Praias de três cidades do RN estão entre as mais poluídas por plástico no Brasil
O estado do Rio Grande do Norte enfrenta uma crise ambiental, com três de suas cidades – Extremoz, Natal e Baía Formosa – figurando entre as cinco com praias mais poluídas por macrorresíduos plásticos (que incluem grandes pedaços de plástico, como garrafas e sacolas) no Brasil. É o que aponta um estudo da ONG Sea Shepherd Brasil, em parceria com o Instituto Oceanográfico da USP, publicado na última quinta (19).
Os dados expõem a severidade da poluição nas praias potiguares e reforçam a urgência de ações para combater o descarte desenfreado de plásticos no litoral potiguar.
A Praia de Santa Rita, em Extremoz, foi elencada como a quinta praia com maior densidade de macroplástico por metro quadrado em todo o Brasil. Esses resíduos, que podem levar séculos para se decompor, representam uma ameaça constante para a fauna marinha e para a saúde dos ecossistemas costeiros. Em 6º lugar está a Praia do Pontal, em Baía Formosa, com cerca de 5 macroresíduos por metro quadrado.
A Praia do Forte, em Natal, a capital potiguar, também aparece no estudo. Além de ser uma das que possuem a maior quantidade de macroplástico (39,83 por metro quadrado), ela ocupa a quinta posição no país em termos de densidade de microplásticos, pequenos fragmentos de plástico que são praticamente invisíveis a olho nu, mas que causam danos ambientais gigantescos.
Poluição nas praias do RN
Ao todo, 20 praias em 13 municípios do Rio Grande do Norte foram avaliadas durante a expedição, que percorreu mais de 7 mil quilômetros da costa brasileira, analisando 306 praias em 201 cidades do país. Os resultados são que 100% das praias brasileiras têm algum nível de poluição por plásticos, que representam 91% de todo o lixo encontrado no litoral.
O Rio Grande do Norte agora lida com o desafio de controlar a contaminação que afeta não só sua biodiversidade, mas também a economia local, fortemente baseada no turismo. Além de Natal, Extremoz e Baía Formosa, foram analisadas praias das cidades de Areia Branca, Parnamirim, Nísia Floresta, Porto do Mangue, Grossos, Tibau do Sul, Touros, Rio do Fogo e São Miguel do Gostoso.
No entanto, uma exceção notável foi a cidade de Guamaré, especificamente na Praia do Minhoto, que apareceu como uma das que menos apresentam macroplástico em nível nacional, o que a destaca positivamente em meio ao cenário estadual.
Esses microplásticos foram identificados em análises laboratoriais, que seguiram um protocolo rigoroso do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP). Eles são categorizados por cor, forma e tamanho, permitindo que sua origem seja traçada e reforçando a gravidade do problema de contaminação marinha.
A maré de plástico: uma crise nacional
O estudo da Sea Shepherd Brasil, intitulado Expedição Ondas Limpas, lançou luz sobre o tamanho do problema da poluição marinha no país. Ao longo de 16 meses, a expedição, considerada o maior estudo já realizado sobre resíduos sólidos nas praias brasileiras, revelou que o plástico é onipresente em todas as regiões costeiras. Bitucas de cigarro, apetrechos de pesca, embalagens descartáveis e até microplásticos acumulam-se nas praias, gerando uma crise sem precedentes para o meio ambiente.
“Pretendemos que os resultados do projeto não somente choquem, mas provoquem a ação, trazendo à tona a necessidade de políticas públicas e de uma mudança na cultura de consumo de plástico no Brasil”, alertou Nathalie Gil, presidente da Sea Shepherd Brasil.
No relatório, a presidente acrescenta que os resultados da pesquisa serão usados como uma maneira de alertar cidades pelo país a seguirem desenvolvendo suas políticas locais de gestão de resíduos e reciclagem, citando que a ONG já faz esse trabalho nas cidades de Anori, no Amazonas, e em Baía Formosa, no Rio Grande do Norte, com a ambição de expandir para mais localidades.
Para chegar a esses resultados, a expedição seguiu um método científico que utiliza peneiras e ferramentas específicas para coletar amostras de microplásticos em quadrados de 0,25 m². Os macrorresíduos foram pesados e categorizados no local, e os microplásticos enviados para análise laboratorial.
Cada área de pesquisa foi delimitada considerando a distância de interferências como barracas, entradas de praia, e também a linha mais alta da última maré e o início da zona de praia. Para a coleta de macrorresíduos, foram definidas 4 seções (bandas de 5 m de largura), distribuídas aleatoriamente ao longo da área de estudo (100 m).
O relatório final, que ainda terá um artigo científico detalhado, já está disponível neste link https://seashepherd.org.br/files/relatorio_olne.pdf, com diagnósticos e propostas de soluções para enfrentar essa crise ambiental.
O estudo também apresenta uma série de recomendações para combater a poluição plástica em todos os níveis de governo. Em âmbito federal, defende-se a criação de políticas nacionais de redução de plásticos descartáveis e de uso único, bem como o fortalecimento da fiscalização nas áreas de proteção ambiental e a inclusão da gestão de resíduos sólidos nos planos de manejo de unidades de conservação.
Nos níveis estadual e municipal, o documento sugere o desenvolvimento de planos de gestão específicos para microplásticos e macrorresíduos plásticos, além de campanhas de conscientização comunitária, educação sobre descarte consciente e a proibição de materiais plásticos descartáveis em áreas costeiras.
Apesar do estudo apresentar um ranking de praias e cidades mais poluídas, é importante considerar com cautela os resultados dessas análises mais focais, devido à menor representatividade do tamanho das amostras em algumas áreas. Ainda assim, os dados fornecem uma fotografia indicativa relevante para gestores locais, ajudando a orientar ações de limpeza e preservação.
A urgência da mudança
Os números são claros: o Brasil está em meio a uma crise de poluição marinha que exige uma ação imediata e coordenada entre governos, empresas e a sociedade.
“Esta parceria tem a importante missão de realizar uma leitura abrangente do perfil dos resíduos na costa do Brasil como nunca antes feita no mundo”, ressaltou Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da USP e coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano.
Para mais detalhes sobre o estudo e as ações propostas, acesse o relatório completo e interativo através deste link. A Sea Shepherd Brasil é uma organização sem fins lucrativos de proteção à vida marinha, fundada em 1999 pelo Capitão Paul Watson, também fundador do Greenpeace em 1971 e da Sea Shepherd Conservation Society, em 1977.
A luta contra a poluição nos oceanos continua e as soluções estão ao nosso alcance. Resta saber se estaremos à altura do desafio ou nos afogaremos em meio à uma maré de plásticos.