Juliana Soares diz que recebeu ameaça falando em “dobrar a agressão” que sofreu
“Eu recebi uma ameça na internet de uma pessoa dizendo que ia dobrar a agressão que eu sofri”. A revelação foi feita pela estudante Juliana Soares, 35, em entrevista ao programa “Encontro”.
Ela relatou que, recentemente, recebeu uma mensagem pelas redes sociais de alguém avisando que iria agredi-la com 121 socos quando viesse a Natal. O recado intimidatório a fez relembrar da tentativa de feminicídio que sofreu, no dia 26 de julho, quando foi violentamente agredida com 61 golpes aplicados pelo seu ex-namorado, Igor Cabral, dentro do elevador de um condomínio no bairro de Ponta Negra.
“Isso mexeu muito comigo, me deixou muito angustiada em saber que tem pessoas que ainda pensam desse modo. Eu não posso nem contar ao vivo o que me falaram, mas era algo referente a dobrar a agressão que eu sofri. Literalmente dizendo que viria a Natal para me dar 121 socos”, contou.
Juliana também disse que ainda lida com as marcas psicológicas provocadas pelo trauma que viveu. “Estou sempre em estado de vigília”, revelou, acrescentando que desenvolveu alguns comportamentos que não apresentava antes da tentativa de feminicídio.
A estudante contou que está tendo acompanhamento médico, psiquiátrico e psicológico para lidar com a fase do pós-trauma, tanto do ponto de vista físico como também emocional, mas entende que esse processo é demorado.
“Fisicamente falando, ainda estou no processo de cicatrização. Eu fiz a cirurgia tem menos de um mês, então é tudo muito recente, as coisas ainda estão se ajustando. Foi uma cirurgia de reconstrução facial, isso é uma coisa muito grande, um procedimento muito grande. Tive uma consulta de retorno, já saí sabendo da necessidade de fazer outra cirurgia, porque eu já tinha desvio de septo, mas devido à agressão, minha respiração ficou muito comprometida”, detalhou.
Estudante se chocou com comentários negativos quando apareceu sem máscara
A violência também impactou a autoestima de Juliana. Essa, segundo ela, era a razão de usar uma máscara durante a entrevista.
“Eu uso a máscara no sentido de me sentir mais confortável mesmo. Tudo isso que passou mexeu muito com a minha autoestima e por mais que o meu corpo esteja respondendo muito bem, eu ainda me sinto insegura”, admitiu.
Ela disse que, recentemente, fez uma aparição pública sem máscara, quando foi homenageada na Câmara Municipal de Natal (CMN), mas se chocou com os comentários negativos que recebeu na internet.
“Eu li através das redes sociais comentários negativos em relação à recuperação. As pessoas têm uma certa dificuldade de entender que o tempo de cicatrização demora e que isso afeta a nossa imagem e também o nosso processo de cura psicológica”.
Antes de atacar a ex-namorada, Igor disse que Juliana morreria

Juliana relembrou que, antes de atacá-la com 61 socos no elevador, Igor tinha dito que ela morreria. “Ele expressou isso verbalmente”, reiterou.
A estudante detalhou que, no dia do episódio, ela e o então namorado estavam na área de lazer do condomínio com um amigo. Enquanto esperavam a chegada de outras pessoas, Igor pediu para ver o celular de Juliana.
“Entreguei meu celular pra ele, até porque não tinha nada que comprometesse e, mesmo se tivesse, não justificaria a tentativa de feminicídio. Eu mostrei pra ele, mas ele não ficou feliz com o que viu, se sentiu contrariado de algum modo e jogou meu celular na piscina”, relatou.
De acordo com Juliana, depois da cena de protagonizar a cena de ciúmes, Igor passou correndo em direção ao bloco onde fica o apartamento dela.
“Eu fui atrás dele, porque eu sabia que ele ia subir pro apartamento. Aí eu entrei por um elevador, ele entrou em outro e a gente se encontrou lá em cima. Ele ficou tentando me convencer a sair do elevador, mas eu disse que não sairia porque no corredor não tinha câmera. Eu senti que ele estava agressivo e se eu saísse de lá, eu não teria como provar”, contou.
Ela disse esperar que seu agressor “pague a pena pela tentativa de feminicídio e continue preso”. Igor Cabral, atualmente, está detido na Cadeia Pública de Ceará-Mirim.
Juliana diz que tem a “missão de conscientizar” outras mulheres
Juliana afirmou que vem tentando ressignificar o que viveu, no sentido de aproveitar a visibilidade que o caso lhe deu para ajudar outras mulheres que são vítimas das mais diferentes formas de violência.
“Muitas mulheres não têm acesso à informação, pensam que a violência só acontece quando existe agressão física, mas existem vários níveis de violência. A violência às vezes começa com uma resposta, uma palavra, um gesto que nem sempre é uma agressão física. A gente precisa ficar atenta a esses sinais”, alertou.
Juliana destacou que quer usar a sua exposição, principalmente através das redes sociais, para “conscientizar as mulheres” sobre a importância de “não ficarem num lugar onde elas não estiverem sendo bem tratadas ou confortáveis”, além de saberem que podem “se levantar” para sair de uma relação abusiva.
“Hoje, eu entendo a importância do meu papel de passar essa informação que se eu consegui, outras mulheres também conseguem. Então assim, para eu me ressignificar, as coisas estão se tornando menos difíceis, porque eu estou muito ocupada com essa missão de dar voz às mulheres que não têm a rede de apoio que eu tive. Foi muito difícil, mas minha rede de apoio foi de suma importância, porque eu sabia que tinha com quem contar e para onde ir”.
“Nós somos vítimas, não coitadinhas”, diz Juliana
Juliana estimulou as mulheres a não se calarem, a não terem vergonha de procurar ajuda e a entenderem que elas são “vítimas, mas não são coitadas”.
“É importante que a mulher se empodere disso, que ela não é uma coitadinha, ela é uma vítima, mas que a gente pode dar a volta por cima”, defendeu, pregando também a necessidade de “vigiar sempre o comportamento” do parceiro para ficar se atentar “aos sinais” de abuso.
“O amor não machuca, ele cuida, trata bem e é agradável. Então, qualquer sinal que você sentir que é o contrário disso, se afaste, porque às vezes pode ser que você não tenha uma segunda chance como eu tive”, refletiu.
“O ciclo do abuso não é simples como as pessoas imaginam”, observa Juliana
Ela relembrou que, antes da tentativa de feminicídio, já sofria com a violência psicológica do seu ex-namorado: “Ele tentava me convencer que eu não merecia amor, que não era uma pessoa digna e me desmerecia fisicamente, dizendo que eu não era bonita e que, se ele não me quisesse mais, ninguém iria me querer”.
Apesar da violência psicológica, Juliana disse que não imaginava que a situação escalaria para uma tentativa de feminicídio. Ela ressaltou que “o ciclo do abuso não é simples como as pessoas imaginam”, porque a relação “não é ruim o tempo inteiro”.
“Existem os momentos bons, porque o abusador precisa envolver você, ele precisa te manter ali, se for ruim o tempo inteiro você vai sair. Durante o ciclo, existe a chamada ‘lua de mel’, que é a fase dos momentos bons, felizes, em que ele te enaltece, porque se for ruim o tempo inteiro, ninguém fica preso a isso”, explicou.
Psicóloga alerta para perpetuação do “ciclo do abuso”

A psicóloga Samantha Marinho detalhou que o “ciclo abuso” a que Juliana se refere ocorre quando o agressor, após cometer o ápice da violência, se mostra arrependido, faz promessas à vítima e a leva a acreditar que a agressão foi um incidente isolado.
O ciclo se repete, explicou, com a violência escalando gradualmente, começando com o ciúme, passando para a pressão psicológica e chegando à violência física, perpetuando o abuso.
“Essa fase da lua de mel é quando o parceiro diz que o que aconteceu foi um mero rompante, responsabiliza a parceira pela reação dele, mas diz que não era o que ele queria fazer. Ele vem com flores, com promessas e sempre de um lugar muito carinhoso, levando a mulher a acreditar que aquela violência foi verdadeiramente um fato isolado. A tendência é que, nesse ciclo abusivo, esses momentos de violência ganhem uma dimensão cada vez pior”, pontuou.
O que muitas vezes começa com uma crise de ciúmes, prosseguiu a psicóloga, rapidamente evolui para um “segurar mais forte pelo braço, depois vira uma pressão psicológica, em seguida surgem as falas depreciativas, às vezes envolvem também a violência patrimonial e, finalmente, chega à violência física propriamente dita”.
Quando a “linguagem do amor” vira a “linguagem da violência”
Samantha apontou ainda que, às vezes, o que impede a mulher de reconhecer esse “ciclo do abuso” são os “padrões antigos de relacionamentos ou mesmo os padrões de vida, onde as referências dela sempre foram relações mais violentas”.
“Às vezes, com a própria família, essa ‘linguagem de amor’ sempre foi uma linguagem mais violenta. Então, ela acha que o normal, dentro do que ela conhece socialmente, é a mulher sofrer, se submetera esse tratamento, porque se ela não se submeter a isso, ela não vai ser amada”.
A psicóloga também sublinhou que a mulher, em muitos casos, não sai desse ciclo de violência porque esse padrão de relação costuma ser normalizado pela sociedade, fazendo com que ela acredite “as coisas são assim mesmo”.
Samantha defendeu que é preciso popularizar as diferentes formas de abuso, assim como o que são “falas machistas e misóginas”, para que as mulheres reconheçam quando estiverem sendo vítimas de uma violência. Ela também frisou que nós, enquanto sociedade, precisamos “criar mais mecanismos de empoderamento feminino”.
“Isso é fundamental para que a mulher reconheça o quanto antes que está em uma relação abusiva e consiga colocar um limite logo no início, porque na hora em que ela já está envolvida emocionalmente, que esse ciclo já está estabelecido, é muito mais difícil sair, até porque nós estamos falando de relações com um alto cunho de dependência emocional. O processo terapêutico nesse sentido é muito importante também para que a mulher reconheça essa dependência emocional, consiga adquirir outras ferramentas de autonomia para sair dessa relação e tenha outros padrões de relações mais saudáveis”, completou.
Violência doméstica é um “fenômeno multifatorial e comportamental”

A psicóloga especialista em relacionamentos Stephanie Morais, que atende vítimas de violência doméstica, além de capacitar profissionais para trabalharem nessa área, destacou que a violência doméstica é “um fenômeno multifatorial e comportamental, que apresenta vários atravessamentos”.
Ela atuou durante sete anos no Centro de Referência Mulher Cidadã Elisabeth Nasser, um equipamento público da Prefeitura de Natal, localizado na Zona Norte, que presta atendimento psicológico, social e jurídico às mulheres vítimas de violência doméstica.
A profissional ressaltou a importância de ampliar a rede de acolhimento, atendimento e proteção para que as mulheres saibam que podem recorrer ao poder público para obter apoio.
“Temos o Centro de Referência Mulher Cidadã Elisabeth Nasser, um serviço municipal especializado no atendimento à mulher em situação de violência, além da Casa Abrigo Clara Camarão, para acolher mulheres que correm risco eminente de morte, que recebe mulheres de Natal e Parnamirim. As mulheres também têm acesso hoje em dia ao ‘Botão do Pânico’, ao acompanhamento da Patrulha Maria da Penha e ao boletim online nas Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher [Deam]”, enumerou.
Stephanie, no entanto, disse que essa rede de proteção precisa avançar em nível estadual. Ela citou a Casa Acolhimento Anatália de Melo Alves, localizada em Mossoró, mas observou que o equipamento é insuficiente para atender a demanda de todas as regiões do Rio Grande do Norte.
“A proposta do Governo do Estado é a criação da Casa da Mulher Brasileira, que, segundo foi anunciado, já possui recursos para a obra, mas ainda não sabemos quando será construída. A gente está na expectativa, porque seria um equipamento que concentraria vários serviços de atendimento às mulheres”.
Governo do Estado anunciou assinatura de contrato para construção da Casa da Mulher Brasileira em Natal

O Governo do Estado, através da Secretaria de Mulheres, Juventude, Igualdade Racial e Direitos Humanos (Semjidh), anunciou no início de janeiro que firmou o contrato de repasse com a Caixa Econômica Federal para a construção da Casa da Mulher Brasileira em Natal.
O investimento, segundo o governo estadual, será de R$ 19 milhões. O equipamento é um dos principais eixos do Programa Mulher Viver sem Violência, retomado no início de 2023 pelo Ministério das Mulheres.
A Casa da Mulher Brasileira, ainda segundo o governo estadual, será erguida em local estratégico da capital potiguar e abrigará uma ampla rede de serviços integrados para acolhimento e atendimento às mulheres.
Entre esses serviços previstos estão delegacia especializada, vara judicial, Ministério Público, Defensoria Pública, atendimento psicossocial e apoio para inserção no mercado de trabalho, além do serviço de abrigo temporário de até 48h para mulheres em situação de violência, acompanhadas ou não de seus filhos, que corram risco iminente de morte.
A governadora Fátima Bezerra (PT) enfatizou a assinatura do contrato para a construção da primeira Casa da Mulher Brasileira do RN era um “ato histórico”.
Ela disse que a ação se somava a outras iniciativas em curso, como a criação de sete novas Delegacias de Atendimento à Mulher, a estruturação e avanço da Patrulha Maria da Penha, a criação do Departamento de Proteção a Grupos em Situação de Vulnerabilidade (DPGV) da Polícia Civil e a criação de um núcleo voltado exclusivamente ao feminicídio.
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