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RN tem 5 pedidos de internação a cada hora e registra mortes em 70% dos pacientes de UTI

Entre fevereiro e março, o Rio Grande do Norte registrou aumento de 77% nos pedidos de internação em leitos covid. São cinco pedidos a cada hora, com a efetivação de duas internações em média a cada 60 minutos, totalizando 12.681 internações em um ano de pandemia. Dos pacientes que vão para UTIs, 70% morrem e 52% dos óbitos acumulados estão na região Metropolitana, o epicentro da epidemia no estado.

No primeiro pico, em 22 de junho de 2020, foram 138 pedidos. O recorde atual foi atingido em 8 de março, com 143 solicitações. A média tem se prolongado ao longo da semana. Na quarta-feira (10), 140 pessoas precisaram ser internadas.

Os dados alarmantes foram apresentados nesta sexta-feira (12 de março), quando a chegada do vírus SARSCoV2 ao RN completa um ano, pelo Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS/UFRN) em coletiva de imprensa, a fim de alertar a população sobre o quadro epidemiológico e orientar os gestores a tomarem medidas mais rígidas para conter o avanço da doença.

“No primeiro pico, depois que chegou a 138 solicitações, começou a cair. E isso não está acontecendo agora. Parece que nós estamos em um platô e com um dado muito alto de internações, acima da média que já vimos antes”, detalhou o diretor executivo do LAIS, Ricardo Valentim, ao explicar que a meta mais importante é a redução da taxa de ocupação de leitos de UTI. “Quem tem coragem, de olhando pra isso aí, falar em flexibilizar medidas? É grave, não é brincadeira”, questionou.

“São a infraestrutura que demanda recursos financeiros e humanos muito caros. Chega em um limite que não é mais possível simplesmente aumentar número de leitos. Você não cria leitos de UTI só pra internar pessoas; cria para garantir condições dignas. Elas não vão ter falta de acesso no momento mais crítico da doença”, alertou, chamando também atenção para o percentual de curados após o tratamento intensivo, apenas 30%.

Analisando essa conta, o especialista afirma que a melhor saída para essa crise sanitária é evitar que as pessoas adoeçam e que isso só é viabilizado por meio de medidas de prevenção e cuidados, como uso da máscara, higiene das mãos e distanciamento social, além da vacinação em massa.

“Quem tem coragem, de olhando pra isso aí, falar em flexibilizar medidas? É grave, não é brincadeira”. (Ricardo Valentim)

De acordo com os pesquisadores, 30 pessoas foram contaminadas em fevereiro a cada hora, sem contar com os assintomáticos e a subnotificação, porque muitos municípios ainda não testam adequadamente os doentes. Os registros mostram que após o período do Carnaval, em 18 de fevereiro, 79 pessoas se contaminaram a cada hora. Nesse dia, houve 1.395 diagnósticos. De acordo com a estatística traçada pelo LAIS, esses contaminaram pelo menos outros 1.900.

Foram 20.223 pessoas doentes no segundo mês do ano, mas de acordo com Valentim o dado está em revisão e pode mudar em até 15 dias para mais devido aos casos pendentes de confirmação.
O estado já registrou 3.857 mortes e 845 são suspeitas. Nesse ritmo, a estimativa é que o RN ultrapasse os 4 mil óbitos por covid-19 ainda em março.

“Talvez a gente já esteja acima dos 4 mil e não sabe ainda. É preciso baixar a taxa de ocupação que hoje está acima do limite colocado pelos decretos estadual e municipal no meio do ano passado, quando a situação também era grave”, declarou Ricardo Valentim.

Nesta manhã, há 99 pacientes na fila da regulação à espera de leito crítico, todos da Região Metropolitana, que tem sobrecarregado a rede de todo o estado.

Também foi ressaltada a mudança de perfil de internamentos, com mais não idosos em UTIs. Apesar disso, não significa que menos idosos estão sendo internados. Ambas as faixas etárias estão ficando mais doentes e os resultados da vacinação dos mais velhos deve aparecer nos gráficos com redução deles em estado crítico nos próximos dias.

Medidas restritivas são aliadas da recuperação da economia

O diretor do LAIS alertou para a necessidade de tomar medidas mais rígidas de isolamento diante dos dados apresentados. Ele salientou que em detrimento do que sempre se fala sobre “colapso no Sistema de Saúde”, o que vai colapsar é, na verdade, a sociedade.

“Quanto mais for demorado para abaixar essa taxa de ocupação de leitos, mais demorado vai ser para a economia se recuperar. Não existe trabalhador que trabalhe doente. Não existe economia potente com gente doente. As economias que vão se recuperar mais rápido são aquelas que vacinaram de maneira mais eficiente: Israel, Reino Unido, os países da Europa, Estados Unidos, China”, disse.
O pesquisador Leonardo Lima diz entender que existe uma questão política na adoção de medidas que estimulam o confinamento das pessoas, mas crucial é o indicativo técnico.

“Essas medidas são impopulares, mas deve ser adotadas ser tomadas. Um remédio pode ser amargo, pode ser ruim, mas muitas vezes ele é a única solução para aquele paciente. Não terá nenhum remédio pra tomar depois”, compara, reforçando que não existe a dicotomia “saúde versus economia”, elas andam juntas.

Leonardo apresentou também durante a coletiva de imprensa os dados nacionais, mostrando que os mais de 2 mil pessoas mortes diárias não podem ser naturalizadas e que os dados não são questão de opinião. “É como sumir uma pequena cidade do RN”, lamenta.

Existe medicamento para prevenir covid-19?

Leonardo Lima foi taxativo: “Tratamento precoce para covid é vacina. Ponto”. O pesquisador disse que todo mundo tem direito a sua própria opinião, mas ninguém tem direito aos seus próprios fatos. E o fato é um só.

“Não existe estudo científico no mundo hoje que corrobore o uso indiscriminado, preventivo, profilático, no início de sintoma, em estado grave de hidroxicloroquina, ivermectina e medicamentos desse tipo de abordagem”.

Ele continua questionando quanto dinheiro já foi investido em medicamentos sem eficácia para essa doença. Os dois especialistas e a médica infectologista Monica Bay comentaram sobre as drogas que são vendidas, às vezes indicadas até pelo balconista da farmácia, como milagrosos, para prevenir ou tratar a covid-19.

“É estranho que nenhum outro lugar do mundo esteja usando essas medicações. Se elas funcionassem, fossem boas, é provável que outros países do mundo usassem”, disse a médica, representando a posição do Departamento de Infectologia da UFRN, que participou de ensaios clínicos de estudos multicêntricos nacionais publicados no Lancet e New England: “Não mostrou benefícios”.

Ricardo Valentim chama atenção para a importância de inibir a automedicação motivada pela ideia que se propagou acerca desses compostos químicos. Ele alerta que os pesquisadores têm autonomia para investigar sobre qualquer tratamento e que os médicos também têm autonomia para prescrever quaisquer receitas, porém com a ressalva de que se trata de um experimento. O paciente precisa saber que não há comprovação científica da eficácia da droga para covid e que as indicações da bula são para outras doenças.

“Nenhum periódico sério recomendou nenhum medicamento como política pública de saúde. A posição do LAIS é a institucionalidade do uso de qualquer droga, fármaco, vacina. Tem que ter a aprovação da vacina para que os governos possam adotar como política pública”, esclareceu.

Valentim chega a dizer que os fabricantes, de forma responsável, não incluem tratamento de covid nas indicações da bula, porque sabem que seriam processadas com a possibilidade de milhares de pessoas estarem morrendo apesar de tomarem o remédio. E ainda que o ex-ministros Mandetta e Teich saíram com a possibilidade de serem responsabilizados ao adotar medicamentos sem eficácia como política de enfrentamento da pandemia.

Eles também fizeram um alerta sobre a suplementação de vitaminas com a falsa ideia de fortalecer o sistema imunológico tomando mais e mais comprimidos.

Monica Bay explicou que à deficiência de vitamina D está relacionada uma mortalidade maior associada a qualquer infecção, mas também que o índice de pessoas com essa deficiência é muito baixo na região e em todo o Brasil, por haver alta exposição à luz solar.

“Pra quem tem níveis normais de vitamina D a suplementação dela não vai ter absolutamente nenhum efeito. Fez um exame de sangue e a dosagem deu baixa, deve suplementar sim. Fez e foi normal, não tem porque ficar tomando mais”.

Foto: FreePik

Máscaras mais adequadas

Após alguns países europeus, como França, Alemanha e Áustria, obrigarem o uso de máscaras do tipo profissionais, os brasileiros ficaram em dúvida sobre qual a melhor proteção e tem crescido as compras das chamadas PFF2 – categoria na qual está inclusa a máscara tipo N95.

Essas máscaras possuem uma espécie de filtro que inibe a passagem de micropartículas e de pequenos micro-organismos e a infectologista Monica Bay atualizou as novas recomendações da Organização Mundial de Saúde.

Segundo ela, os idosos que têm comorbidades e quem está apresentando sintomas de covid não devem usar máscaras de pano, mas sim as cirúrgicas, que oferecem maior proteção.
Outras pessoas caso precisem sair pra rua podem usar máscaras de tecido. Já os profissionais de saúde que estão trabalhando com pacientes covid devem usar máscaras N95.

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Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais