ENTREVISTA

Sônia Guajajara: “A gente não quer mais só visibilidade, agora quer disputar e ganhar eleição”

Sônia Guajajara, 48 anos, é coordenadora-executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), a principal organização do movimento que congrega mais de 200 povos originários do país. Natural do território indígena Arariboia, no Maranhão, é representante do povo Guajajara.

 À frente da Apib, que conta com outros seis coordenadores, Sônia Guajajara foi candidata a vice-presidenta da República 2018 chapa encabeçada por Guilherme Boulos e agora concentra as energias na candidatura a deputada federal em 2022. Ela continua filiada ao PSOL e disputará uma vaga por São Paulo.

Ocupar os espaços na política institucional é um projeto político prioritário do movimento indígena nacional. Atualmente, apenas uma das 513 cadeiras na Câmara Federal é ocupada por uma indígena, a deputada Joênia Wapichana (Rede), de Roraima.

Nesta entrevista especial, concedida à agência Saiba Mais no último dia do Acampamento Terra Livre, maior mobilização de indígenas do mundo, realizada entre 4 e 14 de abril, em Brasília, a principal liderança indígena do país fala sobre os principais desafios dos povos originários, os ataques do legislativo e do governo Bolsonaro e fala também sobre a bancada do cocar, que pretende ocupar o Congresso Nacional a partir de 2023 na base de apoio de um eventual governo Lula.

Agência Saiba Mais – Sônia, o Acampamento Terra Livre foi criado há 18 anos. Naquela época vocês imaginavam que o evento chegaria onde chegou, reunindo 200 povos e mais de 8 mil indígenas ? Onde o ATL ainda quer chegar ?

Sônia Guajajara – A ATL foi criado por iniciativa de uma mobilização dos povos indígenas do sul do país, pela demarcação, reconhecimento, regularização dos territórios indígenas. No sul há muitos retomadas e os indígenas ainda hoje vivem na beira da estrada em acampamentos, entre o asfalto e a cerca dos grandes latifúndios. Então eles vieram a Brasília acampar, permaneceram por um longo tempo e no ano seguinte outras regiões vieram e nesse momento se criou também a Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasi). É importante dizer que a Apib foi criada nesse espaço. E a cada ano foi crescimento. Começamos com 300, 600, 1.000 pessoas e hoje tivemos aqui mais de 8 mil indígenas que passaram por aqui. Temos ainda a pretensão de chegar a 10 mil, 15 mil indígenas. O povo quer vir, já tem o acampamento como uma tradição e já é a maior assembleia dos povos indígenas do Brasil e a maior mobilização indígena do mundo. Então já está firmado, temos esse nosso território demarcado em Brasília. Essa presença é muito importante para dar visibilidade, pressionar, denunciar as ameaças, retirada de direitos e trazer as pautas indígenas das distintas regiões e aqui nivelar e consensuar as pautas prioritárias para os indígenas.

Projeto político da Apib é eleger uma bancada de parlamentares indígenas para se contrapor à bancada ruralista / foto: Rafael Duarte

No ATL 2022 foi possível perceber alguns marcos, como a primeira plenária LGBTQI+ indígena e uma maior organização da juventude também. Para além da quantidade de pessoas que veio ao acampamento, o que você destacaria na edição deste ano ?

Esse ano a gente deu uma atenção especial para a participação indígena na política institucional. Para que a gente pudesse participar mais ativamente da disputa eleitoral. Todos os anos tivemos candidaturas indígenas, mas eram candidaturas que saíam diretamente ali por decisão local. E esse ano a Apib resolveu assumir essa pauta e apoiar e fortalecer essas candidaturas indígenas. Então esse tema meio que deu uma movimentada diferente porque é novo para nós. Por mais que em 2018 eu tenha participado de uma chapa presidencial, também por uma decisão de um projeto politico da Apib, mas as candidaturas indígenas não tiveram esse acompanhamento. E agora a gente está com esse propósito de fortalecer as candidaturas indígenas. Então esse tema foi o mais abrangente, mais debatido e mais perguntado do acampamento. E essa interação entre as gerações, entre a juventude e os anciãos e anciãs, esse espaço é muito importante para essa relação e houve sim uma maior troca entre os próprios povos.

“Temos ainda a pretensão de chegar a 10 mil, 15 mil indígenas. O povo quer vir, já tem o acampamento como uma tradição e já é a maior assembleia dos povos indígenas do Brasil e a maior mobilização indígena do mundo. Então já está firmado, temos esse nosso território demarcado em Brasília”.

Você tem citado a bancada do cocar, formada por indígenas, em contraponto à bancada ruralista. Então, como você explicou, as candidaturas serão escolhidas pela Apib, e não mais pelas coordenações regionais ? Vocês esperam eleger quantos indígenas em outubro ?

Por muito tempo essa pauta da disputa eleitoral não era discutida por nós, a gente nem queria discutir sobre isso. Para nós, dentro do movimento, não cabiam os partidos. Mas chega uma hora que a gente entende que são os partidos que estão decidindo, pressionando para retirar direitos, candidaturas nesses partidos totalmente contra nossos direitos. Então se há partidos que estão contra nossas decisões é para lá que a gente tem que ir. Em 2017 tomamos essa decisão e lançamos uma carta Por um parlamento mais indígena. E já foi conseguimos compor a chapa presidencial e tivemos 130 candidaturas indígenas em 2018. Dessas, somente uma teve sucesso, que foi a deputada Joênia Wapichana lá de Roraima. Agora é diferente, a gente não está chamando para quantidades, quer de fato fortalecer candidaturas que tenham mais poder de articulação com outros movimentos, setores, outros segmentos da sociedade, até porque só o voto indígena não elege. Então a Apib está com esse comprometimento também de articular com outros movimento e conversar com presidentes de partidos onde estão essas candidaturas.

E há critérios para que a Apib apoie determinada candidatura ?

Então estamos com esse mapeamento agora, tem o site campanha indígena que está com inscrições abertas, temos mais de 130 indígenas inscritos, e alguns que a gente já viu aqui que não está lá. Fizemos alguns recortes para ter alguns critérios. Não vamos contar como candidatura apoiada pela Apib aquelas que são apoiadas ou querendo destruir os direitos. Vamos apoiar candidaturas que estejam alinhadas ao movimento indígena, regionais, para que a gente possa ajudar a construir esse projeto. E vamos apoiar as candidaturas que estão no campo progressista. Não dá para apoiar candidaturas que estejam em partidos que estão todos os dias querendo aprovar medidas anti-indígenas, anti-ambiental. Estamos com esses dois critérios e também observando quais candidaturas mais viáveis, com viabilidade eleitoral, a partir da articulação com outros setores da sociedade. Então estamos com essa pretensão de fortalecer essas candidaturas que estamos fazendo já no site da Apib.

“Por muito tempo essa pauta da disputa eleitoral não era discutida por nós, a gente nem queria discutir sobre isso. Para nós, dentro do movimento, não cabiam os partidos. Mas chega uma hora que a gente entende que são os partidos que estão decidindo, pressionando para retirar direitos, candidaturas nesses partidos totalmente contra nossos direitos. Então se há partidos que estão contra nossas decisões é para lá que a gente tem que ir”

Sônia Guajajara diz que indígenas querem ocupar parlamento e espaços no Executivo num eventual governo Lula / Foto: Rafael Duarte

Esse apoio às candidaturas indígenas será focado na eleição para deputados e deputadas federais ou haverá apoio também para os legislativos estaduais ?

A maioria das candidaturas indígenas está para as assembleias legislativas. Vamos focar em algumas federais, mas vamos priorizar algumas estaduais também.

O que mudou daquela Sônia Guajajara candidata à vice-presidência da República pelo PSOL em 2018 para essa Sônia Guajajara pré-candidata a deputada federal em 2022 ?

Acho que a gente conseguiu articular mais com outros movimentos, ganha muita experiência de entender melhor outras pautas. Em 2018 era trazer a pauta indígena e ambiental para o centro do debate público. E era uma candidatura para dar visibilidade. Agora não, a bancada que estamos lançando é para ganhar. A gente não quer mais ter só visibilidade, quer ter o apoio da sociedade, apoio dos movimentos para que possa de fato se eleger. Então é isso, ali era só visibilidade e agora é realmente ganhar.

“Agora é diferente, a gente não está chamando para quantidades (de candidaturas), quer de fato fortalecer candidaturas que tenham mais poder de articulação com outros movimentos, setores, outros segmentos da sociedade, até porque só o voto indígena não elege”.

Derrotar o Bolsonaro é uma urgência hoje e o Lula, segundo todas as pesquisas, é nome melhor colocado para vencer as eleições. Mas os governos petistas não foram 100% alinhados ao movimento indígena, inclusive você mesmo deu um puxão de orelha público no ex-presidente quando ele esteve aqui no ATL ao citar que o Brasil não precisa de hidrelétricas, como a de Belo Monte. O que os indígenas esperam de um eventual terceiro mandato do Lula ?

Acho que o principal projeto de todo mundo é derrotar Bolsonaro e, além disso, é eleger uma bancada mais progressista e mais comprometida com a luta, com as causas de toda essa diversidade. Os mandatos de Lula e Dilma cometeram vários equívocos, mas não tem nem como comparar os governos de Lula e Dilma com o governo Bolsonaro que além de retrogrado é muito violento, fascista e nos colocou como seu principal inimigo. Então agora o que precisamos construir com um possível governo Lula é esse compromisso prévio, junto aos povos, porque a gente tem isso registrado e vamos cobrar. E aí o nosso interesse é que a gente não esteja só la frente depois que ganha, mas a gente quer agora participar desse projeto político do governo Lula com nossa participação direta. E isso acaba amarra mais esse compromisso.

“Em 2018 era trazer a pauta indígena e ambiental para o centro do debate público. E era uma candidatura para dar visibilidade. Agora não, a bancada que estamos lançando é para ganhar”.

O Lula anunciou aqui no ATL um ministério dos povos indígenas caso vença as eleições. Até que ponto um ministério contempla a demanda do movimento ?

Acho que um ministério por si só não resolve muita coisa, né ? A gente falou que por muito tempo não quis assumir Funai, Sesai, mas agora estamos num novo momento. Temos indígenas preparados para assumir Funai, Sesai, um ministério que venha, mas queremos mostrar também de fazer gestão, executar políticas para outros segmentos da sociedade. Então queremos sim pleitear o ministério do Meio Ambiente, da Cultura, a gente não quer só uma coisa exclusiva para nós, quer estar dentro de toda essa gestão do governo.

Guajajara foi candidata a vice-presidenta da República com Guilherme Boulos e agora será candidata a deputada federal / foto: Rafael Duarte

Você tem retido que é do legislativo que tem vindo os maiores ataques contra os direitos dos indígenas. Dá para falar em violências mais graves ? O PL 191 que libera a mineração em territórios indígenas e a PEC do Marco Temporal são os principais instrumentos hoje de extermínio dos povos originários ?

Todos os esses PLs são muito graves, até porque todos são apensados um ao outro. O PL 490 inclui mais 13, inclusive a PEC 215 que em algum momento fracassou, não foi aprovada, mas está dentro do 490. Tem o PL da Mineração, da Grilagem, do Licenciamento, do Veneno, então são muitos projetos de lei que igualmente são perigosos, que afetam diretamente não só a vida dos povos indígenas, mas de todo mundo. O veneno não faz mal só para nós, causa prejuízo para toda a população.

“Os mandatos de Lula e Dilma cometeram vários equívocos, mas não tem nem como comparar os governos de Lula e Dilma com o governo Bolsonaro que além de retrogrado é muito violento, fascista e nos colocou como seu principal inimigo”.

O Rio Grande do Norte é o único estado do país onde não há território indígena demarcado. Vocês tem acompanhado a luta das lideranças de lá. Que mensagem você poderia enviar para os povos indígenas do RN ?

Temos sim esse mapeamento, inclusive a Apoine, nossa organização base da Apib do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo, fez esse levantamento das terras indígenas que estão pendentes, onde não há nenhum tipo de estudo, para que a gente possa começar agora, para a gente retomar isso. Por isso também trouxemos essa pauta para o ATL, demarcar territórios. Bolsonaro disse que não ia demarcar, mas não é por isso que a gente não vai cobrar. Trouxemos essa pauta para o Acampamento, para que a gente possa apresentar essa demanda nesse governo. Neste último ano do governo Bolsonaro vamos para cima com essa exigência pela demarcação dos territórios indígenas. E o Rio Grande do Norte foi um dos últimos a reconhecer os povos que ali existem e tem essa falha ainda pelo reconhecimento dos territórios e estaremos juntos nessa pressão e nessa exigência pela demarcação dos territórios indígenas em todos os estados e o Rio Grande do Norte merece essa atenção por ser o último, né ?

“Bolsonaro disse que não ia demarcar, mas não é por isso que a gente não vai cobrar. Neste último ano do governo Bolsonaro vamos para cima com essa exigência pela demarcação dos territórios indígenas”.

Uma mulher nordestina à frente da principal organização indígena do Brasil, a Apib. Qual o simbolismo desse espaço que você ocupa hoje e quais os desafios tem enfrentado no dia-a-dia desse trabalho ?

É um avanço ter uma mulher já na coordenação executiva, há pouco tempo a gente não conseguia nem chegar nesse lugar de assumir a liderança. Então hoje temos não só esse espaço de fala como também de assumir esse papel nesses espaços de decisão. Temos eu aqui na Apib, agora chegou a Kerexu (Yxapyry), de Santa Catarina, temos a Nara Baré, à frente da Amazônia, na Coiabe… no Maranhão são duas mulheres, no Pará são duas mulheres, no Amapá são mulheres… então estamos cada vez mais assumindo esse protagonismo na luta. Isso não foi dado de graça para nós, ninguém chegou e nos ofereceu. Isso é resultado de longos anos de discussão, de participação e de demonstração de compromisso. No momento em que você está ali, junto, mostrando esse compromisso com a luta, naturalmente você vai se inserindo nos processos e aí não tem como negar mais, você precisa ser reconhecida e legitimada nesses espaços.

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Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"