuidado, porque os alunos são violentos. Isso existe, mas podemos conquistar esses meninos mais rebeldes, eles vêm de um lugar difícil, muitas vai para a escola sem tomar café porque está numa família totalmente desestruturada... se ele chega na escola e encontra um professor que não se importa com ele, que também está revoltado com a situação, você não vai conquistar esse aluno”, avalia a professora de Química.

Mensagens da escola incentiva os alunos I Imagens: cedidas
Mensagens da escola incentiva os alunos I Imagens: cedidas

Fazia acordos porque eles também não são fáceis, são adolescentes, querem conversar... fiz muita pesquisa pedagógica para entender como poderia conquistá-los e vi que era só pelo amor, se respeitássemos aquele momento. Dizia ‘vamos fazer um acordo, vocês podem conversar, levantar, ir na carteira do colega, fiquem à vontade, mas enquanto eu estiver escrevendo. Na hora da explicação quero silêncio total e senão coloco para fora’. Deu certo. Eles respeitavam o meu tempo e eu também respeitava esse momento da bagunça. Eles adoraram, porque não deixavam de fazer o que queriam e eu conseguia dar minha aula e fazer o laboratório, que eles adoravam! O ensino de hoje não e mais como antigamente, que o aluno sentava e ouvia o professor”, pondera.

Pelas fotos no laboratório, você pode ver que não sou eu que faço a prática, são eles! A escola também tem um instagram que publica as fotos feitas pelos professores durante a aula. Eles ficavam tão felizes, mostravam aos pais, já era um motivo de orgulho para eles. O Padre Miguelinho valoriza muito isso, toda aula diferente que a gente faz, mandamos para a coordenação e eles publicam. Os estudantes precisam disso, o menino vem de uma comunidade carente e de repente o pai dele vê ele fazendo uma prática como um estudante exemplar, qual o pai não vai gostar?”, questiona Vanusa.

As aulas de química no laboratório também era ministrava para os alunos especiais.

Um dia pedi para cada aluno escolher um elemento químico e falar sobre ele num seminário. Um menino especial, que é cego, disse ‘professora, eu escolhi o mais importante, o oxigênio, porque é o que a gente respira’. Eles participavam de tudo, os alunos pediam para participar”, conta.

A escola também é um espaço de socialização. Eles gostam muito da escola. Apesar de não ser atrativa, fisicamente, porque não tem uma quadra bonita, um jardim...não tem nada disso, mas eles não faltam, vão todos os dias e gostam de se encontrar com os colegas. O professor tem que fazer uma coisa diferenciada para chamar a atenção deles, aí dá certo”, acrescenta.

Estudante cego do Instituto Padre Miguelinho I Foto: cedida

A professora acabou de se ausentar, mas quando for voltar já tem vaga garantida no Instituto Padre Miguelinho, por ser professora titular.

É uma escola muito boa, é um modelo no Estado, uma das melhores”, defende.

Além de química, Vanusa Ruiz também é farmacêutica. Antes de entrar para a rede estadual de ensino, ela passou em em 6º lugar num concurso da Puc do Rio de Janeiro, que tinha apenas uma vaga. A professora também foi aprovada no disputado concurso da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em Brasília, mas também não foi chamada. O ingresso no ensino público na rede estadual se deu, justamente, quando ela havia feito uma pausa para ter uma filha.

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