DEMOCRACIA

Entidades da cultura reagem à proposta de trocar nome da Ponte Newton Navarro para Wilma de Faria

O deputado estadual Coronel Azevedo (PSL) apresentou na sessão da última quinta (24), na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, um projeto de lei para mudar o nome da Ponte Newton Navarro para Wilma de Faria.

A ponte, que liga a Zona Norte de Natal aos bairros das Zonas Leste e Sul, começou a ser construída em 2004 e foi inaugurada em 2007. A proposta do deputado, que se elegeu durante a onda bolsonarista, foi criticada por entidades, artistas e jornalistas que trabalham com a cultura do Estado.

Capa do livro escrito por Sheyla Azevedo sobre Newton Navarro

Desrespeita não só a cultura, como a memória do Estado, no meu entendimento. Dona Salete, viúva de Newton Navarro, teve importante apoio do Conselho de Cultura, à época, quando fez a campanha para que a Ponte levasse o novo do marido. Qualquer pessoa que conheça minimamente a obra de Newton Navarro sabe de sua relação com a Redinha, com a Ribeira, com o mar e com o Rio Potengi, seja nos desenhos, seja na literatura. E o seu nome foi aceito não à toa. Dar o nome ‘Ponte de Todos Newton Navarro’ àquela obra grandiosa que durou três anos para ficar pronta e que liga a zona leste à norte da capital é homenagear, também, a memória daquela área que foi fonte de inspiração para tantas crônicas e romances dele. Inclusive, dona Wilma de Faria, que merece reconhecimento histórico por seu pioneirismo feminino na política potiguar, inaugurou a ponte com esse nome! E creio que o aval dela deveria ser respeitado”, relatou a jornalista Sheyla Azevedo, jornalista que em 2012 lançou um ensaio biográfico sobre Newton Navarro. O livro teve uma segunda impressão em 2013.

O Conselho Estadual de Cultura já se manifestou contra o projeto que propõe a troca do nome da Ponte. Em sua defesa, Azevedo argumentou durante a sessão que “[Wilma] foi a primeira mulher prefeita de Natal, primeira mulher reeleita governadora no Brasil, entre outros feitos“.

Para quem não sabe, Newton Navarro foi um artista de muitas faces. Foi poeta, escritor, desenhista, pintor, jornalista e dramaturgo. Sheyla Azevedo explica que ele foi o primeiro artista plástico potiguar a produzir uma arte que dialogava com o movimento modernista de 1922, que eclodiu em São Paulo e viria a se tornar um dos mais conhecidos movimentos culturais do país.

Ele foi morar em Recife (PE) muito jovem, onde dizem que foi fazer faculdade de Direito, mas não foi bem assim. Ele jamais frequentou aulas de Direito. Em Recife, e em contato com nomes como Lula Cardoso Ayres, Newton já sabia o que queria fazer: ser artista, pintar, escrever e levar alguma mensagem ao mundo por meio disso. Sua primeira exposição em Natal, em 1948, causou furor e, claro, resistência dos conservadores. No final do ano seguinte, em 1949, ele se juntou aos amigos pintores Dorian Gray e Ivon Rodrigues e fizeram o Primeiro Salão de Arte Moderna do RN. Tem noção disso? Os caras estavam revolucionando a forma de apresentar as artes plásticas, rompendo tabus e quebrando paradigmas de uma arte insípida e figurativa tão comum nos salões locais. Nos anos 1960 fez parte da equipe de cultura do lendário prefeito Djalma Maranhão, que fez nascer a Galeria de Arte Popular, um espaço que democratizava as artes e faz parte da história, como um dos momentos mais importantes que vivenciamos em termos de democratização dos espaços artísticos. A Galeria ficava na praça! Acessível a todos. Mas eu queria falar também do Newton Navarro escritor. Ele é mais conhecido pelas pinturas, gravuras, paineis e desenhos que fez. Mas Newton Navarro é um dos maiores escritores nascidos nessa cidade. Seus textos guardam um lirismo e um estilo incomparáveis. Escreveu três peças de teatro também, sempre com um pendor a dar protagonismo aos desvalidos, aos marginais, ao povo. Sinceramente, se esse tipo de proposta for aprovado na ALRN, mais uma vez, teremos a comprovação da falta de respeito à memória dos grandes nomes dessa terra”, detalhou a jornalista.

O projeto apresentado pelo Coronel Azevedo ainda precisa passar pelas Comissões da Assembleia para, só então, ir à votação no plenário.

Nota do Conselho Estadual de Cultura faz alerta sobre mudança do nome da Ponte I Imagem: reprodução

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