A psicologia da estupidez
Natal, RN 17 de jul 2024

A psicologia da estupidez

7 de julho de 2024
11min
A psicologia da estupidez

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Este é o título de um livro organizado por Jean-François Marmion, psicólogo e jornalista cientifico, editor associado da revista Sciences Humaines e ex-redator-chefe da revista Le Cercle Psy. O livro tem como subtítulo “não existe um mundo sem idiotas. E lidar com eles é um desafio” (Foi publicado em 2018 pela Sciences Humaines Éditions, França e no Brasil em 2021 pela Faro Editorial). 

Trata-se de uma coletânea com 29 pequenos textos no qual participam psicólogos, filósofos, neurologista, neuropsiquiatra, professor de ciência da informação e da comunicação da Sorbonne Nouvelle (Paris 3), economista etc., E tem a participação, entre outros, de Edgar Morin, Antonio Damásio, Daniel Kahneman, Dan Ariely, Pascal Engel, Howard Gadner e Ryan Holiday. Para o organizador, tem como propósito “criar um verdadeiro tratado sobre a estupidez humana”, ou como se disse, uma antologia sobre este que é  um dos males intemporais da humanidade.

Na apresentação, intitulada Os imbecis do apocalipse, Marmion se dirige aos “estúpidos de todos os tipos e imbecis de todas as espécies, cretinos de todo o mundo, estúpidos de toda laia (...) tristes bobocas (...) apavalhados e tolas, patetas e insensíveis, idiotas, charlatões, broncos, grosseiros e presunçosos, que (no livro) tem seu momento de glória: são os únicos assuntos, mas ressalta que “dificilmente se reconhecerão nestas paginas”.

No artigo O estudo científico dos estúpidos (p.15-24) Serge Ciccotti, psicólogo e pesquisador associado da Université de Bretagne-Sud (França) indaga inicialmente se é possível estudar cientificamente os estúpidos e afirma que sim: “Na verdade, quando nos interessamos pela literatura científica no domínio da psicologia, a estupidez é, de modo geral, bastante estudada” E que é possível “traçar um perfil típico do estúpido quando selecionamos certas variáveis estudadas em diferentes pesquisas” e assim “teremos uma ideia relativamente precisa do estúpido, do sem noção, com atenção e intelecto bastante limitado”.

Pascal Engel, Filósofo e diretor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (França) no artigo Da burrice à tolice (pgs.47-55), afirma que a produção da tolice (e da ignorância), que era endêmica na imprensa, tornou-se pandêmica nas mídias, na internet e nas redes sociais e faz parte do que passamos a chamar de era da ‘pós-verdade’, a qual poderia muito bem ser apelidada de a era da tolice: a produção de um tipo de discurso e de pensamento que não se preocupa mais em saber se há verdade no que foi dito, mas leva em consideração o efeito produzido” (p.54-55).

É evidente que o conjunto dos artigos não esgota o tema. Há publicado em português diversos livros  que tratam do tema, como entre outros, O homem medíocre de José Ingenieros (publicado em 1913 e com diversas edições no Brasil), Manifesto aberto à estupidez humana (Ezio Flavio Bazzo, Lillith publicadora & Cia, 1987), As leis fundamentais da estupidez humana (Carlo M. Cipolla,  Edições Texto& Grafia,  Lisboa, 2008), Sobre a estupidez (Roberto Musil, Editora Âyiné,  2016), A construção intencional da ignorância: o mercado das informações falsas (Ana Regina Rêgo e Marialva Barbosa, Editora Mauad, 2020) e a Construção do idiota. O processo de idiossubjetivação (Rubens Casara, Editora da Vinci, 2024).

 Há, portanto, muitas possibilidades de análises e antecede os dias atuais. Epicuro de Samos (341 a.C.-271 a.C.) filósofo grego do período helenístico, por exemplo, afirmou que a ignorância era um terrível mal da humanidade e a estupidez era - e continua sendo – uma das mais mortíferas armas ao alcance do ser humano, a epidemia mais devastadora e que hoje ganhou enorme fôlego com as redes sociais. 

Em relação à política, a ignorância tem contribuído para apoiar e/ou eleger tiranos, populistas e demagogos e não apenas na Antiguidade Clássica  mas também  nos dias de hoje, inclusive em países democráticos. O modus operandi que os identificam é o uso sistemático da mentira, estupidez sobre a ciência, cultura etc., dirigidas não apenas aos ignorantes, mas sabendo que é justamente entre estes que têm mais eficácia e se beneficiam com o uso de novas tecnologias, como a internet e as redes sociais. Nelas, encontram um público receptivo que revelam a ausência de discernimento. Mas não são apenas constituídos por ignorantes, como disse o escritor português Paulo Nóbrega Serra ao comentar, em junho de 2021, a publicação do livro em Portugal “a estupidez é bastante sutil, e não se reduz a uma falta de inteligência. O que não falta são pessoas instruídas a negarem a vantagem de se vacinarem, a subscrever teorias da conspiração, a votar em mentecapto, e a defender que a terra é plana” (https://palavrassublinhadas.com/a-psicologia-da-estupidez-organizado-por-jean-francois-marmion/).

Há muitos exemplos na História e no Brasil, e na política em particular. Basta citar, entre outros, as menções à fraude eleitoral (sem qualquer evidência ou prova) que serviram de estímulo para mobilizar os apoiadores do ex-presidente Bolsonaro e entre suas consequências,  tentativas de golpe para instaurar uma ditadura no país.

Como alguém acredita em tantas mentiras? A ignorância certamente é um dos fatores relevantes para se compreender. Ignorância no sentido atribuído por Peter Burke no livro Ignorância; uma história global (Editora Vestígio, 2023) como a ausência ou privação de conhecimento que é “muitas vezes invisível para o indivíduo ou grupo ignorante, mas que tem consequências graves”.  

Vejamos o caso da pandemia da covid-19 e os (maus) exemplos de Donald Trump e Jair Bolsonaro, nos Estados Unidos e Brasil, respectivamente para ficar apenas nestes dois. Ambos de extrema direita e negacionistas, que antes e durante os mandatos fizeram frequentes ataques à ciência (e ao bom senso) e em seus países com acusações de que contribuíram para milhares de mortes evitáveis. No caso do Brasil, o relatório Mortes evitáveis por covid-19 no Brasil, publicado em junho de 2021, elaborado com o apoio do Idec – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor e da Oxfam Brasil, com a participação de várias organizações como o Inesc –Instituto de Estudos Socioeconômico e a SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, afirma entre outras coisas que “Ao recusar o enfrentamento da Covid-19 em nome da ‘saúde’ da economia, o governo federal se tornou cúmplice de mortes que poderiam ter sido evitadas e não logrou reverter à recessão econômica. Essa escolha política nos conduziu para uma situação na qual não dispomos de políticas efetivas contra a Covid-19, nem obtivemos melhorias nas taxas de emprego e renda”.

E mais: Ao invés de recomendações para a ampliação de medidas de proteção populacional e individual, conforme preconizado pela comunidade científica e agências internacionais, prevaleceram à ignorância, ataques à ciência e às experiências históricas de enfrentamento de epidemias e o relatório ainda acusava, naquele momento, que estava em curso um verdadeiro genocídio dos mais pobres, à medida que a epidemia avançava nas periferias e favelas, nos asilos de idosos, nas aldeias, nas comunidades tradicionais e nos presídios. (O relatório, com 56 páginas, está disponível em https://idec.org.br/sites/default/files/mortes_evitaveis_por_covid-19_no_brasil_para_internet_1.pdf).

De acordo com Pedro Hallal, epidemiologista e pesquisador (e ex-reitor) da Universidade Federal de Pelotas, ao participar de uma audiência da CPI da Pandemia no Senado no dia 24 de junho de 2021, com base em uma pesquisa coordenada por ele Evolução da Prevalência de Covid-19 (Epicovid), que mapeou o desenvolvimento do coronavírus no Brasil desde o início da pandemia “quatro em cada cinco mortes pela doença no país eram evitáveis caso o governo federal tivesse adotado outra postura — apoiando o uso de máscaras, medidas de distanciamento social, campanhas de orientação e ao mesmo tempo acelerando a aquisição de vacinas. Ou seja, de acordo com suas estimativas, pelo menos 400 mil pessoas não teriam morrido pela pandemia”. (https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2021/06/24/pesquisas-apontam-que-400-mil-mortes-poderiam-ser-evitadas-governistas-questionam)

O que se pôde constatar é que houve uma articulação entre uma política deliberada, intencional e a difusão da ignorância, no qual as vacinas foram questionadas em relação à sua eficácia. No Brasil, o então presidente da República fez até alusão a possível transmissão da AIDS pela vacina (ver matéria https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/10/bolsonaro-faz-associacao-absurda-e-falsa-entre-aids-e-vacina-de-covid-dizem-especialistas.shtml) e até a possibilidade de se transformar em um jacaré... (Em dezembro de 2020, ele questionou a gravidade da pandemia que naquele momento já tinha deixado 185 mil  mortes “Tomando como exemplo a  vacina da Pfizer/BioNtec afirmou que não havia garantia de que ela não transformará quem tomar em “um jacaré”) (https://www.cartacapital.com.br/politica/bolsonaro-sobre-vacina-se-voce-tomar-e-virar-um-jacare-e-problema-seu/foi). O problema é que a irracionalidade, as crenças irracionais, como disse Brigitte Axelrad, professora honorária de filosofia e psicologia (Por que pessoas muito inteligentes às vezes acreditam em disparates?) podem ser perigosas somente para aqueles que nelas acreditam, mas podem ter consequências graves para muita gente por influência, sugestão ou proselitismo de líderes que essas pessoas acreditam sem questionar a veracidade do que dizem (e fazem).

E foi além, indicando – e mandando o Exército fabricar - remédios sem qualquer eficácia para a covid, como a hidroxicloroquina. Segundo matéria publicada na CNN Brasil no dia 25 de maio de 2021, a produção de compridos de cloroquina pelo Laboratório Químico Farmacêutico do Exército (LQFEX) em 2020 foi multiplicada por mais de 12 vezes e passou de 3,2 milhões de comprimidos, quando teve início a pandemia da Covid-19 e que entre os meses de setembro de 2020 e janeiro de 2021, o governo federal distribuiu 482 mil doses de hidroxicloroquina para tratar pacientes com Covid-19 (https://www.cnnbrasil.com.br/politica/exercito-multiplica-producao-de-cloroquina-por-12-vezes-em-2020/).

O mais grave é que se sabia na época (e antes) que a vacina salvou (e continua salvando) milhões de vidas. Questionamentos às vacinas muitas vezes baseadas em casos isolados de algumas consequências, ignorando os milhares de estudos científicos disponíveis (relatórios de pesquisas, livros, ensaios, artigos etc., sobre a importância - e necessidade - de vacinas e em especial em uma pandemia).

E a difusão de mentiras sobre vacinas, reveladores de ignorância, foram sistematicamente compartilhadas em grupos de Whatsapp, Instagram, Facebook etc., levou milhões de pessoas a não se vacinarem. O fato é que mesmo com mais de 750 mil mortes no país mensagens nos grupos bolsonaristas, mais fundamentadas na ignorância do que na ciência,  afirmavam que remédios como ivermectina e cloroquina curavam a Covid-19  e continuaram circulando mesmo considerando os muitos estudos científicos negarem qualquer eficácia desses medicamentos. 

De acordo com o relatório final da CPI da Pandemia (com 1.289 páginas), apresentado no dia 26 de outubro de 2021, a comissão, entre outras coisas, afirma que o governo federal agiu de forma negligente no enfrentamento da pandemia, priorizou o “tratamento precoce”, sem amparo científico de eficácia, o desestímulo ao uso de medidas protetivas, atrasou deliberadamente a compra de vacinas, além de incentivar aglomerações, espalhando informações falsas sobre a Covid-19, ou seja, o então presidente sempre falou (e agiu) em total confronto com as medidas de proteção, e usou palavras como histeria e fantasia e até gripizinha em relação à covid-19. 

 O resultado de uma pesquisa publicado na  Revista Cadernos de Saúde Pública (dia 20 de maio de 2024) mostraram uma de suas consequências: foram exatamente nos municípios onde Bolsonaro teve mais votos que  registraram mais mortes por covid (descaso,  propagação de mentiras sobre vacinas, descrença sobre a pandemia, críticas ao uso de máscaras etc).

Enfim, mentiras e falsas alegações sobre vacinas, urnas eletrônicas etc., dirigidas e assimiladas por um grupo expressivo de pessoas, que insuflou atos como os do dia 8 de janeiro de 2023, e que foram antecedidas pelos ataques à ciência, a cultura, defesa de medicamentos sem qualquer eficácia para curar a covid etc.,, que circulou nas redes sociais, estimuladas pela ignorância, dando razão ao filósofo grego Epicuro ao dizer que a ignorância é um terrível mal da humanidade e a estupidez a epidemia mais devastadora.

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