CIDADANIA

Depois de derramamento de óleo em 2019, litoral potiguar é atingido por mais de duas toneladas de lixo de origem desconhecida

Somente durante esta sexta (23), autoridades e voluntários recolheram um total de duas toneladas de lixo apenas da praia de Búzios, em Nísia Floresta. Outros locais, como a praia de Tabatinga e o litoral de Baía Formosa, Canguaretama e Tibau do Sul, também foram atingidos. Ao todo, o lixo de origem desconhecida chegou a dez quilômetros do litoral entre Búzios e Tabatinga. Já foi contabilizada a morte de uma tartaruga marinha em decorrência dos detritos e os pesquisadores do Projeto Tamar ainda vão analisar se um golfinho também teria morrido por causa do acúmulo do lixo no mar. As primeira notificações da chegada do lixo foram registradas no dia 21.

“Vamos fazer uma nova vistoria neste sábado (24) pela manhã e observar se há uma área maior do que foi constatada até agora”, relata o secretário adjunto de Meio Ambiente e Urbanismo de Nísia Floresta, Bismarck Sátiro Pereira.

Entre o lixo depositado na areia das praias foram encontrados sapatos, resto de lixo doméstico como potes de margarina, sorvete, tampas e copos de plástico, garrafas pet, pedaços de roupa e até lixo hospitalar, como ampolas de sangue e seringas.

No último dia 21, cerca de meia tonelada de lixo já havia sido coletada na praia de Pipa, Tibau do Sul, em local utilizado pelas tartarugas marinhas para a desova. Além da contaminação da água e da areia, o lixo também é uma ameaça ao ciclo das tartarugas marinhas, que utilizam as areias de Búzios para desova entre os meses de novembro e julho.

Nós conseguimos comprovar que a área de Búzios é um berçário natural extremamente importante para as tartarugas marinhas e, em especial, para a tartaruga-de-pente, que não era registrada e nem fazia parte do banco de dados nacional. A praia toda é ocupada por essas tartarugas durante o período de desova, desde a formação do ninho até o nascimento dos filhotes, que ocorre cerca de 60 dias depois”, explica Lígia Rocha, bióloga, doutora em Ecologia pela UFRN e Coordenadora de Programas e Projetos na Ong Oceânica, que atua no local desde 2010.

O problema não é novo, a intensidade e frequência é que tem surpreendido os moradores. Pelo sistema de correntes marítimas, a praia de Búzios já costumava receber resíduos, inclusive, de origem internacional. A questão é que, dessa vez, a quantidade tem surgido de maneira preocupante, inclusive, pela presença de lixo hospitalar entre os dejetos.

“Não é só lixo doméstico e urbano daqui, mas também muito lixo vindo da África do Sul, Malásia, Índia e resíduos de alguns países da África. Infelizmente, isso sempre aconteceu. A quantidade está muito fora do padrão e tem lixo hospitalar no meio disso, o que é ainda mais preocupante! O plástico desse lixo tem um grande potencial de contaminação porque eles soltam várias moléculas poluidoras que ficam no ambiente. Ao se dividem, vão ficando cada vez menores e criando um grande emaranhado, como se fosse uma sopa de partículas cada vez menores com grande impacto no sistema. Temos animais filtradores que, ai invés dos alimentos, vão filtrar plástico. Também tem a questão física, há uma dificuldade maior para a locomoção e deslocamento dos animais marinhos entre esses dejetos, porque ficam mais expostos, e o risco de armadilhas”, lamenta Lígia Rocha.

Filhote de tartaruga marinha já morto encontrado por voluntários durante limpeza da praia I Foto: Marielli Guisso

Crise global?

Até o momento não se sabe a origem desse lixo e tem sido as prefeituras dos municípios, com a ajuda de moradores, que têm realizado a limpeza dos locais afetados.

“A sociedade civil organizada vem fazendo a parte dela. Os moradores locais andam sempre na praia com uma sacola na mão para apanhar possíveis resíduos. Mas, o que estamos vivendo é uma crise planetária e estamos tendo uma fração desse problema no nosso litoral. É preciso uma reflexão de quanto cada um está contribuindo com esse processo, porque a Terra é uma só. Não é só colocar o lixo pra fora da porta”, alerta a bióloga e Coordenadora de Programas e Projetos na Ong Oceânica.

Fardos misteriosos de origem desconhecida

Desde 2018, vários fardos de origem desconhecida chegaram a oito dos nove estados litorâneos do nordeste (RN, AL, PE, PI, MA, CE, SE e PB). Até hoje, não se sabe a origem do material, formado por uma espécie de borracha derivada do petróleo e látex natural, que libera substâncias tóxicas ao entrar em decomposição.

“Seria tão bom se houvesse uma investigação porque se há uma explicação, eu não sei. Isso é muito assustador. Algum grupo de pessoas muito fortes, não sei nem como definir, deve estar por trás disso, não é casual. É uma atitude criminosa bastante assustadora porque é muito triste porque ninguém investiga direito e a gente está sempre à mercê. Eu chorei hoje quando encontrei uma tartaruguinha já em decomposição”, relata Kelen Neuwirt, professora aposentada que deixou a agitação de São Paulo para morar na tranquilidade paradisíaca da praia de Búzios.

Foto: Tiago Lima

Derramamento de óleo sem culpados

Se em 2018 foram os fardos, em 2019 várias praias, principalmente do litoral nordestino, foram atingidas por petróleo cru. Foram cerca de cinco mil toneladas de óleo derramado no mar. Até hoje a investigação, conduzida pela Marinha do Brasil, não apontou responsáveis pelo desastre ambiental, que ainda chegou a atingir a costa do Espírito Santo e Rio de Janeiro.

Óleo recolhido durante o desastre ambiental de 2019
Praia de Búzios I Vídeo cedido

 

 

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