Maílson Furtado, poeta cearense: “Há vários Nordestes e várias literaturas vivas dentro de cada estado”
Natal, RN 28 de nov 2023

Maílson Furtado, poeta cearense: "Há vários Nordestes e várias literaturas vivas dentro de cada estado"

24 de abril de 2022
8min
Maílson Furtado, poeta cearense:

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Nascido em Cariré mas criado em Varjota, ambas no Ceará, Maílson Furtado, 31 anos, é poeta, escritor, ator e cirurgião dentista, e tornou-se conhecido ao vencer o 60º Prêmio Jabuti, em 2018, nas categorias Livro do Ano e Poesia com o livro "à cidade", uma edição independente. Maílson, que tem oito livros publicados (entre eles "Tantos nós" e "Ele"), esteve durante toda a semana no Rio Grande do Norte, em ações organizadas pelo Sesc com palestras, debates e diálogos com estudantes nos municípios de Natal, Caicó e Currais Novos e conversou com a reportagem da Agência Saiba Mais sobre seu fazer poético, políticas públicas, volta às ações presenciais, circuitos literários e muito mais. Saiba Mais: Você vem participando durante toda essa semana de ampla programação do SESC de ações literárias em municípios potiguares. Qual a importância deste tipo de iniciativa e como fazer com que sejam realizadas com maior frequência? Maílson Furtado: Estou muito feliz por estar no circuito do Sesc pelo Rio Grande do Norte, em Caicó, Currais Novos, Natal, depois período de reclusão, de confinamento que todos nós tivemos, o que se torna ainda mais simbólico e importante. Para muitas crianças, que também sofreram com o confinamento por quase dois anos, também elas perderam um pouco esse parâmetro do ensino presencial, então esse retorno ao diálogo sobre literatura com o autor teve um caráter de simbolismo importante. É fundamental que essas ações aconteçam como pauta do calendário em todos os lugares possíveis, chegando cada vez mais às escolas, à população em geral, e que exista um debate de uma forma horizontal. Em 2018 você teve o seu "à cidade" premiado como Livro do Ano pelo Jabuti, o que trouxe luzes para sua obra e para a literatura produzida atualmente no Nordeste. Qual a sua avaliação sobre esta literatura nordestina contemporânea? É difícil a gente conceituar a questão do termo Literatura Nordestina, pois há vários nordestes possíveis, e mesmo dentro do mesmo estado há várias literaturas possíveis. Vejo cenas pulsantes acontecendo em todos os nove estados do Nordeste, cada um com sua característica e sou muito feliz por fazer parte desse movimento. No Ceará, percebo que o movimento parece com o do Rio Grande do Norte, existe quase um cooperativismo entre quem escreve literatura; vejo também uma cena interessante quanto ao cordel, que eu acompanho. E registro ainda uma descentralização que vem acontecendo ao longo dos últimos anos das cidades do interior em relação às capitais, fenômeno que acontece também na Bahia e em Pernambuco. E a literatura realizada atualmente que não é feita apenas nas capitais mas nos interiores, é uma literatura escrita em carne viva, pela própria vida dos autores, com eles sendo protagonistas do que escrevem e vivem, uma característica interessante destes tempos. Hoje vemos descrever suas próprias histórias o agricultor, o indígena, o morador da periferia urbana, cada um e todos contando suas próprias histórias da maneira deles. Considera que ​existe diálogo entre ​quem produz literatura nos estados do Nordeste​? E existe conexão do Nordeste com outras regiões em termos literários? ​Temos sim​​ uma inter relação entre os ​escritores e escritoras dos ​estados​ nordestinos​, mas ​a situação ​poderia ser melhor​.​ Nas últimas décadas​ temos​ nos preocupado mais com isso, ​fazemos essa interação de maneira ​mais consciente​.​ Na verdade, alguns estados conversam mais uns com os outros​;​ ​o ​Maranhão​ dialoga bastante com​ Piauí​;​ eu converso mais com Rio Grande​,​ apesar de morar mais perto do Piauí, ​e vejo um ​contato forte ​entre​ Rio ​Grande do Norte ​e Paraíba, ​e de certa maneira ​com Pernambuco também​.​

"Quando falo que ​a situação ​poderia ser melhor​, é​ porque ​acabamos ​conhecendo de forma superficial ​a ​realidade ​cultural ​de outras regiões​. A​cho que ​no ​Sudeste conseguem conversar melhor,​ entre os estados, de uma forma​ mais fluida​;​ Rio​ de Janeiro​ e São Paulo ​dialogam muito ​com Minas​ Gerais, por exemplo.​ Aqui devemos lutar por isso, ​pensar ​como melhorar​ esse contato"

.​ Uma possibilidade é criar​mos​ mais eventos literários, uma grande feira literária que represente ​tod​a região​, ​algo como a Flip​, em Paraty, no Rio de Janeiro. Existe​ essa necessidade​ aqui.​ Mas com ​a ​revolução virtual,​ a internet e​ comunicação que a pandemia nos trouxe, ​essas demandas ​ficaram mais possíveis e ​também ​mais urgentes​. Com a​ reabertura ​de ações presenciais ​creio que deve​mos​ trazer essa pauta para que possamos crescer literariamente enquanto região​.​ No Brasil se diz que é difícil vender livros de poesia e parece haver pouca leitura deste gênero. É dessa forma? Qual sua avaliação sobre isso? É uma questão debatida infinitamente, na verdade uma questão de mercado. Não há como negar que gênero vende menos que prosa. Mas quanto a isso, não gosto de ficar choramingando, gosto de seguir a produção, continuar essa escrita​, afinal, ​se o livro for bom ele será consumido em algum momento, a venda é uma consequência​.​ O escritor espanhol Juan Ramón Jimenez​ disse que a​ literatura é a arte da imensa minoria. ​Um p​aradoxo que trago para a poesia, ​lida por uma​minoria​,​ mas ​que ​é imensa​. Uma minoria ​presente, pulsante​, pronta​ para consumir essa arte que é uma necessidade humana​. ​Poesia é uma escolha. Comprar um livro é uma escolha​. Vou​ seguir nessa labuta, não choramingando, mas continuar produzindo. No Nordeste especificamente ainda ​temos ​relação diferente com a poesia devido à cultura popular, ​a literatura de cordel, os repentistas, um ​campo onde há um público maior e bem interessante em relação a outras áreas e em relação à poesia diríamos acadêmica, ou não popular​.​ Acredita no papel social do poeta/escritor? O poeta, o escritor, tem essa responsabilidade sim, ele carrega consigo a ampliação de mundo. Na verdade, a função da arte em si é essa, desvelar, ressignificar o mundo, de alguma forma. É algo que trago para mim, essa busca pela escrita tem que trazer essa consciência. Uma auto-análise: O que minha poesia diz para além de mim, em que ela amplia o Mundo? Ao trazer essa questão a gente consegue pensar em dias melhores, dias possíveis.

"Poeta é esse personagem social importante e "perigoso" se pensarmos dentro desta perspectiva, porque ele vai desvelar o Mundo dentro de uma posição pessoal dele. Ele chega para encrencar com o que está posto aí. A poesia traz novidades para o Mundo"

Quais seus próximos projetos? Tenho alguns, acho que não paro quieto. ​Mas e​stou em um trilhar literário ​onde cada vez tenho menos pressa em publicar. ​Fico b​astante tempo lendo, ​estou com ​dois trabalhos bem encaminhados, ​uma ​experiência com a prosa, ​então ​talvez mais adiante saia algum trabalho voltado para esse gênero. ​Porém, e​stou num momento de continuar a amplificação de divulgação dos livros que tenho, trabalhar com algumas falas, literatura independente, mercado editorial, fazer poético. Talvez ano que vem saia algo novo publicado. ​O material está em estado de maturação. Como avalia as políticas públicas culturais nestes tempos? Elas funcionam? Dependendo da esfera governamental​, a situação muda. O Governo​ ​F​ederal nos últimos anos fez um desmonte ​completo ​de lutas e conquistas de três ou quatro décadas. Do Governo Federal não podemos esperar nada da área cultural. Quanto aos Estados​,​ cada um tem sua carac​terística​ própria, que ainda assim são bem rasas quanto à afirmação de políticas reais. ​Na p​andemia t​ivemos a​ Lei Aldir Blanc, ​uma ​conquista de classe artística para primeiro se manter​em todos​ vivos, depois ​para ​manter a labuta d​a​ arte. Para a literatura, a gente precisa de muita coisa​ ainda​. Queria pensar ​em um ​circuito literário de eventos de forma mais articulada, que dialogasse​ com os artistas, de maneira ampla​. ​A​ntes da pandemia ​foram realizados muitos​ eventos, mas ​partindo da ​sociedade civil, ​com ​apoios ​de ​instituições, do Sesc, e muito​s deles em municípios do​ interior. ​Foram ​importantes para que a literatura chegasse onde até então não havia chegado. Em 2019 só na Bahia foram mais de cinquenta eventos, na Paraíba, pelo menos vinte. Movimento que foi se formando de forma orgânica, mas sem um diálogo mais próximo. estou confiante que com presencial esses movimentos possam voltar agora​.​ Fala-se que o brasileiro lê pouco, mas é necessário investir em formação de leitores. Como fazer isso? Precisamos sim ter esse incentivo para fomento de leitura e formação de leitores em todo o Brasil. Mas são políticas inter setoriais, dialogando umas com as outras. Um circuito literário que converse entre si já seria importante, movimentaria​ o​ setor cultural, educacional​, as​ universidades, ​a ​ediucação de base​.​ Precisamos ultrapassar os muros da universidade, tra​b​alhar mais em extensão, levar a população mais para dentro das universidades. ​

"É urgente formar​ leitores com percepção crítica do mundo, e no final das contas um mundo melhor. ​ Seria ​uma vacina para esse grande mal que a gente não consegue combater de uma forma pontual​,​ que é a desinformação"

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