“Sensação de luto”, diz pesquisador sobre resultado do caso Gabriel
Natal, RN 15 de jul 2024

“Sensação de luto”, diz pesquisador sobre resultado do caso Gabriel

5 de julho de 2024
4min
“Sensação de luto”, diz pesquisador sobre resultado do caso Gabriel
Foto: reprodução

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O pesquisador José Rolfran Tavares definiu como uma “sensação de luto” o resultado do júri popular do caso Giovanni Gabriel de Souza Gomes, que encerrou nesta quinta-feira (4) com a absolvição dos quatro policiais militares acusados do crime. Ele esteve acompanhando os dias de julgamento ao lado de familiares e movimentos sociais e esperava ver a responsabilização dos PMs.

“Eu ainda estou me recompondo na sensação de luto pós término desse júri. Porque eu e muitos companheiros e companheiras que o acompanharam como um marco na luta contra o extermínio da juventude negra esperávamos que dele saísse uma mensagem positiva pelo fim da truculência policial que vitima tantas pessoas que tem tanto a viver no nosso estado e no nosso país. Mas infelizmente não foi essa a resposta que a gente teve”, disse Rolfran.

Ele comentou que nesta quinta, no dia do resultado, havia um clima de muita animosidade, inclusive com a chegada de um ônibus do BOPE com muitos policiais, somado aos agentes que já estavam lá. 

“A gente sabia que o resultado era um recado para as polícias do estado. Infelizmente não foi o recado que a gente gostaria que fosse passado. Foi muito duro ver a família sendo submetida a isso, porque se para a gente que está prestando solidariedade por conta do nosso posicionamento político, nossas percepções enquanto pesquisadores e pesquisadoras sobre segurança pública, que é o meu caso, imagina as pessoas que perderam um ente querido e que estavam ali tentando ter um mínimo de reparação através da condenação das pessoas que foram investigadas e apontadas como acusados”, refletiu.

O pesquisador, entretanto, diz que viu algo de excepcional nesta vez: o interesse das pessoas para que as coisas ocorressem de uma forma diferente. 

“E só ele [o caso] ter chegado no júri cria essa referência de possibilidade de luta contra o extermínio da juventude negra através da truculência policial. Porém, o resultado mostra que a gente ainda tem muito a fazer. Que, para além dos atos dos policiais, há toda uma estrutura burocrática, inclusive expressa através do Poder Judiciário, que mantém as coisas do jeito que estão sendo mantidas”, aponta José Rolfran Tavares.

O pesquisador fez um estudo etnográfico nas periferias ao oeste de Parnamirim para o seu mestrado em Antropologia Social, defendido em 2021. No final de maio, em entrevista à Agência Saiba Mais, Rolfran disse ter percebido que a forma como as pessoas lidam com a mortandade da juventude na região em que Gabriel foi capturado pelos policiais mudou a partir deste caso.

Nas idas à campo, Tavares constatou que as pichações no território referentes a homicídios de jovens deixaram de informar somente sobre o luto e sobre a tristeza dos familiares e amigos próximos; passaram também a questionar a autoria de outros crimes.

“E essa alteração tem a ver com essa mobilização do caso Giovanni Gabriel e do conjunto de outras mobilizações que aconteceram naquele momento no Brasil e no mundo”, disse José Rolfran, lembrando também do caso George Floyd nos Estados Unidos.

“Aqui no Rio Grande do Norte, o caso que exemplificou a truculência policial, o processo de desvalorização das vidas negras, foi o caso de Giovanni Gabriel”, apontou, na entrevista anterior.

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