O medo, a ignorância e a maledicências no debate sobre as drogas
Natal, RN 25 de jul 2024

O medo, a ignorância e a maledicências no debate sobre as drogas

1 de julho de 2024
5min
O medo, a ignorância e a maledicências no debate sobre as drogas

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Pedro Chê

Independente da opinião de cada um, o que mais faz falta no debate sobre a questão das drogas é o compromisso com a racionalidade. Ao invés de discutirmos de forma madura, aprendendo com as experiências de outros países e analisando os problemas decorrentes de nossas escolhas até aqui, preferimos nos agarrar a nossos ‘achismos’.

E o ‘achismo’, primo-irmão da ignorância, vem nadando de braçada no país, muitas vezes incentivado por políticos que buscam manipular a ‘opinião pública’ a partir do medo legítimo (de ter alguém próximo viciado em substâncias). Esses políticos, buscando benefícios próprios, iludem (talvez a minoria seja ignorante ao ponto de não entender, mas não passa disso) para angariar mais apoio e votos, estimulando políticas historicamente fracassadas ao preço do sofrimento do povo e das famílias.

O oportunismo e a maledicência desses formadores de opinião, especialmente na improdutiva ‘bancada da bala’, giram em torno de uma ideia falsa: a de que o debate é realizado entre os que seriam ‘contrários’ às drogas, e os que seriam ‘a favor’. Essa ideia é de tal forma desonesta que o mais ajuizado seria negá-la por inteiro, pois não apenas essa disputa é falsa, como não dá para concluir de qualquer um desses ‘dois lados’ exista de forma coerente na discussão.

Por exemplo, como você a posição política de ser ‘contrário’ às drogas? A definição mais direta seria “aquela contrária ao consumo e à regulamentação de qualquer substância hoje ilícita”. Certo, mas seria uma postura ‘contra às drogas’ fechar os olhos para os números e a realidade que demonstram que o consumo de drogas legalizadas produz danos muito maiores? Parece incoerente. Então, devíamos ampliar para “aqueles contrários ao consumo de quaisquer substâncias que influenciem no comportamento, consciência, ou a psique”? Seguindo esta lógica, isso incluiria tanto a cafeína, como milhares de fármacos vendidos nas drogarias. Poderíamos ir ainda mais longe, mas o texto não suportaria.

Além de entendermos o objeto da ‘contrariedade’, precisaríamos definir as formas de enfretamento. Penas mais duras? Internação compulsória? Acolhimento psicossocial? Medidas educativas de prevenção? Redução de Danos? As abordagens são tão diversas, que é difícil acreditar numa fórmula que defina o que é ser do time ‘contra’ às drogas.

Se foi complicado analisar o que poderia ser entendido como ‘contrário’, te advirto que o pior virá: como entender o que seria ser ‘favorável’. Dentro do que vendem certos políticos da ‘bancada da bala’, ser ‘favorável’ “seria almejar uma sociedade de ‘viciados’”. Honestamente, é um desafio encontrar razoabilidade neste desejo até em quem lucre diretamente com esse comércio ilegal. Ninguém, a menos que seja completamente insano, quer isso – por exemplo – para os seus filhos. Além disso, até para operar logisticamente seria um desafio, tendo de lidar com furos gigantescos de estoque (consumo seria alastrado entre os recrutados) e convivendo com crise no setor de recursos humanos. Não se engane, em algumas escalas o crime é sofisticadíssimo, contado com quadros extremamente especializados. Qualquer pessoa que ganhe rios de dinheiro, mesmo com atividades ilegais, precisará de uma sociedade funcional para usufruir desses ganhos, e isso dificilmente seria possível nesse modelo de ‘sociedade de viciados’.

Aliás, apontar para uma futura ‘sociedade de viciados’ é ignorar o passado e o presente. Se o parâmetro para estabelecermos uma ‘sociedade de viciados’ for o consumo, temos 67% da população adulta usuários de álcool, quase 20% de fármacos com grande potencial viciante, enquanto a maconha responde por 3%, e o crack, por 0,2%.

No time ‘a favor’ ainda estariam as pessoas que precisam em virtude de questões terapêuticas, mas não tem R$ 2.400,00 para pagar num frasco de remédio importado? Como aqueles que entendam que uma política proibicionista – que coloca a polícia como ator central do ‘combate’, ao invés da saúde pública – é prejudicial ao povo, favoreça à corrupção das instituições e o fortalece as organizações criminosas?
Nossa irracionalidade não está em adotar uma posição ou outra (há perspectivas restritivas baseadas em bons fundamentos), mas em tratar essa discussão como uma disputa entre o ‘bem e o mal’, como se vivêssemos em um filme. Permitindo que algo tão sério como a política seja feita com bases ‘demonizações’, sem considerar estudos, análises, e experiências bem-sucedidas ou fracassadas de outros países. Agimos como se o problema fosse ‘sumir’ apenas por que desejamos, desconsiderados os possíveis danos que ações descuidadas podem causar. Não podemos esquecer “de boas intenções o inferno já está cheio”.

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