ENTREVISTA

Agora no PSB, Fernando Lucena justifica desfiliação do PT após 30 anos por divergências e perdas de espaço: “há hora de sair”

Fernando Lucena nasceu em Campina Grande, na Paraíba, em 1952 e aos 70 anos é um militante político em Natal autoproclamado “comunista-marxista-stalinista”. Começou sua carreira política no movimento estudantil, quando foi presidente de grêmio e diretor da Casa do Estudante de Caico, além de ter participado da reconstrução da UNE, em 1979. Em 1986 entrou na Companhia de Serviços Urbanos de Natal (Urbana) onde anos depois ajudou a fundar a Associação dos Serviços Urbanos, que depois veio a ser o Sindicato dos Trabalhadores de Conservação e Limpeza do Rio Grande do Norte (Sindlimp). Foi vereador em Natal pelo PT por quatro mandatos e não conseguiu reeleição em 2020. Tendo saído do PT após 30 anos de militância, nesta semana ele se filiou ao PSB, por onde vai disputar mandato de deputado estadual. Lucena, que é dirigente do Sindlimp, conversou com a reportagem da Agência Saiba Mais para falar sobre política, eleições, partidos e movimento sindical. Confira:

Agência Saiba Mais: Por que resolveu sair do Partido dos Trabalhadores, após trinta anos?

Fernando Lucena: Veja bem, o PT é um partido democrático, eu diria até que é o único partido realmente democrático do país, que tem correntes, mas não tem dono, não tem caciques. Mas é o seguinte… foram trinta anos no mesmo partido, completados agora em março, e eu fiz a minha parte durante este tempo. Foram 16 anos como vereador na Câmara, 10 deles sendo líder do partido, fiz defesa intransigente dos interesses do PT no Legislativo. E eu sempre disse e vou continuar dizendo que o PT é o partido que salvou o Brasil e que vai salvar novamente agora, com Lula sendo eleito presidente, e vou fazer campanha para Lula e votar nele. Mas, o fato é que se vai perdendo espaço dentro do partido. É uma questão natural. As divergências crescem e você vai avaliando que é hora de sair. Não sou pessoa de cuspir no prato onde comeu, continuo dizendo que o PT tem uma militância boa, é um partido democrático, mas há a hora de sair. E o PT vai cumprir uma tarefa gigantesca agora: derrotar a besta fera, que é Bolsonaro.

Por que escolheu o PSB como nova casa partidária?

O PSB é um partido forte no Rio Grande do Norte, que é aliado de primeira hora do PT e da governadora Fátima Bezerra, então continuarei na aliança, vamos estar juntos na mesma luta. No PSB me filiei em evento que trouxe a Natal lideranças nacionais como Marcelo Freixo e Alessandro Molon. É um partido forte e que terá o próximo vice-presidente da República, Geraldo Alckmin.

“E eu sempre disse e vou continuar dizendo que o PT é o partido que salvou o Brasil e que vai salvar novamente agora, com Lula sendo eleito presidente, e vou fazer campanha para Lula e votar nele. Mas, o fato é que se vai perdendo espaço dentro do partido. É uma questão natural. As divergências crescem e você vai avaliando que é hora de sair”

Chegou a conversar sobre sua saída do partido com a governadora Fátima Bezerra ou com o secretário chefe do Gabinete Civil, Raimundo Alves?

Não, não. Porque é o tipo de decisão que se toma conversando com nosso grupo. Não houve discussão nem conversa com ninguém do Governo nem do PT. Foi uma decisão unilateral, conversei com meu grupo, minha corrente e pronto.

Já no PSB, será candidato a algum cargo na eleição deste ano?

Sou pré-candidato a deputado estadual pelo PSB. Prego batido, ponta virada. É o meu acordo com o PSB e digo que vamos partir para ganhar. Não me candidato para perder. Ninguém se candidata para perder, quem entra em campanha quer ganhar. Posso até perder, mas só entro para vencer.

“Foi uma decisão unilateral, conversei com meu grupo, minha corrente e pronto”.

Qual a avaliação que faz da gestão do prefeito de Natal, Álvaro Dias?

A gestão Álvaro é muito conservadora, tendo em vista o que ele representa. É um governo da elite feito para a elite. Vamos falar sobre o Plano Diretor, que vai ser muito ruim para os mais pobres, que vai colocar uma peruca no Morro do Careca. Vai transformar a Cidade do Sol na ´Cidade da sombra`. Sobre o Plano Diretor, temos que falar mais sobre ele. A legislatura passada da Câmara de Natal, não é porque eu fazia parte dela, mas me parecia mais ativa. A oposição não pode aceitar essa imposição do Plano Diretor. Quando eu estava na Câmara, no último debate que travei, ameacei entrar na Justiça para impedir a aprovação do Plano Diretor em ano eleitoral.  Dizem que o debate sobre ele foi democrático, mas, não, não foi. A oposição teria que ter combatido e votado contra o Plano Diretor.

“Sou pré-candidato a deputado estadual pelo PSB. Prego batido, ponta virada. É o meu acordo com o PSB e digo que vamos partir para ganhar”.

E como avalia a gestão do Governo Fátima Bezerra?

Fátima pegou o Estado como uma massa falida, um verdadeiro “sucatão”. Mas eu diria que ela faz um governo mediano. Porém, sei que diante do caos que ele encontrou ela conseguiu avançar, embora tenha sido um avanço tímido, e eu falo isso não como político, mas como sindicalista, falo do ponto de vista dos trabalhadores. Ou seja, é um governo apenas mediano para a classe trabalhadora, mas bem melhor que os governos anteriores,

“A legislatura passada da Câmara de Natal, não é porque eu fazia parte dela, mas me parecia mais ativa. A oposição não pode aceitar essa imposição do Plano Diretor”.

Continua mantendo as críticas que fazia ao presidente Jair Bolsonaro?

Sim. Esse é um tsunami, um desastre! Bolsonaro deveria estar preso, o que já teria acontecido em qualquer outro país do Mundo. Ele é incompetente, irresponsável, desonesto e corrupto. Não tenho palavras para descrever o caos que é o Governo Bolsonaro.

Parte dos jornalistas e da classe política potiguar consideravam o senhor com postura e modus operandi diferentes de outros políticos e militantes do PT. O senhor percebia essa diferença ou era algo que fazia parte de seu universo de debates?

Porque na verdade eu nunca fui petista, eu era e sou comunista-marxista-stalinista. Mas no PT podemos atuar livremente, assim como o PSB, onde estou agora, é um partido extremamente democrático. Minha diferença com o PT é que era mais à esquerda, não sou trotskista, uma esquerda porra-louca, que parece com a burguesia. Defendo a esquerda revolucionária.

“Esse é um tsunami, um desastre! Bolsonaro deveria estar preso, o que já teria acontecido em qualquer outro país do Mundo”

A bancada do PT na Câmara de Natal já teve o senhor e outros nomes como Júnior Rodoviário, Hugo Manso, Fernando Mineiro. Hoje a bancada é formada por duas mulheres jovens, Divaneide Basílio e Brisa Bracchi. Mudou o eleitorado ou mudou o PT?

São mudanças naturais, entendo isso com tranquilidade. E quero dizer que Diva é uma grande vereadora. Estive vereador dois anos com ela já no mandato, ela conseguiu uma ótima votação e fizemos uma parceria boa. Diva veio do povo, diferente de outros vereadores que são bons companheiros, competentes, mas não vieram de camadas populares. Diva tem uma raiz popular. E sobre Brisa só a vi uma vez, não a conheço, não posso falar muito dela.

“Na verdade eu nunca fui petista, eu era e sou comunista-marxista-stalinista”

Como avalia a situação do movimento sindical nesse momento do país?

O Sindlimp saiu da CUT quando Lula propôs uma reforma sindical que eu rasguei na cara do presidente nacional à época. Sindicatos trabalhistas não podem se atrelar a tendências políticas, a partidos. Aqui no Sindlimp a maioria é de esquerda, mas posso garantir que tem gente de todos os partidos. Durante os catorze anos de governo do PT a CUT se acomodou. Depois veio o golpe contra Dilma Rousseff e desmantelou tudo. Aqui no Sindlimp não sentimos tanto o impacto, nosso sindicato continua firme e forte, tem raiz, e defendo que sindicatos devem ser financiados, bancados e dirigidos por trabalhadores. mas de maneira geral o movimento sindical perdeu muito com o golpe de Temer contra Dilma, depois reforma trabalhista e agora essa desgraça que é Bolsonaro. Com Lula a partir do ano que vem, o movimento sindical vai ganhar força, mas não pode ficar na cadeira giratória, tem que ir para a rua. Movimento sindical é na rua!

“O Sindlimp saiu da CUT quando Lula propôs uma reforma sindical que eu rasguei na cara do presidente nacional à época. Sindicatos trabalhistas não podem se atrelar a tendências políticas, a partidos”

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