TRANSPARÊNCIA

Pelo menos 716 pacientes internados em março no RN usaram medicamentos sem eficácia contra a covid-19

Um relatório do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS) da UFRN registrou que entre os dias 2 e 27 de março de 2021, 716 pacientes que precisaram ser internados no Rio Grande do Norte por causa da covid-19 fizeram uso de ivermectina, hidroxicloroquina e/ou cloroquina. Esses medicamentos fazem parte do chamado kit covid, uma combinação sem eficácia, mas ainda receitada por alguns médicos seguidores do presidente Bolsonaro, maior entusiasta desse tratamento.

Apesar de não haver qualquer indicação nas bulas desses fármacos para a covid e autorização da Anvisa para essa finalidade, o uso tem sido disseminado com a promessa de prevenir formas mais graves da doença. O mito é derrubado por diversos estudos científicos pelo mundo, incluindo o recente do LAIS.

Dos pacientes listados, todos tomaram ivermectina. Vinte e sete associaram à hidroxicloroquina e 23, à cloroquina.

Em Natal, a Prefeitura estimula que os médicos distribuam na rede pública a ivermectina a quem apresenta os primeiros sintomas da infecção causada pelo vírus Sars-Cov-2, como tratamento precoce. A prescrição fica a critério do profissional.

No período investigado pela pesquisa, 279, 39% das pessoas que usaram o antiparasitário em todo o estado e precisaram ser internadas, eram da capital.

Catorze pessoas tomaram hidroxicloroquina em Natal e evoluíram para quadro grave, e 11 usaram cloroquina e foram parar em um leito de hospital. Parnamirim e Mossoró se somam a Natal nos municípios que mais solicitaram leitos para pacientes com esse histórico, representando 52,37% do total.

“Esses números são relativos a pedidos de internação. A gente não analisou o desfecho deles. Uma parte pode ter recebido alta, outra pode ter ido a óbito e outra ainda está internada”, explicou o pesquisador Rodrigo Silva.

De acordo com o relatório, dos 140 municípios que fizeram solicitações por internações, em 100 deles (71%), pelo menos um paciente com covid-19 ingeriu alguma dessas substâncias.

O Laboratório lembra que há casos de insuficiência hepática registrados nacionalmente por uso abusivo de ivermectina e alerta sobre o risco de enfrentar um novo problema grave de saúde pública relacionado à falência de órgãos e à necessidade de transplantes.

“Em que pese o acúmulo de evidências sobre a ineficácia desse tipo de tratamento para casos de covid-19 e o posicionamento claro da ANVISA, o uso indiscriminado desses medicamentos (muitas vezes sem acompanhamento médico) pode causar hepatite medicamentosa e falhas hepáticas graves, podendo resultar em óbito ou na necessidade de transplante do órgão afetado. Para além disso, cabe ressaltar que muitos pacientes podem estar chegando com o quadro clínico mais grave às unidades de saúde, por terem a falsa crença de estarem “protegidos” contra o vírus”, registra o documento.

Os pesquisadores também ressaltam que é fundamental que os gestores públicos de todas as esferas (municipal, estadual e federal) não incentivem e alertem a população sobre os riscos do uso indiscriminado desses medicamentos e a automedicação, unindo esforços na adoção de medidas efetivas contra a pandemia, como distanciamento social, uso de máscaras, higienização frequente das mãos com água e sabão ou álcool 70% e aceleração do processo de vacinação em massa da população.

 

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Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais