DEMOCRACIA

O Brasil é ‘depositário infiel’ do legado de Paulo Freire, afirma Marcos Guerra, ex-coordenador do 40 horas de Angicos

Em 1963, quando Paulo Freire chegou ao RN para implantar o projeto “40 Horas de Angicos”, o advogado Marcos Guerra tinha apenas 22 anos e participou ativamente do projeto que revolucionaria a alfabetização de jovens e adultos. Tanto que quase seis décadas depois o pensamento do educador está no centro do embate político do País.

A trajetória de vida de Marcos Guerra foi marcada por aqueles dias. Com o Golpe Militar de 1964, o então estudante de Direito da UFRN foi preso e exilado justamente por fazer parte do grupo do projeto de alfabetização. “Tive o privilégio de ouvir um conselho de meu pai, Otto Guerra: ‘não baixe a cabeça!’. Ao contrário, sou grato pelo privilégio de ter participado desta ação”, conta Marcos Guerra em entrevista exclusiva ao Saiba Mais.

Na conversa, ocorrida na semana em que se comemora os 100 anos do nascimento de Paulo Freire, Marcos Guerra pontua que o Brasil é ‘depositário infiel’ do legado do educador, que nenhum governo federal teve a coragem de tirar o pensamento de Paulo Freire do papel e que o RN não soube, ainda, aproveitar o trabalho iniciado em Angicos. Eis a conversa:

Qual a importância que o trabalho com Paulo Freire teve na vida do senhor?
Naquele período, era estudante na Faculdade de Direito da UFRN. Impulsionados pela UNE, UEE, e pela Ação Católica (JUC) – esta ainfluenciada pela Doutrina Social da Igreja e encíclicas recentes, já atuávamos em algumas frentes. Pessoalmente, contribui para a implantação de associações de trabalhadores rurais, que depois seriam transformadas nos conhecidos “Sindicatos Rurais” , e na Federação dos Trabalhadores Rurais, cujo 1º dirigente foi José Rodrigues. Igualmente, na Rádio Rural, acompanhamos o trabalho do MEB – com as chamadas escolas radiofônicas. Como jornalista, trazíamos um complemento através de notícias nacionais e de fora, ajudando na compreensão do mundo.

Objetivamente, teve grande importância, sim, porque tínhamos consciência do pioneirismo, do nível de exigência profissional e dedicação, para atingirmos os resultados definidos. E porque o convívio prolongado, durante uns 3 meses, com as dificuldades e as esperanças de toda uma parte da população de Angicos, muito nos ensinou, assim como a vivência da própria equipe dos coordenadores. Finalmente, o relacionamento com Paulo Freire, D. Elza, e sua equipe do SEC – serviço de extensão cultural da Universidade do Recife. E a “importância” não se limitou ao período da alfabetização, na medida em que teve sérias consequências na vida pessoal de cada um de nós, com repercussões familiares, profissionais, políticas, e outras.

O senhor acha que o legado de Paulo Freire está sendo cuidado pelo Brasil como merecido?
Em matéria de alfabetização de jovens e adultos, com certeza não. Digo que somos “depositários infiéis” deste precioso legado. A ditadura conseguiu efetivamente expulsar o Paulo Freire do MEC, e desde então nenhum Ministro da Educação se propôs a retomar o trabalho, salvo uma tentativa por parte do Cristovam Buarque. Nenhum Presidente da República, desde a redemocratização, teve a coragem de retomar o trabalho.

Falo de coragem política, e de visão de futuro. Preferem manter o “status quo’ desde os tempos dos votos de cabresto, e seguramente temem um eleitor consciente, conscientizado. Preferem ainda, apesar dos discursos que anunciam objetivos de crescimento, diálogo, educação e saude para todos, segurança, preferem MANTER OS PRIVILÉGIOS DE UMA
MINORIA DE BRASILEIROS. Desigualdade de oportunidades que representa um verdadeiro insulto para nossa democracia.

De forma isolada e sem apoio do MEC, algumas heróicas iniciativas municipais, e outras raríssimas em poucos Estados, tentam retomar. Mas algo isolado nunca terá o mesmo resultado, conforme nos ensinam todas as avaliações da UNESCO sobre campanhas de alfabetização.

Como resultado visível temos hoje, objetivamente, mais analfabetos (numeros totais) do que tínhamos em 1963. Vejam-se estudos do Prof. Alceu Ferraro, sobre o que chamou de “dívida educacional”. A falsa percentagem apresentada pelo IBGE pretende enganar os brasileiros. Diz que seriam menos de 8% de 212 milhões. Mas a realidade aponta para mais de 48%, mais de 100 milhões de brasileiros.

Temos que acrescentar, pelo menos :
1. As crianças expulsas da escola pública com menos de 2 ou 3 anos de escolaridade. Somente serão recenseadas como analfabetos depois de 15 anos de idade. Antes, o IBGE não as inclui “porque estão na idade da escolarização obrigatória”;
2. Aqueles que esqueceram o que aprenderam, por múltiplas razões – o chamado “analfabetismo regressivo”; os que o IBGE considera como alfabetizados ao realizar um censo que desrespeita as normas adotadas em conjunto na UNESCO.
3. O IBGE não respeita o protocolo adotado, e 2 razões principais indicam a falsidade dos números: nosso IBGE faz um censo “declaratório”, e 1 entrevistado por residência responde sobre quanto alfabetizados ou analfabetos vivem naquele
Endereço. Os modelos sociais impõem a resposta clássica, ninguém quer confessar que existem analfabetos na casa. O recenseador deveria pedir a cada cidadão que leia um texto simples, e escreva um bilhete igualmente simples. Mas
tal compromisso com a UNESCO não é respeitado.

O Rio Grande do Norte foi um estado privilegiado em ser o berço da prática do trabalho de Paulo Freire. Mas o Estado soube aproveitar isso?
Ainda não soube aproveitar. Após o trauma inicial, não vimos iniciativas públicas consistentes. Mais grave, até poucos anos atrás era quase um assunto escamoteado. Recentemente, a partir da UFERSA, se voltou a estudar estas práticas, entrevistar os ex-alunos, alguns dos ex-coordenadores de círculos de cultura, e ao próprio Paulo.

Refiro-me não somente ao pessoal das Faculdades de Educação. Também os de jornalismo, história, ciências políticas e outras ciências sociais, economia e estatística, não foram a Angicos de forma a reconstruir de forma consistente a memória local. Uma única pesquisa e publicação sobre a aprendizagem foi feita 40 anos depois, pela Professora Nilcéa Pelandré, da UFSC, Santa Catarina.

Vocês foram perseguidos, presos… o senhor se arrepende de ter participado do projeto por causa dessas consequências?
A ditadura não influenciou minha forma de ver e valorizar nosso trabalho. Tive o privilégio de ouvir um conselho de meu pai, Otto Guerra: “não baixe a cabeça!”. Isto na primeira visita, de 10 minutos, em Recife, na primeira vez que me prenderam. Ao contrário, sou grato pelo privilégio de ter participado desta ação. Tinha 22 anos, e fazia o 2º. ano de Direito. Se não bastasse a aprendizagem de Angicos, com colegas e alunos, a aprendizagem na prisão (em 1964 e em 1965) foi igualmente importante, assim como aquela dos exílios, na França e na África Negra. Foram 23 anos fora do Brasil.

Há um vácuo muito grande entre a teoria e prática no trabalho de Paulo Freire. Por que as Universidades não se apropriam da teoria para colocar o pensamento dele em prática?
Não reconheço distância entre teoria e prática “no trabalho de Paulo”. Seria contra a natureza de sua proposta. Mas não tenho como descartar uma intencionalidade em universidades que repetem as teorias, sem chegar à prática. Ou quando existe ativismo, agir sem maior fundamentação teórica, visão histórica, inserção social e política efetivas. Estas atitudes foram analisadas pelo próprio Paulo. Por quê? Não é fácil a coerência entre discurso e prática. Exige mudar atitudes, algum comodismo, algumas tradições. Mas quando ocorre, traz resultados inesperados.

Por que o pensamento de Paulo Freire é tão combatido pelo atual governo do Brasil?
Somente o atual Presidente poderia talvez responder. Talvez precise inventar moinhos de
vento para combater, como Dom Quixote. Nem sequer pode afirmar que desejaria implantar uma educação neutra, sem conteúdo político, porque sua proposta concreta é exatamente o contrário, politizar as escolas a partir do “exemplo” das Academias e Colégios militares. Não lutam contra Paulo Freire, e sim contra fantasmas, e contra uma educação crítica que revela os privilégios e desigualdades que pretendem manter ou acentuar.

 

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